Quando jovem, Ivani sonhava em ser policial. Adulta, viu a PM matar seu filho

Em 2015, o filho de Ivani Lira Santos, Breno, foi assassinado, numa ação atribuída a um grupo de extermínio formado por policiais militares que matou 21 pessoas entre 2014 e 2015, em Mogi das Cruzes (SP)

Ilustração: Junião

Para marcar os 15 anos dos Crimes de Maio, a Ponte publica 15 perfis de mulheres que perderam familiares para a violência policial, originalmente publicados no livro “Mães em Luta”, organizado por André Caramante e editado por Ponte e Mães de Maio em 2016

Assim como tantas outras, Ivani Lira Santos, hoje com 47 anos, poderia ser apenas mais uma paulistana, filha de baianos que vieram para São Paulo em busca de uma vida melhor. Não fugindo do padrão, ainda na adolescência trabalhou em casa de família, voltando para a própria casa — a dos pais — apenas uma vez a cada quinze dias.

O emprego de doméstica não durou muito tempo, foi só até ficar grávida de Diego, seu primeiro filho e fruto do relacionamento com seu primeiro grande amor. “Aquele amor de primos, primeiro namorado, sem juízo.” Os primos foram morar juntos, mas o casamento durou apenas alguns meses e Ivani voltou à casa dos pais, no Jardim Nakamura, periferia da zona sul da cidade de São Paulo.

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Por lá, ficou os últimos meses da gravidez e ainda um tempo com o pequeno Diego, hoje com 30 anos. Com a separação, o primo de Ivani sumiu, sem assumir o filho. “Não tive mais contato, só sei que hoje é falecido.”

Além do filho, o casamento deixou como herança a saída do emprego na casa de família para ingressar em uma padaria. Lá trabalhou como balconista e pediu as contas quando teve oportunidade melhor numa lanchonete no aeroporto de Congonhas. Naquela lanchonete, Ivani ficou alguns anos, até decidir voltar à padaria onde trabalhara antes.

De volta à padaria, Ivani conheceu o seu colega de trabalho Aurino Pedrosa Vale, com quem namorou e se casou em 1995. Dessa vez, o casamento era diferente daquele primeiro amor, com o primo. Os dois já tinham filhos de outros relacionamentos, eram mais maduros. Foram morar no Jabaquara, também na zona sul paulistana. No começo do casamento, o casal não queria ter filho logo, por já terem passado pela experiência da separação após ter filho. Foram cinco anos de planejamento até Ivani engravidar de Breno. “Estava tudo bom, porque foi tudo planejado.”

Enquanto isso, o pequeno Diego foi morar com os avós, que se mudaram para Mogi das Cruzes (Grande São Paulo). Desde a barriga da mãe até os três anos de idade, o primogênito de Ivani morou na casa dos avós, com a mãe. Isso fez com que o menino fosse apegado aos avós. Como Ivani não tinha folgas na padaria, decidiram que Diego também mudaria de cidade. Seis anos depois, quando Breno tinha dois anos, Diego quis voltar a São Paulo para morar com a mãe e Aurino.

A vida seguia conforme o planejado. A família vivia de forma estável. Aos sábados, Ivani ia para a igreja católica com a dona da casa onde morava. Levava o Breno, que adorava os encontros. Aprendeu a rezar o Pai Nosso, a Ave Maria e a Salve Rainha e isso deixou Ivani orgulhosa. De Jabaquara, Ivani, junto com Aurino, Diego e Breno, foi morar em Interlagos. Depois, no Residencial Palmares, no Grajaú, bairros também na zona sul de São Paulo. Em 2005, a família partiu para Mogi das Cruzes, no bairro de Jundiapeba, para a realização de mais um grande sonho: a casa própria. A mãe de Ivani já morava lá havia cerca de dez anos e comprou o terreno no qual Ivani foi construindo aos poucos. Já na casa própria, Ivani passou por grandes mudanças. Primeiro, se separou de Aurino.

— Ele ficava muito na porta de boteco com os amigos, acabou se ausentando de casa, então, como eu já fazia o papel de mãe e pai, não dava mais certo continuar.

Depois, mudou seu ramo de atuação profissional, começou a trabalhar como vendedora em shopping.

No entanto, antes da separação, Ivani ainda teve o terceiro menino. O caçula Guilherme, hoje com 11 anos. A mãe destaca bem a diferença da personalidade dos irmãos: Diego, o mais velho, é mais fechado, tem muito ciúmes da mãe e não dá nenhuma atenção quando ela tenta falar sobre novas paqueras. Breno era o oposto, gostava de falar, saber das paqueras da mãe e principalmente brincar —até quando brigavam.

Já o caçula fisicamente parece com Diego, entretanto “adora soltar pipa e fazer o passinho do Romano [tipo de dança feita por jovens da periferia das grandes cidades de São Paulo], igualzinho ao Breno”.

Aliás, não é apenas o jeito de Guilherme que faz Ivani lembrar de Breno. As fotografias dos três filhos, coladas na porta da geladeira, as músicas dos Racionais MC’s e funks, e até mesmo a esquina de sua casa, onde o menino de 14 anos foi assassinado em 2015, também fazem Ivani derramar lágrimas.

— Pode passar o tempo que for e acontecer o que for, nada vai me fazer esquecer.

Apesar de lembrar todos os dias, tem um dia na semana, em especial, que é muito mais depressivo para Ivani: as sextas-feiras. Breno foi morar com o pai quando tinha 12 anos e passava os finais de semana com a mãe. Ele chegava na sexta-feira à noite. Trazendo toda alegria, companheirismo e histórias sobre filmes e games que adorava compartilhar com a mãe, por mais que Ivani não entendesse quase nada do assunto.

Toda sexta-feira à noite Ivani esperava o filho-amigo, com quem conversava sobre as paqueras de ambos, os empregos —principalmente o que Breno havia acabado de conseguir, “de colocar plástico em vidros de mel, que dava o dinheiro do suor dele” — e tantos outros assuntos que eles encontravam. Fazem falta até as brigas entre Diego e Breno, por causa da pelinha do frango assado que comprava na padaria nos finais de semana.

O RG de Breno, preservado até hoje, faz a mãe se emocionar ao lembrar da triste coincidência estampada em um dos lados do documento: a data de expedição é a mesma de sua morte. Breno e Ivani tinham ido tirar o RG do jovem na primeira semana de 2015. Breno havia acabado de voltar da praia, onde passou a virada do ano com a família paterna. Assim que voltaram para Mogi das Cruzes, o pai mandou Breno para a casa de Ivani para irem tirar novo RG. O documento foi expedido somente semanas depois, o que fez coincidir com o mesmo dia em que Breno foi morto.

Ivani também guarda as roupas, calçados e acessórios de Breno, mas Diego usa algumas peças herdadas do irmão. As roupas, hoje um dos principais itens de recordação para a mãe, eram muito valorizadas pelo próprio Breno também.

— Ele gostava de usar aquelas roupas caras. Boné daquela marca Oakley. Tênis de uns R$ 300.

No último Natal ao lado de Breno, Ivani realizou alguns de seus desejos, assim como de outros filhos também. Foi ao shopping center e, antes de começar a trabalhar, fez uma compra de quase R$ 900 só de tênis para os três filhos. Pela primeira vez, Breno ostentaria o tão desejado Timberland. Tudo isso enche Ivani de orgulho para dizer que foi graças ao suor dela.

Dentre os materiais que Ivani guarda para lembrar de Breno, também estão centenas de fotografias. Contudo, uma chama mais a atenção: o menino na frente de um policial militar, segurando um cavalo. Ivani lembra com clareza das fotos tiradas em 2003 com a Cavalaria, na Praça da Sé, centro de São Paulo. Foi em um dia no qual foram ao salão de cabeleireiro em que sua tia trabalhava, no viaduto Dona Paulina. O salão atendia muitas pessoas que iam ao Fórum João Mendes e vivia com muitos policiais ao redor. Isso despertava a admiração de mãe e filho.

Além de reverenciar o trabalho da polícia, Breno queria ser um, caso não conseguisse ser jogador de futebol. Essa segunda opção de Breno animava muito Ivani, que também sonhava, quando mais jovem, em ser policial, entretanto “naquela época, o pessoal falava que para ser polícia não podia ser baixinha, então deixei o sonho de lado”. Não era só o fato de ser baixinha que deixava Ivani longe do perfil padrão para ser policial. Ela era extrovertida, sorridente e super agitada. No entanto, tudo mudou depois da madrugada de 24 de janeiro de 2015, quando seu filho Breno morreu. Ivani passou a viver com pensamento longe, às vezes até esquece de tirar a comida do fogo. Procura não ficar muito tempo sozinha para não ser tomada pela tristeza e pelas lágrimas.

As mudanças atingiram até seus gostos musicais. Quase não escuta mais aquelas músicas bregas dos anos 90. Ela nunca imaginava que, duas décadas depois de servir café para os meninos dos Racionais MC’s, iria ouvir com tanta frequência os raps do grupo que frequentava a padaria onde trabalhou no Capão Redondo. A música que Breno mais gostava, e hoje a que Ivani mais gosta, é Vida Loka Parte I.

Também não esperava que teria no celular dezenas de funks. Os mesmos que ela insistia em mandar Breno ouvir em volume mais baixo quando estava na garagem, com as potentes caixas de som, compartilhando as músicas com os amigos da vizinhança. O toque de chamada de ligação do celular de Ivani é um funk Acabou, do MC Tom. A música que tanto emociona Ivani conta a história de um jovem que teve o sonho interrompido ao ser assassinado.

Quase dois anos após a morte do filho, Ivani não se alimenta mais como antes, não tem o ânimo que já teve e quase não tem mais força para continuar.

— Já pensei muitas besteiras, até em me matar, mas tenho a consciência que tenho um filho pequeno que depende de mim.

Guilherme, o menino de sete anos, foi o principal motivo de Ivani não ter tentado tirar a própria vida. Ela perdeu o chão e a razão de viver quando se deparou com o filho caído na esquina de sua casa.

Ivani tomava banho quando Breno a avisou que ia à rua pegar o sinal do wi-fi dos predinhos da Caixa. Era pouco mais de 1h da madrugada. De dentro do banheiro, ela ouviu o barulho dos tiros e uma vizinha chamando por seu nome no portão. Depois de minutos, quando colocou a roupa e foi para rua, encontrou Breno morto na esquina.

Imediatamente, Ivani recebeu a informação de que um carro Ford Ka, prata, com o farol alto, havia passado e dois homens atiraram contra as pessoas que estavam na rua. Breno e um homem de 29 anos, Celso Gomes, foram atingidos e morreram no local. Na mesma noite, um outro ataque a tiros matou três jovens em outro bairro de Mogi das Cruzes, a Vila Caputera.

As investigações da Polícia Civil apontaram que os responsáveis pela chacina da Vila Caputera seriam dois policiais militares: Fernando Cardoso Prado de Oliveira e Vanderlei Messias Barros. Ambos foram expulsos da corporação. Eles fariam parte de um grupo de extermínio que matou 21 pessoas em chacinas sequenciais que aconteceram de 2014 a 2015. Os dois ex-PMs foram condenados, em 2019, por uma outra chacina, que deixou três mortos e dois feridos, ocorrida em 8 de julho de 2015, no bairro Jardim Universo. Até hoje, contudo, Fernando e Vanderlei não foram julgados pela chacina da Vila Caputera, nem pelas mortes de Breno e Celso em Jundiapeba.

O delegado Rubens José Ângelo, do Setor de Homicídios de Mogi e responsável pelas investigações, numa entrevista à Ponte em 2019, destacou que exames balísticos permitiram confirmar que as balas disparadas no ataque da Vila Caputera eram semelhantes às munições utilizadas nos assassinatos de Breno e Celso, ocorridos uma hora e meia depois, porém com armas diferentes. Dessa forma não foi possível estabelecer ligação entre os dois ataques. 

Horas antes de ser morto a tiros, Breno tirou várias selfies com a mãe. Embora Ivani tenha fotos de Breno na praia, na casa do pai, com os amigos, com a família, com a camisa do São Paulo, sem camisa, com roupas de grife, entre vários outros momentos, a mãe vive na esperança de recuperar aquelas fotos, dos dois juntos, tiradas nos últimos momentos da vida do filho. Não se sabe se os assassinos levaram o celular ou se alguém que estava na rua no momento dos tiros o pegou.

A injusta situação nunca havia sido vivenciada por ninguém da família de Ivani. Pela primeira vez, a violência do Estado virou realidade. Ela, que até aquele momento confiava cegamente e admirava o trabalho da Polícia Militar, se sentiu frustrada e não encontrava mais refúgio em seu sonho de moça.

Distante da violência do Estado até perder o filho, Ivani não conhecia nenhum movimento organizado com pessoas que passaram pelo mesmo problema. Depois de alguns meses da morte de Breno e outros jovens em chacinas, as colegas de trabalho de Ivani lhe apresentaram o trabalho do Movimento Mães Mogianas, formado por mães que perderam os filhos para a violência policial, a violência estatal.

Ivani se interessava muito, mas devido ao trabalho e à falta de contato com as mães, não conseguia ir às manifestações ou reuniões do movimento. Até que um dia saiu no jornal local uma nota falando de uma reunião que as Mães Mogianas fariam na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Mogi das Cruzes. O patrão de Diego viu e deu o jornal ao jovem. Imediatamente ele avisou à mãe, que foi ao encontro das novas parceiras de luta por Justiça.

Daquele dia até hoje, as Mães Mogianas, assim como as Mães de Osasco e as Mães de Maio, são fontes de inspiração para Ivani lutar e viver. Além de Justiça, ela tem o desejo de conseguir chegar até os assassinos do filho e perguntar se eles conseguem colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Porque ela, desde aquele 24 de janeiro, não tem mais nenhuma noite inteira de sono.

Sequer passar por psicólogos Ivani conseguiu. Toda burocracia para receber o atendimento tirou sua vontade de receber ajuda psicológica. As conversas com as outras mães, as trocas de dores, os conselhos e os incentivos servem para seguir caminhando pela Justiça.

Juntas, as Mães Mogianas conseguiram algumas conquistas, como a prisão de policiais militares envolvidos em chacinas em Mogi das Cruzes. Sozinha, Ivani conseguiu reformar a casa, construir mais cômodos no fundo, e ampliar o espaço de sua residência, assim como Breno tanto desejava.

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