Polícia quer reconstituir execução de PMs contra jovem, mas caso emperra

12/05/15 por Luís Adorno

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Thiago Vieira da Silva foi morto com 10 tiros quando voltava de uma casa noturna com amigos, no Jardim São Luís, zona sul de SP, em 9 de dezembro de 2014

Cinco meses atrás, o vendedor Thiago Vieira da Silva, então com 22 anos, foi executado por dois PMs (policiais militares) no Jardim São Luís, zona sul de São Paulo. O caso foi revelado pela Ponte Jornalismo através de um vídeo obtido com exclusividade. Desde o homicídio – reconhecido assim pelos órgãos que investigam o crime -, o caso está praticamente parado. Os policiais Gilberto Dartora e Rodrigo Gimenez Coelho dispararam 10 vezes contra Thiago, que, segundo amigos e família, voltava de uma casa noturna na noite do dia 9 de dezembro de 2014.

A Ouvidoria das Polícias de São Paulo informou que, no dia 31 de março – último andamento do caso -, policiais que investigam este assassinato afirmaram que a execução de Thiago Vieira da Silva ainda está em fase de instrução, aguardando o recebimento de laudos periciais para, só depois, deliberar à autoridade policial a reconstituição do crime. Os agentes também disseram que são aguardados vídeos e imagens, mesmo esses documentos já tendo sido anexados no inquérito policial e em reportagens jornalísticas.

Gilberto Dartora e Rodrigo Gimenes Coelho, afastados da 1ª Companhia do 1ºBatalhão da Polícia Militar, afirmaram na delegacia que houve uma troca de tiros e que Thiago e um outro rapaz estavam traficando drogas no momento do suposto confronto.

A reportagem da Ponte Jornalismo esteve no local logo após o acontecimento e constatou que havia marcas de bala em apenas um lado da calçada, dando a entender que apenas os policiais atiraram. Moradores da rua onde o crime aconteceu e a família do vendedor, que trabalhava em um comércio com o pai, afirmam que o rapaz não estava com drogas, nem arma e que foi executado.

Thiago Vieira da Silva tinha  anos

Thiago Vieira da Silva tinha anos

Logo após o crime, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que os policiais prenderam, em flagrante, Leandro Pereira dos Santos, de 20 anos, com uma bolsa carregada de drogas, depois de a corporação ter sido acionada para atender uma denúncia de tráfico. A pasta informou, ainda, que o rapaz foi detido após ter se entregado, e que Thiago tentou fugir. Ao lado do corpo, segundo a secretaria, foi encontrado um revólver calibre 38. A versão foi desmentida por todos que presenciaram a ação. Um policial civil à frente do caso afirmou que foi relatado ao Poder Judiciário e ao MP (Ministério Público) o suposto crime de tráfico praticado por Leandro.

O amigo que foi à balada com Thiago aquela noite, não identificado por motivos de segurança, disse que eles conversavam na rua no momento da abordagem. “Ele ainda ajudou um nosso amigo que estava bêbado a voltar para casa. Só de pensar que as últimas palavras dele foram com a gente, dá um aperto enorme”, afirmou à reportagem da Ponte. Um morador da região, que ouviu Thiago pedir socorro antes de ser executado, disse que os policiais voltaram à rua, depois da execução, para revistar os celulares das pessoas. “Apontou a arma e falou pra mim virar pra parede, e pediu o celular. Queria ver se tinha vídeo”, relatou.

Um outro morador afirmou à reportagem que ele e seus vizinhos não viram a mochila que foi apreendida com Leandro, cheia de drogas, muito menos uma arma com Thiago. “Eu e os outros vizinhos que viram, estávamos conversando sobre o caso. Ninguém se lembra de sequer ter visto a mochila. Estavam dando risada na rua”. A mãe da vítima, que pediu para não ser identificada, disse que o filho sempre foi trabalhador e que espera, pelo menos Justiça, para que seu filho “não tenha sido morto como marginal”.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Julio Cesar Neves, condenou com veemência a ação dos policiais. “O policial militar não está aí para matar alguém, para executar uma sentença de morte. O policial militar está aí para prender e para levar esse cidadão para um distrito policial”, afirmou.

Policiais não respeitaram orientação

A ação dos policiais Gilberto Dartora e Rodrigo Gimezes Coelho não respeitou a orientação dada a todos os agentes de segurança pública: o método Giraldi. De acordo com essa orientação, durante uma abordagem que requer a contenção de um suspeito, o policial deve disparar apenas duas vezes, caso seja necessário. Se o suspeito estiver armado e reagir, o agente deve seguir com mais dois disparos seguidos até que a situação fique segura.

Isso não aconteceu com Thiago Vieira da Silva. Ele gritou socorro três vezes antes do primeiro disparo, quando ele parece já ter desacordado. O PM Dartora deu os quatro primeiros disparos, seguidos. Depois, o policial Rodrigo Gimezes Coelho, que estava na cobertura do primeiro agente, também atirou. Ao todo, 10 tiros foram disparados contra o vendedor que voltava da balada com os amigos.

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