PonteCast: ‘Meu pedido de ano novo? Que mais nenhuma mulher gritasse a perda de um filho’

30/11/19 por Ponte Jornalismo

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Monica Cunha, coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Alerj e fundadora do Movimento Moleque, fala sobre violência de Estado, dor e saudade

Monica Cunha é mãe do Rafael Silva da Cunha, assassinado aos 20 anos pelo braço armado do Estado. A vida dela foi atravessada pela militância desde que o filho, aos 15 anos, passou pelo sistema socioeducativo. Monica não teve muita opção senão se lançar na luta.

Hoje ela é coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, presidida pela deputada estadual Renata Souza (Psol-RJ), e fundou o Movimento Moleque, que trabalha com adolescentes e jovens que passaram pelo sistema socioeducativo na esperança de mostrar que um outro caminho é possível.

Mas Monica é mãe do Rafael. Ela fez questão de se apresentar dessa forma durante a participação no 2º Seminário de Medidas Socioeducativas promovido pela Ação Educativa que aconteceu na quarta-feira (27/11). Maria Teresa Cruz, editora e repórter da Ponte, também estava entre as convidadas da mesa.

E o PonteCast aproveitou a presença da Monica em São Paulo para gravar com ela o episódio 42 e falar sobre letalidade policial, já que esta semana o Rio de Janeiro atingiu uma marca que deveria se envergonhar: o recorde de mortos pela polícia. Para Monica, o governador Wilson Witzel (PSC)

“Witzel está omitindo porque está querendo ser presidente. A gente já tinha a polícia e o crime organizado. Hoje temos um estado que está praticamente governado por milícias. A preocupação dele não é em fazer políticas públicas e sim quantos votos vai cair na urna para ele virar presidente. Quando o governador fala que vai ‘atirar na cabecinha’, não é em qualquer cabecinha. É na cabecinha das pessoas moradoras de favela, é na cabecinha da juventude negra, das crianças negras. Bala perdida não existe”, critica.

Maria Teresa Cruz tira uma selfie com Monica Cunha após a entrevista

A educadora social também conta a experiência com o sistema socioeducativo e o Movimento Moleque. Para ela, é preciso recuperar a humanidade que há nesses jovens, e, dessa forma, mostrar que um novo caminho é possível. Durante o seminário, alguns jovens que passaram pela Fundação Casa contaram experiências de trabalho de reinserção na sociedade que funcionaram com eles. Um deles, Gabriel, fez oficinas de barbearia, hoje tem seu próprio negócio e virou educador. Um pequeno trecho do depoimento dele pode ser conferido no episódio.

“Unidade socioeducativa, o sistema prisional e o navio negreiro é tudo a mesma coisa. Esses meninos mostraram que eles não querem esse lugar. Eles estão mudando. Eu sempre acreditei, caso contrário não estaria há 16 anos fazendo isso, na militância”, elogia Monica.

No episódio 42, Monica Cunha também falou sobre a “Carta das mães e familiares para o Rio de Janeiro”, divulgada em 21 de novembro, por ocasião dos 30 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança. Mães da Baixada, Mães de Manguinhos, Mães da Maré, Mães sem Fronteiras e Movimento Moleque assinam o texto.

“Não mataram só corpos. Nossos filhos tinham nome, tinham rosto, tinham história. Eram meninos que gostavam de viver, namorar, brincar, sonhar. Eram craques em Matemática, gostavam de cozinhar e tantas outras coisas. É difícil falar. Vamos viver essa perda todos os dias de nossas vidas. Todos os dias, ouvimos eles dizendo: ‘Mãe, cheguei!’. Eles entrando em casa. Hoje só vivemos com a metade do nosso coração. Dizem que somos fortes, guerreiras, mas, na verdade, não temos opção: somos mães e o que nos mantém vivas é o amor pelos nossos filhos que morreram e os que ficaram. Quando o esposo ou esposa morre, torna-se viúvo ou viúva, quando não se tem pai e mãe, são órfãos. Mas quando se perde filho, não tem nome para essa dor que sentimos. Mas temos outros filhos e temos que nos levantar. Buscamos justiça para continuar em pé. Nossa luta é para que outras mulheres negras, faveladas não sintam a nossa dor”, diz trecho da carta. Confira a carta na íntegra aqui.

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