PMs ameaçaram ‘voltar para matar’ antes de chacina em SP, relatam moradores

    Homem em moto matou três pessoas e feriu outra em Sapopemba: ‘Corri para trás de uma caçamba e me arrastei para me proteger’, conta sobrevivente

    Sobrevivente mostra curativo do disparo que o atingiu no ombro | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

    Dois rapazes são abordados por quatro policiais da Força Tática por volta de 14h30 de terça-feira (1/10), conforme testemunhado pela Ponte. Eles estão em frente ao local onde Augusto Carlos de Souza, 41 anos, Jailson Lima Mota, 44, e Vitória Noemi da Silva, 21, todos negros, foram assassinados em chacina ocorrida no fim da noite de segunda-feira (30/9), em Sapopemba, na zona leste de São Paulo. A presença da tropa na região é constante, conforme dizem os moradores. Inclusive horas antes do crime, quando dizem ter sido ameaçados de morte por outros quatro policiais.

    Com dores no ombro atingido por um disparado de calibre 9 milímetros, o único sobrevivente do ataque a tiros conta que PMs em uma viatura da Tática passaram entre 17h e 18h de segunda-feira (30/9) na entrada da viela em que ocorreu a chacina. “Foi uma ameaça: ‘Nós vamos voltar de noite para matar’. Falaram desse jeito para quem estava lá”, relembra o homem, que não será identificado por questão de segurança.

    Por volta de 23h40, uma moto escura se aproximou da viela. O motorista desceu, levantou a viseira do capacete enquanto atravessava a rua e começou a atirar. Um veículo Fiat Siena de cor prata estava atrás dando cobertura. Vitória levou um tiro no olho esquerdo e morreu na hora, Antonio e Jailson chegaram a serem resgatados, mas não resistiram ao ferimentos.

    O sobrevivente contou à Ponte que o atirador descarregou dois cartuchos antes de sair em fuga. “Eu ouvi os tiros e saí correndo para trás das caçambas de lixo. Fiquei me mexendo e as arrastando para me proteger enquanto ele disparava. Deu tempo de parar, recarregar e continuar atirando”, diz o homem, que teme permanecer em Sapopemba e ser novamente alvo dos atiradores. Ele mora na região há 13 anos.

    Moradores coletaram cápsulas de calibre 9mm e munição de fabricação caseira na cena do crime | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

    “Não tenho lugar para ir, mas aqui não dá para ficar”, explica, mostrando o curativo que protege os dez pontos que levou no ombro direito. O disparo de calibre 9 milímetros varou o seu corpo. Ao menos três cápsulas deste calibre foram coletadas por quem mora na região, além de uma bala de fabricação caseira.

    Pelo menos cinco moradores confirmaram à Ponte a versão contada pela vítima de que policiais em uma viatura ameaçaram retornar à viela que dá entrada à comunidade existente no local e matar quem estivesse por lá. “Foi perto da hora que acaba o turno deles. Depois imagino que voltaram aqui, só pode ter sido”, afirma um morador, com medo de ser identificado.

    Quem vive próximo ao local da chacina conta que a presença da PM por ali é constante. A reportagem da Ponte verificou duas viaturas da Força Tática no entorno, uma delas abordando dois jovens negros a cerca de 10 metros da entrada da favela, onde Jailson, Augusto e Vitória foram assassinados.

    As três vítimas

    Vitória Noemi da Silva ainda vivia o luto da morte do companheiro quando morreu. Segundo relato de quem convivia com a moça, seu esposo, Lucídio, morreu há menos de 15 dias enquanto trabalhava em uma obra como pedreiro. Ele caiu de uma laje.

    As informações apontam que, desde então, ela trabalhava na boca (área de comércio de drogas) que funciona na viela da chacina. “Dizem que ela ganhava uns R$ 100 por dia”, afirma um morador da área. A jovem vestia uma calça do marido quando foi assassinada.

    Augusto deixa três filhos. O ajudante de serviços gerais fazia qualquer bico que aparecesse pela frente para garantir o sustento dele e dos filhos pequenos, contam familiares. “Não era de briga nem de bagunça. Tinha os vícios dele, como a bebida. Todo dia chegava do serviço e ia conversar e tomar umas com os amigos. Foi assim ontem”, comenta uma parente do homem. Ela pensa em deixar o bairro após a execução.

    A história dele é similar à do catador de recicláveis Jailson. Havia menos de um mês que ele estava nas ruas após passar oito meses preso acusado de um latrocínio que a família garante que ele não cometeu. Era recolhendo os materiais que conseguia o seu sustento.

    “Ele estava no bar, tinha acabado de ir lá com o Augusto comprar a bebida. Já estavam indo embora quando aconteceu. O Jailson chegou a ser resgatado, aparentava estar bem, sem nenhum sangramento para fora, mas morreu na cirurgia. Hemorragia”, explica uma familiar que acabara de liberar o corpo para velório e enterro.

    A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos na gestão de João Doria (PSDB), e a PM, comandada pelo coronel Marcelo Vieira Salles, sobre os relatos de ameaças feitas por PMs antes da chacina e sobre as investigações. Às 12h24 de quarta-feira (2/10), a pasta explicou que “o caso é investigado pela 3ª Delegacia de Polícia de Repressão a Homicídios Múltiplos, do DHPP por meio de inquérito policial”. “A vítima sobrevivente foi ouvida e parentes e testemunhas foram notificados a prestarem depoimento, assim como os PMs que atenderam a ocorrência. Todas as circunstâncias são apuradas visando a elucidação dos fatos”, garante a SSP, sem responder sobre as ameaças feitas pelos PMs, segundo depoimento dos moradores da região.

    *Atualizado às 12h37 de quarta-feira (2/10) para incluir posicionamento da SSP.

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