Profissionais de hospitais particulares relatam medo e insegurança em meio a pandemia

25/03/20 por Matheus Macedo, especial para a Ponte Jornalismo

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Direção de hospitais privados teria proibido recepcionistas e auxiliares de enfermagem de usarem máscara para “não criar alarde entre os pacientes”

Ilustração Junião/Ponte Jornalismo

Com a expansão da pandemia de coronavírus, a insegurança e o medo passaram a fazer parte do dia a dia dos profissionais da rede privada de hospitais da capital paulista. Funcionários de dois estabelecimentos relataram à Ponte casos de proibição do uso de máscaras para recepcionistas e auxiliares de enfermagem.

Fernanda (*), recepcionista do Hospital HCor, no bairro do Paraíso, zona sul, foi afastada de suas atividades após manifestar sintomas de tosse e falta de ar. Ela conta que, até a última terça-feira (17/3), último dia em que pôde trabalhar, as recepcionistas estavam proibidas de utilizar máscaras para “não criar alarde entre os pacientes”.

Dois dias antes, no dia 15, a direção do hospital divulgou uma nota confirmando o primeiro caso no HCor. Segundo o hospital, tratava-se de uma colaboradora, técnica de enfermagem, que provavelmente havia adquirido o vírus a partir do contato com familiares que retornaram de viagem ao exterior.

Na segunda-feira (16), um dia após o comunicado, Fernanda começou a apresentar sintomas como tosse e falta de ar. Trabalhou normalmente no dia seguinte e na quarta-feira lhe deram folga. Nos dias seguintes foi submetida a exames. Fernanda foi submetida ao teste da influenza, que deu negativo. A orientação do hospital é que o teste do coronavírus seja feito apenas em funcionários que apresentam febre em seu quadro clínico. Após os exames, decidiram afastá-la por 14 dias.

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De acordo com boletim interno do HCor, elaborado pelo SCIH e divulgado para os funcionários, no dia 23 de março existiam 28 pacientes internados com suspeita ou confirmação para Covid-19. Sendo 7 confirmados e 21 suspeitos.

“Eu atendo mais de 40 pacientes por dia, tendo que pegar nos documentos dos pacientes, que na grande maioria são idosos. Não dá pra saber quem está infectado. A única medida de prevenção é perguntar na primeira recepção se está com algum sintoma, caso tenha eles dão uma máscara”, relata Fernanda.

A situação não é muito diferente em uma das unidades do Hospital Beneficência Portuguesa. A auxiliar de enfermagem Priscila (*) revela que os funcionários não estão autorizados a trabalhar de máscara. Segundo ela, a gestão da unidade alega que não há necessidade, e que, se toda a linha de frente (profissionais que trabalham diretamente em contato com os pacientes) utilizar o equipamento, pode acabar “assustando a população”. A única orientação é que os pacientes com sinais e sintomas de gripe sejam abordados na recepção e recebam máscara.

O medo dos profissionais só cresce, já que o vírus não se manifesta em todos os infectados. “Muitas pacientes entram resfriadas e nós temos que examiná-los sem proteção alguma”, conta.

Priscila relata que alguns pacientes começaram a questionar o porquê de não estarem usando máscaras, mas os funcionários não sabem o que responder. “Estou me sentindo desprotegida, não só por mim, mas por meus familiares e toda a população. O medo não está só entre nós. Está sendo difícil, mas em nenhum momento nós pensamos em desistir, só queremos trabalhar com segurança”, desabafa.

Profissionais dos hospitais Cruz Azul, no bairro do Cambuci, e São Camilo, que possui quatro unidades na capital paulista, ouvidos pela Ponte, afirmam terem equipamentos de proteção, mas mesmo assim convivem com o medo, por si e por seus familiares. Roberto(*), técnico de enfermagem no São Camilo, no setor de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), diz que se sente “extremamente com medo” por ter contato direto com os pacientes.

A rotina mudou de vez nas UTIs, segundo Roberto. Ele afirma que todos os leitos estão ocupados e os trabalhadores vivem em clima de angústia e incerteza. “Nós saímos de casa pra cuidar de algo que não temos noção alguma, temos medo de contrair. Eu vou e volto do hospital com medo de ser infectado, de transmitir. Eu sempre fui uma pessoa muito forte emocionalmente, tenho quase vinte anos de profissão, mas hoje eu tenho medo, por mim e por todos” afirma. Por medida de segurança, decidiu deixar seu filho com familiares.

Já Felipe(*), funcionário no setor de tomografia do hospital Cruz Azul, relata que na quarta-feira passada (18/3) havia quatro casos no seu setor: um foi entubado e os outros seguiram para a UTI. Segundo ele, a direção pede que os funcionários não falem sobre o assunto e ele suspeita que os casos reais sejam mais numerosos do que os divulgados. Felipe acredita que os EPIS disponíveis não são suficientes e faz uma comparação com os equipamentos de países europeus e asiáticos. “Aqui é uma máscara simples e luva. Não temos capacete, viseira, roupa impermeável para atender a população. Houve uma discussão por conta da CCIH ( Comissão de Controle de Infecção Hospitalar), que pediu para não darmos alarde, como se fosse somente uma fase que vai passar”, diz.

Felipe diz que falta uma comunicação efetiva por parte da direção do hospital com seus funcionários. “Está tendo racionamento de máscaras, os funcionários estão trabalhando com medo, principalmente nós que somos linha de frente” diz.

Dias após o primeiro contato com Felipe, ele informou que o hospital começou a modificar as normas quando soube da ida Rede Globo até a Cruz Azul. A disponibilização de máscaras para todos começou no sábado (23/3).

‘Não podemos errar muito’

Para Eliseu Alves Waldman, professor do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, os hospitais devem se organizar e designar áreas exclusivas para os pacientes, além de garantir aos profissionais da área segurança no trabalho. “É preciso exigir das autoridades sanitárias que eles fiscalizem, visitem principalmente as grandes unidades hospitalares e implantem as normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde para o atendimento do coronavírus”, declara.

Waldman aponta que o Brasil deve evitar erros de organização, principalmente nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde os casos são mais numerosos, garantindo a qualidade dos serviços, não só no atendimento aos pacientes, mas nos cuidados de biossegurança, seja em relação aos outros pacientes internados, seja para os profissionais da saúde. “A falta de cuidado nos hospitais teve um papel muito importante na Itália, que levou ao desastre. Precisamos aprender com os erros dos outros. Errar nós vamos errar, mas não podemos errar muito”, diz.

Tomando como exemplo Cingapura, Waldman acredita que seria importante que os serviços públicos e privados procurassem evitar que profissionais de saúde trabalhem em mais de uma unidade hospitalar, prática comum no Brasil. De acordo com o infectologista, o trânsito de profissionais não é bom, pois os hospitais são centro de disseminação.

Em entrevista, a presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), Renata Andréa Pietro Pereira Viana, afirma que se trata de um momento de grande preocupação, pois o país está diante de um cenário novo, e que a enfermagem e é linha de frente na guerra contra o coronavírus. Ela defende que os profissionais devem ter ao menos o mínimo, como materiais e condições para trabalho.

Segundo nota técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a máscara cirúrgica deve ser oferecida para pacientes com sintomas de infecção respiratória, febre, tosse, espirro, dificuldade para respirar e também aos profissionais de saúde e de apoio que prestam assistência a menos de um metro do paciente suspeito ou confirmado.

Para a presidente do Coren-SP, é difícil, em um cenário de pânico, determinar quem são os suspeitos e confirmados e seguir ao pé da letra essa determinação da Anvisa. “Nós precisamos, efetivamente, fazer com que essas determinações aconteçam, e que, as instituições protejam esses profissionais, porque são pessoas que estão na linha de frente, concomitantemente as pessoas precisam ficar em casa. É necessário barrar a disseminação do vírus, porém muitas pessoas não estão entendendo a complexidade e a gravidade de toda essa questão”, ressalta.

O conselho disponibilizou um canal na página da instituição onde recebem denúncias dos profissionais relacionadas ao Covid-19.

Outro lado

Por e-mail, o diretor-executivo da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Luiz Eduardo Loureiro Bettarello, afirmou que o hospital segue todas as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde com relação ao uso de equipamentos de proteção individual (EPI). A mensagem ainda informa que, mesmo antes do surgimento do novo coronavírus, o hospital já adotava as melhores práticas para o atendimento de casos suspeitos de doenças respiratórias, conduta que foi reforçada com a evolução da pandemia de Covid-19.

Por meio da assessoria de imprensa, o Hospital Cruz Azul informou que a segue as recomendações das autoridades acerca do novo coronavírus e vem implementando diversas ações focadas na biossegurança, incluindo o reforço nos treinamentos do uso de equipamentos da equipe assistencial. “A Cruz Azul tem disponibilizado diversos materiais de orientação e capacitação contínua do público interno, a citar: divulgação via cartazes, envio de e-mail marketing, publicação na intranet e vídeo com demonstração sobre a colocação e retirada dos EPI”, aponta.

Já a assessoria de imprensa do Hospital São Camilo declarou que todos os EPIs devem ser ser utilizados pelo corpo clínico e colaboradores em qualquer situação que ofereça risco à sua integridade física. Nestes casos, não há restrição e eles são de uso obrigatório, seguindo protocolo médico.

(*) Os nomes são fictícios. Os entrevistados pediram anonimato

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