Ponte e coletivo Desenrola e Não me Enrola promovem debate de jornalismo na quebrada

23/02/19 por Maria Teresa Cruz

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‘Direitos humanos e liberdade de expressão’ trouxe visão de comunicadores de diferentes focos e territórios para falar de formação de redes, linguagem e desafios na construção narrativa na periferia

Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

O Centro de Mídia M’Boi Mirim, no extremo sul de São Paulo, recebeu na tarde deste sábado (23/2) o evento “Diretos humanos e liberdade de expressão”, um debate sobre o jornalismo e militância na periferias, a forma de construir narrativas em um momento político tão específico de ataques aos direitos humanos, bem como os desafios na intersecção desses elementos. O evento é fruto da parceria entre a Ponte e o coletivo Desenrola e Não me Enrola e foi possível graças ao nosso financiamento recorrente do Catarse.

Os convidados da mesa foram: Aline Rodrigues, do Periferia em Movimento, Helena Silvestre, militante de movimentos de moradia e editora da Revista Amazonas, Camila Marques, advogada e integrante da Artigo 19, e Junião, cartunista e jornalista da Ponte. A mediação foi feita pelo Ronaldo Matos, do Desenrola e Não Me Enrola.

As discussões propostas passaram por formas de criar redes e a importância delas para articular mobilizações e até trazer informações do território, pautas consideradas urgentes como a discussão da reforma da previdência, o direito à manifestação e as violências que afetam as periferias e que podem ser agravadas com o pacote anticrime, proposto pelo ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro.

Militante do Movimento de Moradia e editora da revista Amazonas, Helena Silvestre pautou sua fala na relação que vive como comunicadora e pertencente a um movimento social e sobre a delicada relação em escrever sobre temas sensíveis à opinião pública estando no território. “Às vezes os protestos são no território e aí você está enraizada naquele local, onde os atores dessa repressão também estão lá permanentemente. No caso da gente que somos mulheres que escrevemos sobre temas como aborto, por exemplo, há todo tipo de ataque, não apenas do Estado. A gente por exemplo numa coluna sobre aborto acaba sendo muito ofendida pelo conteúdo escrito. É uma preocupação permanente”, explicou.

“Tem coisas que a gente tem que publicar anonimamente. A nossa coluna sobre aborto foi uma grande discussão. Há mulheres que são do território e militam pelo direito ao aborto, mas não podem, por exemplo, dizer que fizeram um aborto. A gente publica a coluna anonimamente e isso tem a ver com uma série de coisas, com o machismo, com expressão, com o fato de ser da periferia, com o fato de sermos a maioria negras, indígenas. É uma estratégia que a gente usa para seguir fazendo: escreve anonimamente. Uma questão que a gente se pergunta muito é como a gente se cuida? Como fazer as coisas se cuidando. Essas preocupações estão sendo muito colocadas entre os movimentos sociais”, exemplificou Helena.

Aline Rodrigues, do Periferia em Movimento, explica que o território é fundamental no fazer jornalístico do coletivo do qual faz parte. “Jornalismo de quebrada é isso. É formação de rede. É manter essa rede e é respeitar essa rede. Existe um princípio  jornalístico, claro, de contar com as fontes, mas muitas vezes você escuta essa fonte e nunca mais volta. A gente tem uma aproximação muito grande com as fontes, que em muitas momentos acabam se tornando consultores no sentido de pensar pautas, de construir essa narrativa. É a partir desse olhar que a gente faz jornalismo. É olhar pro nosso território pela nossa quebrada. Por isso que digo que a gente faz jornalismo, faz articulação e por consequência trabalhamos com educomunicação”, pontuou.

Camila Marques falou sobre a liberdade de expressão como direito | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

Um dos temas que apareceram no debate foi a questão da reforma da previdência, que em São Paulo tem aparecido muito na luta dos professores contra o Sampaprev, com diversas mobilizações e protestos realizados no centro da cidade, mas que tem em seu público muita gente da periferia. As manifestações têm sido alvo de forte repressão policial.

“Nós temos experiência de intimidação em protesto, em cobertura de quererem olhar o bloquinho para ver o que estávamos escrevendo”, destacou Aline Rodrigues, do Periferia em Movimento. “Por outro lado, temos no território o que chamo de legitimação pelo nosso trabalho. Por exemplo, já aconteceu de em um protesto no Grajaú, chegar jornalista da grande mídia querendo conversar com as lideranças do movimento que, por sua vez se negam e dizem: só falamos com o Periferia. Isso é legitimidade do nosso trabalho”, completou.

Camila Marques, advogada e integrante da Artigo 19, aproveitou a deixa para falar sobre o seu foco de trabalho, que é liberdade de expressão em suas mais diversas formas. Para isso, retomou as jornadas de junho de 2013 para falar dos ataques ao direito básico ao protesto, destacando que a violência policial sempre existiu, apenas ficou mais evidenciada e aparente por acontecer nos centros das grandes cidades a partir daquele período. Além disso, Camila citou a importância de defender a liberdade de imprensa, especialmente a de iniciativas que tenham um olhar focado no território para contrapor o discurso hegemônico da mídia tradicional. “A gente passou a questionar, por exemplo, a prática usada pela polícia de filmar manifestações, que é o previsto pela normativa ‘Olho de Águia’. A gente passou muito tempo pedindo para a SSP informações sobre o procedimento e, sobretudo, o que afinal de contas eles fariam com aquelas imagens. Iam criar um banco de dados? Por qual motivo? Qual o uso daquilo? A gente nunca teve resposta satisfatória, só algumas esdrúxulas que apontavam para a existência da normativa. Pedimos na Justiça acesso ao documento, mas foi indeferido. Aí a Ponte conseguiu esse documento e publicou. Me parece esse um exemplo claro da importância do jornalismo investigativo e independente”, pontou a advogada.

Cartunista e jornalista da Ponte, Junião falou sobre a necessidade de defender o direito humano mais básico que é o direito à vida, antes de qualquer outra coisa. “A gente está lutando para viver, né? Depois que a gente viver, a gente vai tentar se expressar. Por isso que a Ponte tem como foco a cobertura do direito a vida, que é um direito fundamental”, provocou. “Há histórias que precisam ser contadas e o Estado está aí para impedir que sejam contadas. Nesse sentido, queremos contar essas violências. E, embora a gente não esteja na periferia, nosso olhar é por essa razão que expliquei voltado para a quebrada. O discurso de ódio sempre existiu, mas sinto que agora está mais legitimado. Por não estarmos muitas vezes no território do qual falamos, a preocupação com a volta para a casa muitas vezes não existe. Mas a gente não pode esquecer que foi no centro que a Marielle foi assassinada. Também sofremos intimidação pelas denúncias e locais onde nos propomos a estar. Dia desses o nosso fotógrafo Daniel Arroyo estava em uma reintegração de posse e o oficial de justiça enquadrou ele, quis tirar foto do crachá. Tinham outros profissionais da imprensa, por que será que só ele foi o foco?”, questionou. “Também temos sofrido violência institucional, somos muito processados. A violência não se esgota na questão física. Essa violência institucional parte de grupos com poder, dinheiro, com estrutura que vão atrás de veículos menores interessados em calar essa liberdade de expressão. Querem te impedir de existir”, pontuou Junião.

Houve espaço também para falar em formatos e linguagens dos diversos veículos contemplados no debate. “A questão da linguagem, acho que a gente está aprendendo, testando. Lançamos recentemente um podcast que é uma aposta. Mas antes disso, o que a gente luta para quebrar e até ressignificar é o próprio conceito de direitos humanos, que foi apropriado por uma parcela da população que construiu aquele discurso de direitos humanos para humanos direitos. Então antes de falar de forma, acho que a gente tem que ser didático. Estamos vivendo disputa de narrativas”, explicou Junião.

Para Aline Rodrigues, é preciso tomar cuidado para não subestimar a audiência. “Uma das coisas que a gente entendeu, identificou é a necessidade de sair da internet e trabalhar por exemplo a educomunicação. É pensar qual o tema da vez, o público da vez. Agora, por exemplo, estamos muito no momento de trabalhar ancestralidade e sobre como o ser periférico é atravessado pelas mais diversas violências ao longo de sua existência de violações”, destacou.

Helena Silvestre partilhou a experiência de ser militante e comunicadora, por exemplo, em uma situação de mobilização para um protesto. “A gente tem pensado na forma de como vamos contar essas histórias. Porque os participantes de um ato que acontece no território estão, de saída, marcados. São conhecidos. E esse território é atravessado pela violência desde as caravelas. A gente sempre tem que se perguntar sobre a linguagem que nos conecta e investir nisso. São as metáforas com as quais estamos acostumados que vão comunicar, trazer essa conexão”, avaliou a editora da revista Amazonas.

Para o mediador do debate e integrante do Desenrola e Não Me Enrola Ronaldo Matos, as discussões, bastante ricas, não se encerram com o fim do evento. “Depois que a gente termina esse debate algumas questões ficam no ar como a necessidade de criar redes de comunicação e nossa segurança. A necessidade que algumas pessoas apontaram de trabalhar alguns tipos de linguagem específica para atingir mais pessoas, especialmente no que diz respeito aos ataques aos direitos sociais. Acho que o principal é a necessidade de se construir uma estrutura pública e, veja bem, isso não diz respeito ao Estado. Estou falando de uma estrutura que permita, que torne viável esse jornalismo da quebrada. E não apenas os que estão na quebrada, mas os que abordam a quebrada de uma forma possível”, disse Ronaldo.

A galera toda que participou do debate em frente ao Centro de Mídia M’Boi Mirim | Foto: Divulgação/Desenrola e Não Me Enrola

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