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Racismo e demonização do candomblé fizeram mãe perder guarda de filha, apontam religiosos

07/08/20 por Caê Vasconcelos

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Pastora afirma que caso é “uma gravíssima situação de racismo religioso” e ialorixá acrescenta: “nunca teve respeito por ser um culto preto no Brasil”

Terreiro de candomblé de Batia Jello, na zona leste de SP | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

Já imaginou uma mãe ou um pai perder a guarda de um filho por batizá-lo na igreja, seja evangélica ou católica, que frequentou a vida inteira? Não é algo que acontece com quem é cristão, mas aconteceu com uma mãe candomblecista em Araçatuba, no interior de São Paulo.

Para líderes religiosos ouvidos pela Ponte, o caso expõe como as religiões de matriz africana são alvo de ataques racistas e são demonizadas. A matriarca perdeu a guarda da filha de 12 anos após a adolescente passar pelo ritual de iniciação na religião, como detalhou o Uol.

O Conselho Tutelar da cidade acolheu a denúncia de maus-tratos e abuso sexual feitas pela avó da menina, que é evangélica. Mesmo após passar por perícia e negar qualquer tipo de abuso, a adolescente foi retirada da mãe. O Conselho Tutelar foi ao terreiro com a Polícia Militar no dia 23 de julho, dia da iniciação.

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Para a pastora Eliad Dias dos Santos, uma das fundadora do movimento Bancada Evangélica Popular, formada por pastores e presbíteros em São Paulo, tudo o que é relacionado à África ou à religiosidade africana é considerado demoníaco.

“As pessoas nas igrejas [evangélicas] entendem que isso está ligado a ser possuído por demônios, sendo que nas igrejas neopentecostais, especialmente, tem a questão de falar outras línguas, em que a pessoa fica em um estado de transe. Mas como isso é ‘cristão’ é tranquilo e quando é ligado à questão afro é coisa do demônio”, critica. 

Eliad Dias dos Santos, 54, é uma das caras da Bancada Evangélica Popular | Foto: Rodrigo de Britos/Igreja Metodista

Eliad explica que os batizados nas igrejas evangélicas funcionam de duas formas: na Igreja Batista, podem ser feitos a partir dos 12 anos, mas nas Igreja Metodista podem ser feitos a partir do nascimento. Assim também funciona no catolicismo. A pastora, por exemplo, foi batizada aos 9 anos de idade na Igreja Metodista. “E ninguém foi ameaçar minha mãe nem o meu pai”, aponta.

“Ninguém vai em uma Sinagoga tirar a criança que vai fazer a circuncisão. É um absurdo”, compara. “O que mais me assustou foi a mãe perder a guarda por causa disso. A criança foi examinada, viram que não tinha nada, então o conselheiro deve ser também evangélico e ajudou nessa decisão. É uma gravíssima situação de racismo religioso”, pontua a pastora.

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Para a ialorixá Batia Jello, o caso não é novidade. “O candomblé nunca foi aceito pela cultura europeia, sempre foi demonizado. A nossa sociedade sempre endossou isso. Mesmo o nosso país sendo laico, o culto do candomblé sempre foi demonizado”.

“Nunca teve respeito por ser um culto preto, mas o demônio não veio do meu culto, veio do europeu para criar a cultura do medo. Infelizmente grande parte da sociedade apoia essa atitude”, critica.

Batia Jello é ialorixá na zona leste de SP | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

É no ritual de iniciação que a pessoa nasce para o orixá, como explica Batia: “Nesse nascer, a gente não nasce só nas águas como se faz nas igrejas católicas ou protestantes. Fazemos um ritual de raspar os nossos cabelos para ir para o orixá como nascemos para o mundo”.

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“O cristianismo que vemos hoje é doentio, conservador. É o avesso do que Jesus Cristo pregava, que era respeito e amor ao próximo. Eu amo Jesus Cristo, mas é triste ver a forma com que esse povo que diz ser cristão leva os ensinamentos deles. Todos nós somos filhos de um único Deus, só o cultuamos de formas diferentes”, conclui ialorixá. 

Outro lado

Procurado por telefone, o Conselho Tutelar de Araçatuba informou que “como o caso está sendo acompanhado pelo Judiciário, não irá se pronunciar”.

A Ponte também questionou o Tribunal de Justiça de São Paulo sobre a decisão e aguarda posicionamento.

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