Rasteira, tapa e spray de pimenta: uma abordagem da PM na periferia de Arujá (SP)

Violência aconteceu no Parque Rodrigo Barreto e vítima precisou levar 16 pontos entre a boca e o queixo, sendo socorrido e medicado ainda com algemas; SSP afastou o policial agressor

Dezesseis pontos no lábio inferior e no queixo: esse foi o saldo de uma abordagem policial ao vigilante J. C. Santos, de 33 anos, após ser parado por dois policiais militares na periferia de Arujá, município na Grande São Paulo. As agressões aconteceram na tarde de domingo (17/03) e o homem pediu para seu nome não ser identificado por medo de sofrer represálias dos policias, liderados pelo secretário de segurança, general João Camilo Pires de Campos, neste governo de João Doria (PSDB).

Vídeos gravados por testemunhas e obtidos pela Ponte mostram o momento em que o morador foi agredido pelo policial com dois tapas no rosto a poucos metros de sua casa, no Parque Rodrigo Barreto, periferia do município. O relato é de que o PM saiu da viatura com a arma em punho, apontando para o rosto da vítima, e logo desferiu um tapa. Após protestar contra a abordagem abusiva, o homem foi algemado e, mesmo sem oferecer resistência, levou uma rasteira por trás caindo de boca no chão. Toda a ação foi presenciada por dezenas de pessoas.

“Ele [policial] chegou a encostar o cano da arma na minha boca. Foi quando eu reclamei, disse que era trabalhador e que não se fazia isso com cidadão honesto. Então ele me deu o primeiro tapa na cara”, relata o vigilante, que estava acompanhado do irmão e sobrinho – também abordados pelos PMs. O trio se dirigia a um mercadinho localizado a 300 metros da casa em que ele mora quando foi interceptado.

Indignados, moradores gravaram a ação policial e divulgaram os vídeos nas redes sociais. Em um dos registros, o vigilante aparece argumentando com o PM, que retruca aos gritos: “Você acha que tá falando com quem? Com quem você pensa que tá falando?”. Na sequência, o policial desfere outro tapa no rosto da vítima. “Você é ladrão? É vagabundo? Então você vai ser tratado do jeito que você merece”, anuncia o policial. O vigilante não responde criminalmente por nenhum delito.

No mesmo vídeo, o PM ainda aponta para a viatura e grita: “Essa porra aqui é meu trabalho! É o trabalho de quem faz a segurança dessa cidade em que você vive”, para, em seguida,  algemar o vigilante que não oferece resistência. Com a vítima já imobilizada e de costas, o PM aplica uma rasteira. “Caí de cara no chão, senti que iria desmaiar, jorrou sangue da minha boca na hora. Eu não esperava aquela agressão, já estava rendido e de costas para ele”, narra.

Ferimentos causados pela agressão do PM na boca e queixo do vigilante | Foto: Renan Xavier

Ainda deitado e com uma poça de sangue, o vigilante diz ter sido alvo de um jato de spray de pimenta nos olhos. Levado ao PA (Pronto Atendimento) Central de Arujá pelos próprios PMs, a vítima relata que recebeu atendimento algemada.

Moradores reagem

A truculência na ação dos agentes de segurança despertou a revolta da população que acompanhava o episódio. Em um dos vídeos, é possível ver diversas pessoas avançando na direção da viatura, já cercada por ao menos quatro motocicletas da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicleta). Familiares do vigilante, mais exaltados, tiveram que ser contidos por vizinhos.

Um dos moradores do bairro que registrava a ação com um celular também foi abordado por um PM da Rocam. O momento dessa abordagem é registrado em um dos vídeos. Segundo testemunhas ouvidas pela Ponte, o cidadão teve o celular apreendido por um policial de moto que, depois, atirou o aparelho ao chão, sendo danificado. Este outro homem também foi algemado e conduzido ao camburão da viatura. A reportagem não conseguiu contato com o segundo detido, que foi liberado após prestar esclarecimentos no DP (Departamento Policial) do centro de Arujá.

Ao chegar à delegacia, o vigilante agredido pelo PM relata ter sido orientado por um advogado – supostamente a seu serviço – a dizer que escorregou e se machucou sozinho durante a abordagem. A versão, segundo teria explicado o jurista, era para “evitar que ele ficasse marcado pelos PMs” podendo sofrer represálias posteriormente. A vítima relata que sequer teve acesso ao B.O. (Boletim de Ocorrência) lavrado no DP.

‘Episódio não representa o trabalho da corporação’

O ouvidor das Polícias do Estado de São Paulo, Benedito Domingos Mariano, recebeu cópia dos vídeos e avaliou que a abordagem foi “inadequada e houve excessos”. Em nota enviada à reportagem, Mariano garantiu que será instaurado procedimento apuratório na Ouvidoria e que os vídeos serão encaminhados para a Corregedoria da Polícia Militar, acompanhados de uma solicitação de instauração de inquérito policial para apurar a conduta dos PMs envolvidos.

Questionada pela Ponte, a SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo), comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), informou que a Polícia Militar instaurou IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar a ocorrência e determinou o imediato afastamento do policial envolvido até a conclusão das investigações.

“A PM não compactua com desvios de conduta de seus agentes e esse episódio, que não representa o trabalho da corporação, será rigorosamente apurado. O caso também é apurado pela Delegacia do Arujá, por meio de inquérito policial. A unidade solicitou exame de IML (Instituo Médico Legal) para o autor e realiza diligências para esclarecer os fatos”, concluiu a nota, enviada pela assessoria de imprensa terceirizada da pasta, a InPress.

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