PMs ignoram agressões a mulher e LGBTs na Paulista; comandante tem posts pró-Bolsonaro

8 minutos atrás

Chefe do policiamento do centro de SP, Temistocles Telmo faz postagens com homofobia e notícias falsas pró-Bolsonaro; no domingo, PMs comandados por ele ignoraram agressões de grupos #EleSim em protesto

Postagem de Temistocles reproduz homofobia | Foto: Reprodução/Instagram

O responsável pelo CPA-M1 (Comando do Policiamento de Área Região 1 – Centro), coronel Temistocles Telmo Ferreira Araújo, tem usado a conta dele no Instagram para questionar a sexualidade de quem é contrário à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), criticar a justiça e até compartilhar notícias falsas O coronel da PM paulista é o responsável por chefiar a área central de São Paulo, o que significa ser a voz de comando dos policiais que atuam em regiões como a Luz, a Sé e a Avenida Paulista, palco recorrente de manifestações como a do domingo (30/9), organizada por apoiadores de Bolsonaro.

Na ocasião, pelo menos três pessoas sofreram agressões de bolsonaristas e foram ignorados por policiais que trabalhavam na manifestação. Uma das vítimas é uma jornalista que cobria o ato. A mobilização #EleSim, a favor do candidato à Presidência pelo PSL, foi uma resposta ao movimento #EleNão, que realizou protestos no sábado (29/9), em diversas cidades do país.

PMs comandados por Temistocles expulsam jovens da periferia que faziam ‘rolezinho’ na Paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

O coronel Temistocles compartilhou duas imagens para desqualificar o #EleNão. Em uma das imagens, uma jovem segura o cartaz de cunho homofóbico, dizendo que os homens que apoiam o movimento são gays. A outra postagem mostrava a Cinelândia, no Rio, no dia do protesto, abarrotado de gente e um dos três prédios que desabaram no local há 6 anos, com uma frase irônica: “Manifestação do #EleNão reconstruiu até prédio que desabou”. Contudo, era uma montagem falsa.

Postagem de Temistocles espalha informação falsa | Foto: Reprodução/Instagram

No domingo, pelo menos três casos de agressão durante a passeata #EleSim aconteceram próximos da PM. Em um deles, a jornalista da Rádio Bandeirantes, Ana Nery, estava tentando entrevistar um dos policiais que trabalhava no ato para obter algumas informações, quando um manifestante passou a xingá-la e, em seguida, deu uma cabeçada no celular da jornalista. De acordo com ela, a PM apenas pediu para que o agressor voltasse à manifestação. “A PM só pediu pro agressor de afastar de mim. Não houve um apoio forte dos integrantes da PM pra me ajudar”, afirmou Ana em entrevista à Ponte.

Ana fez questão de dizer que acredita que foi um caso isolado e outros participantes do ato chegaram a pedir que a agressão cessasse e prestaram ajuda à jornalista. Com medo, a repórter desativou todas as suas redes sociais até o fim das eleições.

Nesta segunda-feira (1/10), a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) publicou uma nota repudiando as agressões contra a jornalista. “A Abraji condena a agressão a Ana Nery, ponto máximo na escalada de ataques de apoiadores do candidato registrada ao longo da última semana. Como se o assédio massivo direcionado a jornalistas em redes sociais e as ameaças de violência física não fossem graves o suficiente. É lamentável, ainda, a postura passiva dos policiais militares diante da hostilidade do manifestante”, diz um dos trechos da publicação.

PMs comandados por Temistocles expulsam jovens da periferia que faziam ‘rolezinho’ na Paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A PM também expulsou um grupo de jovens que fazia um “rolezinho” no vão do Masp (Museu de Arte de São Paulo), depois que alguns deles disseram “Ele, não” para os manifestantes pró-Bolsonaro. Quando um dos jovens questionou a atitudes dos policiais, um dos PMs derrubou no chão a cerveja que ele carregava.

Em outro caso, duas jovens que nada tinham a ver com a manifestação e tinham ido à avenida para conhecer o mirante do Sesc Paulista foram cercadas por um grupo de cerca de 10 manifestantes, xingadas, ameaçadas com pedaço de pau e levaram cusparadas. Segundo Nicole Konig, as agressões começaram quando os manifestantes perceberam que a prima dela, Lauren Escobar, ambas de 17 anos, tinha em seu braço tatuado o símbolo do feminismo.

Nicole conta que tiveram sorte quando um dos homens protegeu elas das agressões. “Se não fosse, ele eu não sei o que seria da gente”, diz. Ainda de acordo com a jovem, um policial militar disse que nada poderia fazer, riu das adolescentes e deu a ordem: “vaza daqui”. Um dia após as agressões, conta que ainda está assustada. “Ver um homem de 40 anos correndo com um pau foi a coisa mais sem noção que já vi. É surreal ver 10 homens virem atrás de duas meninas”, afirmou.

Grupo com a bandeira LGBT segundos antes de ser agredido por apoiadores de Bolsonaro | Foto: Arquivo pessoal

Em uma quarta situação também ocorrida no domingo, quatro jovens foram agredidos e roubados após comprar uma bandeira do orgulho LGBT em frente ao Shopping Top Center. Um deles, Willian Cruz, 34 anos, abriu a bandeira e posou para uma foto. Em seguida foi abordado, xingado e agredido por manifestantes. Eu não estava com nenhum item contrário ao PSL, ou algo do tipo. A única coisa que eu fiz foi abrir uma bandeira”, diz Willian. “A nossa sorte foi que ninguém estava armado, já que até um idoso incentivou as agressões”. Ele e os amigos avistaram um grupo de policiais da Rocam, informaram o caso, mas a PM afirmou que nada poderia fazer.

“Até desisti de registrar o caso em delegacia, porque no próprio local a polícia não demonstrou nenhum interesse nenhum”, lamentou.

PMs comandados por Temitocles expulsam jovens da periferia que faziam ‘rolezinho’ na Paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Para o coronel da reserva da PM, Adilson Paes de Souza, em todos os casos, o policial tem o dever de intervir.  “O PM quando se depara com a prática de um delito de qualquer que seja a intensidade deve atuar na detenção do indivíduo em flagrante delito e conduzi-lo ao DP com as vítimas e testemunhas. Caso estivesse sozinho e o agressor com mais pessoas, o PM estaria em inferioridade numérica e deveria pedir reforço. Mas, se por acaso estivesse assim e a pessoa fugisse, deveria chamar uma viatura, levar vítimas e testemunhas para lavrar ocorrência, constando que o agressor se evadiu. Caso o PM estivesse com mais alguém da tropa, deveria ter imobilizado o agressor, detido com ou sem o emprego da força e algema, se necessário, e fazer o registro do fato”, explica Adilson.

Reforçar preconceitos e estereótipos

Sobre as postagens feitas pelo comandante dos PMs que ignoraram as agressões praticadas por grupos pró-Bolsonaro, a diretora do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), Samira Bueno, afirma que, embora não façam uma apologia direta à violência, reforçam preconceitos e estereótipos. “É problemático um policial militar que comanda uma área, uma região que tem uma porção de subordinados, ter uma opinião pública dessas. São fake news. Ele entrou na vibe dos manifestantes da turma pró-Bolsonaro de deslegitimar o que foi a ação de sábado. Moralmente é questionável, dado que, se comanda batalhão e tem algumas centenas de subordinados fazendo policiamento na região, é um posicionamento bastante complicado a julgar pelas manifestações que tivemos”, pondera.

Coronel compartilha postagem do MBL que questiona comoção por Marielle, reforça discursos contrários aos direitos humanos e pede o armamento da população | Foto: Reprodução Instagram
Comparação do protesto dos caminhoneiros e das mobilizações do MST | Foto: Reprodução Instagram

“O que pega é o sintoma de um problema maior de radicalismo e totalitarismo. Não é questão de lado, esquerda ou direita, não se restringe a um lado, é um sintoma na sociedade de que discursos e ações radicais resolvem problemas. É preocupante ver um comandante, figura importante na escala, de prestígio e capacidade de comando, se manifestando dessa forma. Assim dá para entender a seletividade da ação policial por este tipo de postagem. O comandante pensa dessa forma, como operacionaliza o dia a dia e trata seus comandados? E quem discorda? E as feministas? É mais um sintoma do que qualquer outra coisa”, avalia Samira.

Post do MBL faz piada com a deficiência física do ex-presidente Lula | Foto: Reprodução Instagram

Outro lado

A Ponte procurou a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) que, através da assessoria de imprensa privada In Press, informou que a Polícia Militar não tomou conhecimento das agressões citadas na reportagem e negou que os policiais comandados pelo coronel Temistocles Telmo tenham dado um tratamento diferenciado para as agressões cometidas por apoiadores de Jair Bolsonaro.

“A ação da Polícia Militar em manifestações segue procedimentos padrão, incluindo o tipo de tropa empregada. É importante esclarecer que a instituição buscou, independentemente do dia da manifestação no último final de semana, impedir o encontro de grupos divergentes para evitar eventuais conflitos. A Instituição lamenta o episódio ocorrido com a jornalista, em clara demonstração de intolerância e agressividade, características incompatíveis com o Estado democrático. A PM está à disposição da jornalista para que as providências necessárias para a responsabilização do agressor sejam realizadas”, diz a nota da SSP.

Em relação às postagens do coronel Temistocles, a Polícia Militar “esclarece que respeita a liberdade de expressão e o direito de opinião de qualquer cidadão, o que inclui a de seus integrantes, que são os únicos responsáveis por suas declarações nos ambientes das redes sociais e não retrata o pensamento da instituição”.

Sobre as agressões, a PM ressalta que é importante que as vítimas procurem a Corregedoria da Polícia Militar para formalizarem as denúncias.

O corregedor também é apoiador de Bolsonaro.

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