PonteCast: Dona Edite, a diva da Cooperifa, e a narrativa poética da quebrada

26/10/19 por Ponte Jornalismo

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No episódio 37, entrevistamos Daniel Fagundes, cineasta e educador da zona sul de SP, sobre o processo de construção do documentário ‘O olhar de Edite’

Nascido e criado na Piraporinha, no fundão da zona sul de São Paulo, Daniel Fagundes, 33 anos, é um cineasta e educador periférico, que desde o berço teve como referência o resgate da memória e a valorização da oralidade para construir narrativas.

Foi entre o M’Boi Mirim, o Capão e o Campo Limpo que Daniel começou a entender seu espaço de pertencimento e suas infinitas possibilidades de ser e estar. Por ter se projetado como intérprete poética na Cooperifa, projeto idealizado pelo poeta Sérgio Vaz, o Don Quixote de La Perifa, sua protagonista, Edite Marques da Silva, recebeu o epíteto de Diva da Cooperifa. O cineasta frequenta o espaço desde 2006. Mas Daniel e Edite se conheceram muitos anos antes. E ele faz um alerta: “A dona Edite não é uma personagem em si, ela revela a história de várias outras mulheres negras, periféricas, migrantes, que trazem na sua voz, no seu texto, na sua corporalidade, na sua razão de vida, uma memoria ancestral, um algo que se a gente vacilar vai perder que é nossa capacidade de sensibilidade”.

Mulher guerreira, Dona Edite perdeu a visão no começo dos anos 2000 e desde então foi se adaptando a enxergar pelos olhos da poesia, como o próprio Daniel descreve no site Benfeitoria, onde lançou uma campanha de financiamento no valor de R$ 10 mil para ajudá-lo a concretizar o sonho de trazer a público essa história de vida inspiradora. “Enxerga melhor do que muita gente”, diz o cineasta.

Para Daniel, a ideia de trazer e trabalhar esse tema no documentário “é recuperar narrativas que são sistematicamente apagadas. Quando a gente escuta alguém dizer assim: ‘ah, a periferia não tem um pensamento sobre determinada coisa. Tem sim. Tem tudo isso na quebrada. A gente está falando de uma disputa de narrativa que complexifica esses espaços”, afirma o cineasta durante participação no episódio 37 do PonteCast.

Daniel Fagundes e Maria Teresa Cruz no dia da gravação do EP 37 do PonteCast

Dona Edite é natural de Pirapora (MG) e em meados dos anos 60, durante a ditadura militar, mudou-se para a periferia da zona Sul de São Paulo. Do Jardim Mirian ao Parque Figueira Grande, circulou pelos movimentos sindicais, pelas Comunidades Eclesiais de Base e pelos movimentos de cultura da cidade. Parte da verba que Daniel está pleiteando no financiamento coletivo é justamente para ir até a origem de Edite.

Ao falar sobre a potência da memória, Daniel lembra que, um dia, a periferia urbana já foi região rural e quem veio de longe, o migrante, trouxe mais ainda esse sentimento de pertencimento. “É a galera que puxa sua cadeirinha no final do dia e troca uma ideia. É uma herança, uma memória que está ligada ao vínculo”.

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