Policiais civis de SP presos em MG faziam ‘escolta vip’ para empresário

22/10/18 por Josmar Jozino

Compartilhe este conteúdo:

Justiça mineira indiciou dois delegados e dois investigadores paulistas por participarem de tiroteio que terminou com a morte de policial civil de MG; objetivo era fazer transação ilegal

Dinheiro falso pego com o grupo que fazia a transação ilegal | Foto: Divulgação

A Justiça de Minas Gerais decretou a prisão preventiva dos delegados Bruno Martins Magalhães Alves, 30 anos, e Rodrigo Castro Salgado da Costa, 31 anos, e dos investigadores Caio Augusto Freitas Ferreira de Lira, 36 anos, e Jorge Alexandre Barbosa de Miranda, 50 anos.

Os quatro presos são policiais civis de São Paulo e foram contratados para fazer “escolta vip” e garantir a segurança do empresário Flávio de Souza Guimarães, durante uma troca ilegal de dólares por milhões de reais na cidade mineira de Juiz de Fora, na sexta-feira (19/10).

Segundo apurou a Justiça mineira, Guimarães pretendia trocar dólares por reais com o doleiro Antonio Vilela, de 66 anos, que também está com prisão preventiva decretada. A troca deveria ser realizada no estacionamento do Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora.

A negociação ilícita, no entanto, fracassou depois que os policiais de São Paulo perceberam que Vilela trazia em seis malas R$ 14 milhões em notas falsas. O doleiro era escoltado por quatro policiais civis mineiros. Houve intenso tiroteio entre os agentes dos dois estados.

O investigador mineiro Rodrigo Francisco, 39 anos, foi atingido pelos disparos e morreu. Vilela foi ferido no pé.
O empresário de São Paulo, Jerônimo da Silva Leal Júnior, 42 anos, dono de uma empresa de segurança, levou um tiro no abdome e está internado em estado grave.

A Justiça de MG também decretou a prisão preventiva de Jerônimo Júnior e apurou que ele é irmão, por parte de mãe, do investigador paulista Jorge Alexandre Barbosa de Miranda. Júnior é acusado de ter recrutado nove policiais civis de São Paulo para fazer a escolta vip ao empresário Guimarães. Os agentes portavam pistolas automáticas, radiocomunicadores e coletes à prova de bala.

De acordo com a Justiça, Guimarães foi de São Paulo para Juiz de Fora em um avião fretado e com ele embarcaram o empresário Roberto Uyvare Júnior, o delegado Rodrigo Costa e um advogado.

Além dos investigadores Jorge Miranda e Caio Lira, outros cinco policiais de São Paulo foram para Juiz de Fora em dois veículos. São eles o carcereiro Leandro Korey Kaetsu, os agentes Cristhian Fernandes Ferreira e Cezar Raileanu, e os investigadores Marcelo Palotti de Almeida e Eduardo Alberto Modolo Filho.

Eles não ficaram presos porque não estavam no estacionamento do hospital no momento do tiroteio. Os cinco prestaram depoimento na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo e alegaram que não tinham conhecimento da troca ilícita de dinheiro.

O empresário Guimarães conseguiu fugir e retornou para a capital paulista no avião fretado. Ele está proibido de sair do Brasil. Havia informações de que Guimarães iria se apresentar para depor hoje à tarde na Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo.

Os policiais civis de Minas Gerais Leonardo Soares Siqueira, Marcelo Matolla de Resende e Rafael Ramos dos Santos foram ouvidos e liberados. A Justiça de Minas indiciou os três por prevaricação, crime cometido por funcionário público que deixa de praticar ato de ofício. Eles não ficaram presos porque se comprometeram em se apresentar à Justiça de Minas Gerais no próximo dia 1º de novembro.

Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais, o investigador mineiro Rodrigo Francisco levou ao menos 20 tiros. O empresário Jerônimo Júnior é suspeito de ter atirado nele e acabou ferido no revide. Jerônimo Júnior foi indicado por homicídio doloso.

Já os quatro policiais paulistas foram autuados por lavagem de dinheiro e transferidos para uma ala especial no Presídio Nelson Hungria, em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Eles podem ser processados também por homicídio doloso, sonegação fiscal, estelionato, prevaricação, quadrilha armada e organização criminosa.

O doleiro e estelionatário Vilela teve alta hospitalar e foi removido para um presídio de Juiz de Fora. Em 2009, ele acabou preso pelo mesmo motivo: troca ilícita de dinheiro.

Corporativismos e falta de transparência

A reportagem da Ponte procurou a SSP-SP (Secretaria de Estado da Segurança Pública de São Paulo) para saber os nomes, cargos e departamentos onde trabalhavam os noves policiais do Estado acusados pela Justiça mineira de fazer escolta vip e de envolvimento em negociação ilícita de dinheiro.

Em e-mail enviado ontem à assessoria de imprensa da SSP, a reportagem perguntou o que os policiais civis de São Paulo faziam em Minas Gerais; se os superiores deles sabiam da viagem; onde eles ficaram lá e desde quando; e se portavam armas particulares.

Em nota, a assessoria de imprensa informou apenas que os policiais paulistas presos tiveram a prisão preventiva decretada e que delegados da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo e da Polícia Judiciária da Capital estavam em Juiz de Fora para apurar as circunstâncias do caso.

A nota diz ainda que a Corregedoria iria solicitar a transferência dos policiais presos para o Presídio Especial da Polícia Civil de São Paulo. A assessoria de imprensa não respondeu aos questionamentos, não divulgou os nomes dos nove policiais civis envolvidos no caso nem tampouco os cargos deles e os departamentos onde trabalham.

A Ponte apurou que o delegado Rodrigo Costa atuava no GOE (Grupo de Operações Especiais), espécie de unidade de elite da Polícia Civil, e que o delegado Bruno Alves era assistente no 95º DP (Heliópolis).

A atitude da assessoria de imprensa da SSP, subordinada ao governador em exercício, Márcio França (PSB), em não divulgar os nomes, cargos e locais de trabalho dos nove policiais, é uma demonstração de corporativismo e falta de transparência por parte da Secretaria Estadual da Segurança Pública.

Quando a polícia paulista realiza uma operação de destaque, a assessoria de imprensa envia release à imprensa convocando entrevista coletiva, para dar grande repercussão ao caso. Porém, quando policiais paulistas são envolvidos em ações ilícitas, a Pasta omite informações, dados e não fornece os nomes dos acusados. Age com explícito corporativismo.

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo: