Rapper paulista afirma que filho pode ter sido vítima de violência policial

Polícia informou ao rapper paulista Eazy Jay que o filho tentou se enforcar, mas rapper diz ter identificado marcas de agressões no corpo do jovem

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O rapper Eazy Jay faz oração diante do leito do filho, Eric Augusto. Foto extraída de vídeo / arquivo familiar.

Na sexta-feira (19/08), a família do rapper paulista José Augusto de Lima Filho, conhecido como Eazy Jay, foi comunicada, por um investigador do 78º Distrito Policial (Jardins), de que seu filho, Eric Augusto Corbacho de Lima, de 25 anos, estava internado em estado grave após ter tentado se enforcar. O investigador também disse que seria necessário que o pai ou a mãe do jovem fosse ao Hospital das Clínicas assinar, com urgência, um termo de responsabilidade para que fosse realizada uma cirurgia de traqueostomia.

Preso por furto há cerca de três anos, Eric cumpre pena na Penitenciária de Presidente Prudente e, como benefício do regime semiaberto, esteve na casa da família nos dias que antecederam o Dia dos Pais, comemorado no dia 14 de agosto. “Disseram que o abordaram na Avenida Paulista e, ao constatar que estava foragido, o levaram para o 78º DP, e que lá disseram para ele que o transfeririam para o presídio onde cumpre pena, e então ele tentou se enforcar e desmaiou. O SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] o reanimou, ele estava sem oxigenação no cérebro e foi levado ao Hospital das Clínicas”, conta o rapper, que tinha estado com o filho pela última vez em sua casa dias antes.

Na tarde de sexta-feira, segundo Eazy Jay, o corpo do filho, que se encontra inconsciente, apresentava indícios de agressões, o que o levou a desconfiar da versão da polícia. “A marca no pescoço dele era muito fina, como um fiozinho, já estava até cortando [a pele]. Não dava para acreditar que ele tinha tentado se enforcar com uma coisa tão fina, não tem lógica”, afirma o pai.

Havia ainda ferimentos nos lábios, “como se ele tivesse levado um soco”, e “um inchaço” no alto da cabeça, como se ele tivesse levado “uma pancada”, de acordo com o rapper, que também estranhou o fato de os dois pés do filho estarem enfaixados e perguntou ao médico o motivo. “Eles responderam que era para ele não se machucar, e eu perguntei: ‘mas como uma pessoa que está internada e inconsciente vai se machucar’?”, questionou. Eric está sendo escoltado pela polícia desde que foi hospitalizado.

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Eric Augusto, filho do rapper Eazy Jay. Foto: Arquivo familiar

Ao retornar ao hospital no sábado (20/08), Eazy Jay retirou as faixas que cobriam os pés de Eric e, fazendo movimentos circulares, percebeu que os dois “estavam moles, como se não tivesse osso”, afirma ele. “Foi muito triste ver isso”, diz. Ele tentou gravar um vídeo, enquanto orava para o filho, mas foi impedido.

Ele também alega que, no braço de Eric, estava escrita a data “12/08” à caneta, o que o levou a perguntar se esta seria a data em que seu filho deu entrada na unidade ao médico, que, segundo ele, “desconversou”. “Os policiais não me falaram quando ele foi detido, deram a entender que tudo aconteceu na sexta-feira [19/08], mas por que estava escrito ‘12/08’ no braço dele?”, questiona ele, que, de médicos e enfermeiras, ouviu que seu filho corria risco de vida e perderia os movimentos. Uma enfermeira, segundo ele, chegou a ironizar a situação: “ele vai ficar que nem bebezinho, dependendo dos outros e usando fralda”.

“Eu conheço meu filho e sei que, o que ele planejar, é para a vida, nunca para a morte”, afirma o rapper. Easy Jay, que é membro do grupo Comando DMC e coordenador de cultura da Casa de Cultura Cora Coralina, afirma que pretende gravar uma música com o filho, para ele se inserir no meio musical assim que deixar a prisão, o que deverá acontecer nos próximos meses, já que sua pena está chegando ao fim, depois de cerca de três anos preso. “Meu filho nunca teve uma sindicância aberta contra ele na prisão, sempre teve bom comportamento. Nunca pegou em arma, nunca foi agressivo. O delito dele foi furto e ele já está na reta final da pena”, afirma Eazy Jay, abatido.

Outro lado

A reportagem enviou ao 78º DP, por meio da assessoria de imprensa da SSP (Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo), perguntas sobre as circunstâncias em que Eric Augusto Corbacho de Lima foi abordado, se estava de fato foragido, onde e quando exatamente foi detido pelos policiais que o levaram ao 78º DP; sobre o motivo que o levou a ser internado – se o 78º DP confirma que o jovem tentou se enforcar, em que circunstâncias isso teria ocorrido, que objeto ele teria usado, qual seu estado quando foi encontrado e quando exatamente foi conduzido ao Hospital das Clínicas.

Em resposta, a assessoria de imprensa da SSP enviou a seguinte nota, que não esclarece como Eric teria conseguido acesso à corda com que teria tentado se enforcar:

“O 78º DP instaurou inquérito para investigar a tentativa de suicídio do preso.  Eric Augusto Corbacho de Lima, de 25 anos, foi detido por policiais militares às 20h20 de quinta-feira (11), na RUA da Consolação, esquina com a dr. Cesário Mota Junior, e levado à delegacia, pois constava como procurado. Ele permaneceu na carceragem provisória da delegacia enquanto aguardava transferência. No dia 12, o preso foi encontrado por policiais civis suspenso e amarrado na grade com um cordão no pescoço, desmaiado. Os policiais civis imediatamente sustentaram o corpo da vítima, soltaram-no e iniciaram os procedimentos de primeiros socorros, massagem cardíaca e desobstrução das vias respiratórias. O socorro permitiu que fossem retomados os batimentos cardíacos e a respiração do detido. Acionado, o SAMU assumiu o atendimento e adotou as providências médicas cabíveis, removendo-o ao Hospital das Clínicas. Foi solicitada perícia para o local. A Corregedoria da Polícia Civil foi comunicada dos fatos.”

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