‘Quando há violência política, não existe democracia plena’, diz Talíria

13/03/19 por Paloma Vasconcelos

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Em entrevista à Ponte, as deputadas Talíria Petrone e Dani Monteiro, partes do legado político deixado por Marielle Franco, falam sobre as investigações do assassinato e lembram do convívio com a vereadora

Talíria Petrone e Dani Monteiro durante campanha eleitoral | Foto: Reprodução/Facebook

Na véspera de completar um ano da morte de Marielle Franco, executada na noite de 14 de março de 2018, um crime que ficou sem respostas até o 363° dia após a execução, Talíria Petrone, eleita deputada federal pelo Psol-RJ, e Dani Monteiro, eleita deputada estadual do Psol-RJ, contam como fazem de seus mandatos um instrumento para manter viva as lutas e a memória de vereadora. Ambas eram amigas e companheiras de luta de Franco.

Mulheres, negras e periféricas, assim como Marielle, as deputadas sofreram ameaças durante a campanha eleitoral, como é o caso de Talíria, e no primeiro dia de mandato na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), como aconteceu com Dani. A ameaça de Talíria ocorreu por um policial que aprendeu de forma truculenta seu material de campanha – o caso está em trâmite no MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro). Já a ameaça de Dani ainda não teve o autor identificado, com investigação comandada pela Polícia Civil do estado.

Na terça-feira (12/3), pela manhã, finalmente tiveram uma resposta para o assassinato de Marielle: dois suspeitos de terem atuado na execução foram presos, o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, que teria atirado contra a vereadora e o motorista, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que dirigia o veículo. No começo da tarde, a bancada do Psol na Câmara dos Deputados se pronunciou em uma coletiva de imprensa, assegurando que seguirá cobrando uma resposta sobre quem mandou matar Marielle.

A deputada federal e professora de história Talíria Petrone, de 33 anos, disse à Ponte que é preciso ter cuidado com a hipótese de crime de ódio levantada, como pelo delegado da Polícia Civil e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), que investigam o crime. “A gente tem que ter bastante cuidado porque o crime político que matou Marielle e Anderson foi um crime premeditado, planejado e caro, portanto tem interesse político e econômicos muito grandes. É muito possível que tenha ligação direta com as milícias”, explica a parlamentar.

Para Talíria, as bandeiras que Marielle representava não podem ser apagadas na identificação do motivo para sua execução. “É óbvio que isso tudo vem casado com o que Marielle representava no seu corpo e em suas lutas. A escolha pela Marielle tem a ver com o fato de Marielle ser mulher, negra, LGBT e favelada. É um conjunto de coisas que envolvem uma relação muito estreita entre crime e política no Rio de Janeiro, com o poder armado dominando o território da política. Por isso não dá para parar por aí, temos que saber quem mandou matar Marielle”, defende Petrone.

Para a deputada federal, é um dever do estado descobrir quem é o mandante do crime que tirou a vida de Marielle Franco. “É importante saber quem matou, quem apertou o gatilho, ter a responsabilização das pessoas que cometeram esse crime brutal, mas isso é muito pouco para um ano depois de uma execução política. É muito insuficiente saber quem apertou o gatilho, a gente exige que o estado brasileiro oferece para nós uma resposta que seja de fato a investigação do caso e, para isso, só sabendo quem mandou matar, o motivo e a circunstância. Ainda tem muita coisa pra acontecer e a gente espera que essa resposta venha logo”, diz.

Marielle Franco (à esq.) ao lado de Talíria Petrone | Foto: Reprodução/Facebook

Petrone relembra sua campanha eleitoral, que avalia ter sido difícil por conta dos contantes momentos de insegurança, principalmente em relação ao episódio envolvendo o policial militar. “Era o primeiro dia que eu estava sem escolta, eu tive escolta por alguns meses depois da morte da Marielle, então foi bastante complicado. A gente vê crescendo a violência política do Brasil com muita preocupação, é algo muito grave que precisa ser enfrentado. Quando há violência política, quando há tentativa de silenciamento de um setor político, não há uma democracia em pleno funcionamento. Desde a morte da Mari, a gente se preocupa mais com segurança”, conta a professora. E garante: “O medo existe, mas é muito pequeno diante das tarefas que a gente tem pela frente, para enfrentar esse quadro que a gente tem de violência”.

A deputada federal, que era uma grande amiga de Marielle, desabafou sobre os diferentes lutos que enfrentou no último ano. “São muitos lutos. É o luto dessa Marielle que é símbolo de tantas lutas, que ganhou uma representatividade mundial, que se apresentou para o mundo como essa gigante que ela já era. E o luto da companheira do cotidiano, que fazia do meu exercício parlamentar enquanto mulher negra menos solitário. Foi um ano de muita dor, uma dor que eu acho que não vai passar, cheguei nessa conclusão um ano depois. Mas também de um ano com muita convicção de que é momento mesmo de não fechar mais as janelas, não deixar mais as nossas questões, que envolvem as lutas das mulheres negras, secundarizadas. Não dá mais para voltar pro patamar anterior. A execução da Mari desperta um senso de urgência que explicita uma dor, mas traz convicção de ir em frente”, descreve Talíria.

Em entrevista à Ponte, a deputada estadual Dani Monteiro, de 27 anos, cientista social e ex-assessora de Marielle, que já estava com a candidatura definida antes da execução e tinha o apoio da vereadora, reforçou o coro do partido. “A prisão daqueles que puxaram o gatilho para a execução de Marielle Franco é um avanço importante, embora demorado, embora tardio. Agora, as investigações precisam avançar para a sua tarefa principal que é esclarecer quem encomendou o assassinato de uma vereadora legitimamente eleita. Quem mandou matar e por que mandou matar são as perguntas que seguem sem explicação. A família precisa de respostas para seguir em frente apesar da dor; nós, que seguimos as suas lutas, queremos uma solução para esse crime bárbaro; o Brasil aguarda um desfecho e, mais que isso, o país precisa que crimes dessa natureza não se repitam”, entona Monteiro.

Trabalhando ao lado de Marielle desde o começo do mandato, que durou apenas 15 meses e foi interrompido com o assassinato da vereadora, Dani encontrou em Franco uma inspiração. “Marielle foi, e permanece nesse posto, uma inspiração por similaridade. A origem e trajetória pessoal dela, a militância e a execução covarde que ela sofreria guardam muitas semelhanças com as nossas vidas de pobres, negros e favelados. A Mari tinha uma origem e uma fala parecidas com as minhas”, relembra Dani.

Dani Monteiro ao lado da bandeira com o rosto de Marielle | Foto: Divulgação/Anelizze Tozetto

Com a Marielle, assegura a deputada estadual, que viveu até os 12 anos no Morro de São Carlos [localizado no bairro do Estácio, na zona norte do Rio de Janeiro], enxergou a si mesma como um corpo político. “[Marielle] Foi meu primeiro modelo, o primeiro espelho em que olhei e vi que era possível ir além do lugar que nos é reservado historicamente: a senzala, primeiro, e a favela, hoje. Para além disso, Mari foi um exemplo na defesa de uma sociedade que reduzisse as desigualdades e garantisse direitos humanos. Marielle agregava diversas pautas e deixou inspiração tanto na macro política como no dia a dia”, enfatiza Monteiro.

Dani garante que ‘as sementes de Marielle’ seguirão na luta. “Entendemos, dolorosamente, que a manutenção dos direitos conquistados depende constantemente da nossa ação política. Não podemos dar os direitos sociais e o estado democrático como permanentemente garantidos, pois eles dependem da nossa mobilização cotidiana. O dia seguinte à noite de 14 de março de 2018 amanheceu muito triste. Mas nós eu e as demais deputadas eleitas pelo Psol – entendemos que a partir dali, se tentaram enterrar a história e as lutas de uma força política que se levantava, seríamos as suas sementes”, finaliza a deputada estadual.

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