‘Quanto de sangue indígena você tem nas veias e quanto você tem nas mãos?’

    Mc Lírica integra o grupo Graja Minas e carrega no sangue a violência ancestral aos povos indígenas e até hoje a rapper procura descobrir de qual (ou quais) etnias faz parte; em suas músicas, fortalece a luta contra o genocídio e a figura cristalizada dos povos indígenas

    ‘O movimento hip hop me trouxe essa questão, de pensar o todo. Saber minha ancestralidade é pensar na minha identidade’ | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Lírico vem do latim. Uma palavra viva do século VII antes de Cristo. Lírico carrega a mudança de uma língua morta e também do substantivo transição. Na Grécia, era a poesia entoada pelo instrumento lira. No Renascimento, tornou-se poema com musicalidade. Lírica é o vulgo de Lilian da Silva Cunha. Uma mulher que se viu como artista em resultado de “muitas coisas”. De uma “mistura lírica”.

    Lilian significa lírio da paz. Fora do registro, ela carrega em seu sangue um Brasil milenar que abomina a paz. Um país que transformou o passado de Lilian em uma violência silenciada e quase desconhecida. 500 anos é o número que falam sobre a descoberta de um país que já existia. Em 500 anos não se descobriu, se colonizou.

    ‘Quero que saia essas indígenas maravilhosas’, pediu Lilian durante as fotos |Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Lilian estuda psicologia para entender as relações humanas e a humanidade. A Mc Lírica protesta contra o apagamento e o genocídio indígena. Para poder contar a sua própria história nos palcos, precisou estancar o tempo e voltar à estaca zero: “Quem sou eu? De onde eu vim?”, pensa. Se conhecer não era uma retomada interna. Era a busca de um Brasil profundo, tão profundo que pareceu se tornar inalcançável.

    O hip hop chegou como um nó desfeito. Um emaranhado de dúvidas. Dizer sobre si era saber. E de raízes próprias Lilian pouco sabia. A mulher nascida e criada entre as periferias paulistanas, principalmente no Grajaú, no extremo sul de São Paulo capital, descobriu o nascimento. Aos 10 anos, nasceu – um pouco – em Lilian a apagada cultura indígena. Ficou de resguardo. Até que o nascimento passou a ser visto como um parto selvagem. Com dor, descoberta e espera de um novo ser. Lilian se tornou mãe. Não de um ser. De uma cultura que, até hoje, aos 27 anos, ela cuida, alimenta e protege. Lilian tornou-se filha e mãe do Brasil profundo. Sente no sangue a resistência de um povo que terra não é espaço. É tempo, é ancestralidade, é si próprio.

    Lilian recebeu a reportagem em sua casa no Grajaú, em um sábado chuvoso e frio. Para nos acolher, ela serviu bolo de fubá com goiabada e café, com um toque de canela| Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Antes de Lilian subir no palco e anunciar ao público o vulgo Lírica, ela precisou sentar e descobrir a história. A sua história. Se reconhecer como mulher indígena urbana. Indígena pela ancestralidade da família biológica da mãe, urbana por não ter vivido o contexto de aldeamento. “Por todo esse rompimento, muitas pessoas são indígenas urbanas aqui [em São Paulo]. Mas não se identificam, não se entendem como indígenas. Por toda essa violência, por toda essa cultura mesmo, que coloca o indígena no não-lugar. Como se ele não existisse na sociedade. Nem mesmo os que estão aldeados, né? Se não estiver dentro daquele padrão cristalizado, aquele estereótipo do que é ser indígena, ele também não é considerado índio. Tipo, porque usa celular. Então, assim, quem é o indígena? Ele não existe”, explica.

    Ao lado da mãe, Maria Elisa, Lilian adquiriu uma passagem sem volta. A ida de um mundo invisível. Tão invisível quanto genocida. Descobriu que para chegar onde chegou, a família foi laçada. “Não um laço literal”, um eufemismo de violência, estupro e retirada do habitat. Por conta do “laço” de sua bisavó, as matriarcas da família pouco dizem sobre o passado. É como cravar uma faca. Trazer para o presente ressignificado a dor de um passado que tenta se apagar, mas permanece tão vivo. “É uma coisa que já faz tanto tempo isso, sabe? É difícil, né? Muita treta”, desabafa.

    Maria Elisa, mulher indígena e mãe de Lilian e outras duas filhas, cresceu em uma família de amor, não de sangue. Angelina criou Elisa e mais outros três filhos adotados, filhos paridos foram dois. Na família, nada fora escondido e as relações entoavam conforme o esperado.

    Ainda que as condições familiares estivessem em sincronia, Maria Elisa queria mais de si e, para isso, precisava descobrir o seu antes. Em um processo lento e minucioso, a artista plástica e mãe de três meninas, descobriu sua parte biológica. Quando Lilian tinha uma década de vida, a família conheceu o traço que faltava para se descobrir como um todo. Perceberam que dentro de cada corpo corria sangue de um país – até então – distante. Se viram parte de um Brasil profundo, vivo e visceral.

    O corpo de Lilian é marcado por diversas tatuagens que, em sua maioria, carregam a cultura indígena| Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Conhecer a ancestralidade indígena não foi o bastante para que a palavra falada trouxesse histórias. Diva, a mãe biológica de Maria Elisa, se afasta e abafa o seu próprio passado – o seu próprio ser. Porque falar de si dói. Falar de si é relembrar a força violenta, a retirada de sua terra, a retirada de si. “O território indígena é o indígena. O indígena é a própria terra. O espaço é vida. Território é vida”, define. Enquanto território, Diva deixou de existir e prefere calar quando o assunto é (re)descoberta.

    De pertences físicos sobre o que foi a família Silva existe um único documento: a certidão de nascimento do trisavô e da trisavó. O papel aponta que a trisavó era da região de Cássia dos Coqueiros, em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. E que o trisavô veio de Minas Gerais, do município de Salinas. O casal se uniu no ano de 1922. O pouco de palavra escrita que se tem da cultura indígena e ancestral de Lilian, é o gatilho para a família descobrir de forma ainda mais profunda o “quem eu sou”, “de onde eu vim?”. “Estou chegando aí, nesse lugar de descobrir a qual etnia nós pertencemos ou quais etnias nós pertencemos. Até tremi tudo as pernas na hora que eu peguei o documento”, conta a MC.

    Lilian só pôde proferir a identificação indígena urbana no Rap. A expansão da consciência, da política, do movimento social e da afetividade foram gatilhos de se reconhecer. Olhar para si, para a sua identidade e gritar contra uma “estrutura” que coloca iguais como inimigos. “O movimento hip hop me trouxe essa questão, de pensar o todo. Saber minha ancestralidade é pensar na minha identidade”, afirma.

    ‘Eu sou muitas coisas, né? A gente é muitas coisas ao mesmo tempo’| Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    A música, o hip hop, as rimas, as batidas e sua origem. Tudo se uniu em um prol: de Mc Lírica poder cantar sobre a sua busca. Da questão “urgente” em se pensar os povos indígenas. Mais do que uma consequência de descoberta, que respinga nas letras de suas músicas, Lírica trabalha para que suas questões apareçam em suas músicas. Quer proferir, incomodar e questionar: “Quanto de sangue indígenas você tem nas veias e quanto de sangue indígena você tem nas mãos?”, questiona.

    Em sua primeira experiência com o Rap, Lilian chegou com o “Pé na Porta”. O projeto nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Assis, e questionava o sexismo na cena hip hop. Um trabalho não só de espaço, mas de protagonismo. Hoje, a Mc Lírica integra o grupo Graja Minas e também segue em carreira solo. Já Lilian segue em sua descoberta. Por vezes no fundo do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo. Por vezes em Assis, no interior paulista, onde estuda psicologia na Unesp. Em uma família biológica cheia de Marias acopladas ao Silva.

    A vitrola de Lilian fica em um lugar de destaque na sala em sua casa no Grajaú, zona sul de São Paulo. Para tocar, ela escolhe Jorge Ben| Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Ainda que carregue violência ancestral no sangue, ela é calma, aconchegante. Escolhe Jorge Ben para tocar em sua vitrola vermelha e passa um café especial, com um toque de canela.

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