Quem sabe forja ao vivo

24/06/15 por Ponte Jornalismo

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A agilidade do policial militar colocando uma arma na cena do crime, no flagrante de violência policial transmitido ao vivo nesta terça-feira, 23, pelos dois programas de entretenimento mórbido, é um teatro macabro que persiste há mais de 40 anos e que parece introjetado como prática corriqueira
Momento em que o PM atira nos homens já caídos. Um deles está com as mãos levantadas. Foto: reprodução TV

Momento em que o PM atira nos homens já caídos. Um deles está com as mãos levantadas. Foto: reprodução TV

Há diversos pontos a serem debatidos na cena estarrecedora de flagrante de violência policial transmitido ao vivo nesta terça-feira, 23, pelos dois programas de entretenimento mórbido e desinformação sobre segurança pública. “Bandidos em fuga! Que bela imagem! Merece uma medalha!” Vamos deixar o papelão desempenhado pelos “animadores” de auditório. O debate já está intenso, com disparos para todos os lados. A Ponte Jornalismo vai destrinchar outro ponto: a agilidade com que o policial militar aparece no vídeo colocando uma arma na cena do crime. Aparentemente, a intenção é simular um tiroteio. Um teatro macabro que persiste há mais de 40 anos e que parece introjetado como se fosse prática corriqueira.

Veja a sequência de imagens abaixo nos vídeos. A adrenalina da perseguição é intensa. Um capacete é jogado na direção do PM Claudinei Francisco de Souza, 39 anos, do 12* Batalhão. O policial efetua dois disparos. Os graves problemas ocorrem em seguida. Os dois que estavam na moto caem. O policial Souza para e dispara quatro tiros. Uma mão está levantada. Em seguida, o PM agacha-se próximo aos suspeitos, sai com uma arma e dispara contra o chão.

O roteiro agora todos já sabem. Porque se repete há décadas. O policial vai apresentar a versão de que foi vítima de disparos. A prova forjada dificilmente pode ser refutada diante de investigadores passivos. Promotores de um Ministério Público anestesiado devem aceitar a versão oficial. E tudo segue normalmente.

O mais impressionante é que todo nosso sistema de Justiça e de aprisionamento gira suas engrenagens a partir de depoimentos de policiais. Esses mesmos que parecem capazes de forjar provas em questão de segundos. Veja no caso das prisões por droga.

A absoluta maioria das prisões (87%) ocorre em flagrante feito pela Polícia Militar a partir de patrulhamento de rotina (62%). Em outras palavras, um jovem suspeito negro nas ruas da periferia é identificado e se inicia a perseguição. No levantamento feito para Prisão Provisória e Lei de Droga (2012), de Fernando Salla, Maria Gorete Marques de Jesus e Thiago Thadeu Rocha do Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP), drogas foram apresentadas em somente 39% dos casos. A fragilidade das provas aceitas para a condenação dos acusados foi o que mais impressionou os pesquisadores, sendo que o depoimento do policial autor do flagrante era sempre o eixo a partir do qual o réu era mandado para a prisão.

Observe-se agora as punições previstas para policiais que inventam depoimentos ou colocam drogas inexistentes com o objetivo de prender o suspeito. O advogado Luiz Francisco de Carvalho Filho escreveu sobre a pena prevista pela Justiça Militar: “punição de um mês e seis dias de detenção, com sursis (suspensão condicional da pena), já que, de fato, o encarceramento não contribuiria para a “ressocialização” dos réus, que permanecem na ativa, prontos para, de novo, “arrepiar”, escreveu Carvalho em sua coluna na Folha de S. Paulo.

O resultado são mentiras recorrentes se repetindo há décadas. Em abril, o jornal o Estado de S. Paulo apresentou a fita em que o coronel do Exército Erasmo Dias dava risadas ao contar sobre como policiais forjaram a cena no caso Rota 66, ocorrido em abril de 1975. São exatos 40  anos. Naquele ano, homens da Rota mataram três jovens e depois simularam o tiroteio. Erasmo confessou a armação, antes de morrer; ao repórter Marcelo Godoy:

– Pararam, não sei o quê, fugiram’. “Trinta quilômetros de perseguição num viaduto”. E bé bé bé, quando chegou, um fez assim, outro fez assim e ‘bam bam, bam, bam’ (…) Aí eu peguei assim armas, fiquei com o tambor na mão, caiu (risos). Eu falei: ‘Os bandidos estavam com essas armas, falei pro sargento? ‘É. Meu amigo, eu peguei a arma (e mostra ele enfiando em uma gaveta), numa gaveta assim, vai tomar no rabo. Deixei a coisa pra lá. ‘Mais alguma coisa?’ Não, faz o inquérito aí, pô. (…) Eles não estavam armados porra nenhuma (risos). Não pode enfrentar a polícia, não pode fugir da polícia, quem foge da polícia é bandido. Então, imagina o que os caras estão pensando. Depois vem a merda, conforme o caso enruste uma maconha, conforme o caso enruste uma arma, é uma autodefesa, pô”.

Erasmo Dias deu risada sobre um crime forjado há 40 anos atrás. Os teatros macabros continuaram se repetindo. E depoimentos mentirosos viraram a base de toda a Indústria Nacional de Encarceramento e Injustiças em Massa.

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