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Repressão na Luz aumenta ao virar tema de live de candidatos

12/09/20 por Arthur Stabile e Jeniffer Mendonça

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Guardas e PMs atacaram centro de SP com bombas e usaram moto para atropelar vítima na calçada; segundo moradores, repressão aumentou após lives dos candidatos Mamãe Falei e Braga, ex-comandante da GCM

Imagens mostram Braga (à esq.) e Arthur do Val (à dir.) na ação na Luz | Foto: Reprodução

Moradores da Luz, na região central da cidade de São Paulo, relataram à Ponte intensos ataques com bombas e agressões por parte da Polícia Militar e da GCM (Guarda Civil Metropolitana) na tarde deste sábado (12/9). Eles afirmam que a repressão no local passou a ser constante há uma semana, desde que o bairro passou a ser alvo de lives produzidas por uma dupla de políticos: Arthur do Val, o Mamãe Falei, candidato à prefeito, e Carlos Alexandre Braga, candidato a vereador, ambos pelo Patriota.

Leia também: Covas ignora Justiça e mantém fechado último abrigo para povo de rua na Luz

Vídeo obtido pela Ponte mostra um policial da Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas) jogando o veículo que dirigia em cima de um homem. Ele chega a subir na calçada, mas não o acerta.

Policiais e guardas agiram por volta de 16h30. Meia hora antes, Mamãe e Braga já estavam no local filmando as pessoas do fluxo (aglomerações de usuários de drogas).

Na live, os candidatos mostram a atuação dos GCMs. “Isso aqui é guerra”, diz Arthur. “Cadê o mata leão, cassete?”, questiona Braga, a respeito da decisão do prefeito Bruno Covas (PSDB) que proibiu o uso do golpe que aperta o pescoço como forma de imobilizar pessoas. “E o seu Bruno Covas quer proibir mata-leão. Vai tomar no cu”, fala Arthur.

A decisão da Prefeitura foi publicada no dia 10, logo após o governador João Doria (PSDB) proibir o uso de mata-leão pela PM. As medidas foram tomadas em consequência a vídeos com abusos de policiais militares em abordagens.

No Facebook, Mamãe diz que foi “atacado”. “Estava hoje mais uma vez na Cracolândia com o Comandante Braga quando traficantes começaram a atirar rojões e pedras contra a GCM e as polícias de São Paulo. Quase fui atingido várias vezes”, descreve. Em outro momento, ele se mostra confuso com as denominações da segurança pública, referindo-se a “o Garra da PM”, sendo que o Grupo Armado de Repressões a Roubos e Assaltos é um grupamento da Polícia Civil.

Quem vive na Luz conta que o barulho de bombas deste sábado permaneceu por cerca de uma hora. Além dos artefatos, guardas e policiais usaram spray de pimenta na população.

“Bomba, bagulho louco. Minutos de terror. De início, foram soltar fogos e a polícia se emocionou, partiram para cima”, diz uma pessoa em áudio enviado à Ponte.

A Prefeitura de São Paulo confirma que a ação teve início por conta de rojões, mas que eles foram jogados em direção à base da PM que fica no local.

“Vivemos um verdadeiro terror. Tem uma senhora que defende a gente e o Iope jogou ela no muro e spray de pimenta no rosto dela”, conta uma moradora à Ponte. “Quando é época de eleição, candidatos vem aqui e pega na mão de todo mundo, depois é cada um por si”.

A moradora impedida de passar em direção ao fluxo relatou à reportagem como foi a agressão. “Não me deixaram entrar, jogaram gás na minha cara. Todas as vezes eu tinha esse acesso porque represento a militância dos direitos humanos e essa tropa não me deixou entrar”, descreve.

Leia também: A noite em que o Denarc buscou um policial esfaqueado na Luz

Segundo a moradora, a ação de hoje não é isolada, ocorrendo nos últimos três dias, ao menos. Segundo ela, o recrudescimento teria relação com os vídeos dos dois candidatos feitos na Luz. Ela vê tentativa da GCM de mostrar serviço com as investidas. “Desde que o comandante Braga postou o vídeo, a GCM está muito truculenta, rasgando dinheiro de gente, batendo, dando choque”, conta.

Médico que atua na Luz, Flávio Falcone confirma a maior violência do braço armado do estado desde que uma reportagem da TV Record apontou o medo de moradores de um condomínio na região do fluxo, em 3 de setembro.

Em seguida à reportagem, o candidato Arthur do Val fez sua live no local. “Todo dia tem ação. A live é logo depois da reportagem sair”, diz Falcone.

Houve ação no dia 4 de setembro, um dia após um ex-policial civil ser resgatado da região por policiais do Denarc (Divisão Estadual e Narcóticos), conforme revelado pela Ponte. A guarda também jogou bombas para dispersar as pessoas.

Leia também: Duas pessoas são feridas em ação da PM e GCM na região da Luz (SP)

O coletivo Craco Resiste, que atua na região com pessoas dependentes químicas, questiona o que chama de “publicidade eleitoral” por meio da violência da PM e da GCM com as pessoas da área.

“Nos causa estranhamento que em meio a caos, dois candidatos – um a vereador e outro a prefeito – estejam no local com equipe profissional de filmagem e tenham textos ensaiados para apresentar usando a violência como cenário”, diz a Craco, em nota à imprensa.

O professor da Fundação Getúlio Vargas e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rafael Alcadipani estranha que se faça o uso político de ações de tropas.

“É grotesco. Um país doente. Entrar a polícia para fazer live e ganhar voto. E é triste a polícia deixar isso acontecer. Está tudo errado”, afirma.

Segundo ele, há um histórico de candidatos que prometem encerrar os problemas sociais da Luz. “Sabemos que uma polícia violenta não serve para esse tipo de situação, não deveria acontecer”, completa.

A Ponte acionou o deputado estadual Arthur do Val por e-mail e o comandante Braga por WhatsApp para questionar a presença na Luz. Em nota enviada às 20h37 do dia 13 de setembro, a assessoria de imprensa de Arthur explicou que “testemunhou” a ação policial, tendo sabido dela no próprio local e considera as soluções das questões sociais locais “um dos pontos-chave da minha pré-campanha eleitoral”.

“Fomos ao local para denunciar o abandono do poder público em relação à população em situação de rua à mercê de traficantes e bandidos”, afirma, dizendo ser sua obrigação “como deputado ou mero cidadão”. “Se houve algum plano [de agir] foi de bandidos e traficantes munidos de um arsenal de armas para atacar as forças de segurança”, diz Mamãe Falei.

A reportagem também questionou a Secretaria da Segurança Pública, do governo João Doria, e a GCM, da gestão Bruno Covas, sobre os motivos da ação, se houve pessoas feridas e porque o bloqueio da área. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana disse que a Guarda agiu pois “houve um tumulto generalizado pela região com os usuários de entorpecentes que jogaram objetos, pedras e rojões nas viaturas”. A SSP ainda não respondeu.

Atualização às 21h04 de segunda-feira (14/9) para incluir posicionamento do deputado Arthur do Val.

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