Secretário de Segurança de SP nega retaliação por morte de PM em Paraisópolis

Mágino Alves anuncia que PM continuará na favela para manter ‘ordem pública’ e Corregedoria diz não ter ‘relato de excessos’ em abordagens; dois suspeitos estão presos

Da esquerda para direita: Antonio Sucupira (89 DP), Elizabeth Sato (DHPP), Mágino Alves, Corregedor Marcelino e Arlindo Negrão (DHPP) | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A Polícia Militar do Estado de São Paulo vai manter as operações na favela de Paraisópolis, zona sul da capital paulista, mesmo já tendo encontrado o corpo da soldado Juliane dos Santos Duarte. Ela desapareceu na madrugada da quinta-feira (2/8) quando estava com amigas em um bar da comunidade e foi encontrada morta na segunda-feira (6/8). Duas pessoas foram presas suspeitas de participação no crime: Felipe Oliveira da Silva, conhecido como Silvinho, é apontado como a pessoa que foi flagrada ao abandonar a moto da soldado na zona oeste. O outro é Everaldo Severino da Silva, o Sem Fronteira, apontado como chefe do tráfico local.

Segundo o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, as incursões serão mantidas para evitar qualquer tipo de retaliação e proteger possíveis testemunhas do crime. “São ações de saturação, com a intenção de manter a ordem pública”, disse. Nesta quarta-feira (8/8), por volta das 13h30, a Ponte viu um comboio com 8 viaturas da Tropa de Choque chegando em Paraisópolis.

Barbosa Filho garante que não ocorrerá nenhum tipo de retaliação pela da morte da policial, seja por parte da PM ou do crime organizado, que comanda o tráfico de drogas na comunidade. Questionado sobre as ações sempre com duas viaturas no local, Mágino explicou ser a “forma de patrulhamento mais adequado” em locais com “mancha criminal mais intensa. “Não há lugar em SP onde a polícia não entre”, cravou.

Corregedor da PM, o coronel Marcelino Fernandes confirmou a manutenção das operações, dizendo não ter sido informado de nenhum excesso cometido por policiais. Moradores do Jardim Colombo, a 1 km do bar onde Juliane foi baleada e sequestrada, denunciaram à Ponte uma abordagem truculenta com o PM apontando a arma na cabeça de uma jovem negra.

Moradores da comunidade também relataram à Ponte que temem represálias por parte da polícia por conta do desaparecimento e, posteriormente, a confirmação da morte da PM.

Em 2012, uma operação também chamada de ‘saturação’ feita em Paraisópolis terminou com uma série de denúncias de abusos praticados por policiais. Cerca de 500 PMs participaram da ação que durou 82 dias com 100 viaturas, 2 caminhões, 28 motos, 8 cachorros, 60 cavalos e o helicóptero águia.

À época, a PM disse ter apreendido 351 munições, 16 armas de fogo, 30 kg de cocaína, 333,5 kg de maconha e 50 unidades de drogas sintéticas. Também apontou que dez “procurados foram recapturados” e seis adolescentes foram apreendidos por “ato infracional”.

“A polícia chega sem mandato que permita a entrada nas casas, ela já chega invadindo. Para as mães que deixam as crianças em casa isso é bem complicado”, disse, à época, Valdemir Marcondes, então integrante da Associação Filhos de Paraisópolis, à Rádio Brasil Atual.

Investigação no DHPP

As investigações sobre os criminosos que mataram a PM Juliane foi oficialmente enviada ao DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa ). O 89º DP (Distrito Policial), no Portal do Morumbi, que cuida da área onde está Paraisópolis, iniciou os trabalhos, feitos em conjunto com a Corregedoria da PM. Duas pessoas foram presas suspeitas de participar da execução.

Segundo o delegado Antônio Sucupira, titular do 89º DP, uma pessoa denunciou a participação de Felipe Oliveira da Silva, conhecido como Silvinho. O delegado afirma que ele é suspeito de ter abandonado a moto de Juliane na Praça Panamericana, na zona oeste de São Paulo.

Soldado Juliane estava em um bar de Paraisópolis quando foi sequestrada | Foto: Reprodução

“Uma pessoa o trouxe à delegacia, ele foi formalmente ouvido. Confirmou ter conduzido a moto até a praça, mas nega participação na morte da policial”, explicou Sucupira, que explicou ter identificado, a partir do relato de testemunhas, quatro suspeitos de terem sequestrado a PM.

Segundo depoimentos, a PM saiu de um churrasco com amigos e foi com duas amigas no Bar do Litrão, em Paraisópolis. Em determinado momento, o celular de uma delas sumiu e Juliane teria se identificado como policial e cobrado que o aparelho aparecesse. Momentos depois, quatro pessoas aparecem, a tiram do bar e sons de tiros são ouvidos.

O corpo da soldado foi encontrado quatro dias depois no porta-malas de um carro estacionado em Campo Grande, zona sul de São Paulo. Vizinhos apontam que o carro estava parado no local desde sexta-feira (3/8), mas a perícia aponta que a morte ocorreu cerca de 24 horas antes da polícia encontrá-lo, o que aconteceu às 19h30 de segunda-feira (6/8).

“Tudo indica que ela foi executada ali”, diz Mágino Alves, considerando que “não quer dizer absolutamente nada” o fato do carro estar parado no local há mais dias. “Obviamente, a Juliane estava viva na sexta-feira, é um trabalho de paciência [o de investigar] e um dos autores foi reconhecido”, continua.

Segundo o coronel corregedor Marcelino Fernandes, o local do crime foi lavado, “provavelmente” a mando de um dos autores, o que pode atrapalhar a identificação dos responsáveis. Além disso, Marcelino considerou arriscada a atitude da soldado, que diante do furto se identificou e agiu e, por conta disso, acabou atingida. “Recomendamos que em casos como esses, o policial chame apoio, mas acaba sendo comum o PM agir”, explica.

“Esta história não bate, a Juliane não agiria assim. Pelo que conheço, ela não arriscaria a sua vida por tão pouco”, relatou à Ponte Laisla Carvalho, ex-namorada da policial, durante o seu enterro em São Bernardo do Campo, na terça-feira (7/8).

Centenas de pessoas acompanharam o enterro da Juliane no ABC Paulista | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

O outro suspeito de participar do crime é Everaldo Severino, o “Sem Fronteira”, capturado em Paraisópolis e com prisão temporária de 15 dias já expedida. Com ele a polícia apreendeu três celulares em uma privada. “Acreditamos que vão colaborar com a investigação”, avalia Sucupira, sem detalhar qual possível participação de Everaldo no assassinato.

A partir desta quarta-feira, a diretora do DHPP, Elisabeth Sato, ficará responsável por chefiar as investigações sobre a morte da soldado Juliane. Equipes do Geacrim (Grupo Especializado em Assessoramento de Local de Crime) acompanharam a perícia do carro onde o corpo foi encontrado.

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