Sem água, famílias em ocupação dependem de doações no centro de SP

Ao menos 100 pessoas estão desde sábado em prédio da Cohab, na Avenida São João, que mandou cortar a água; guardas não permitem que homens entrem no local, apenas mulheres e crianças, e impediu entrada de água nesta sexta-feira (4)

GCM em frente à ocupação na Avenida São João, 407 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A educadora social Flavia Regina Antunes Pereira, 39, nunca imaginou que participaria de uma ocupação até que se viu despejada de um apartamento no centro da capital paulista com os três filhos menores de idade e sem alternativa há aproximadamente um mês. “A gente já estava sem conseguir pagar o aluguel de R$ 1.500, fora gás, luz, água, gastos com as crianças”, conta. “Morar no centro é muito caro”.

Até então desempregada, afirma que já conhecia alguns movimentos de luta por moradia e se envolveu mais. Na véspera do segundo turno das eleições, no sábado (29/10), ocupou o prédio Art Palácio, que era o antigo Hotel Plaza, na Avenida São João, nº 407, de propriedade Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab). “Ao mesmo tempo em que a gente fica muito apreensivo porque não sabe o que pode acontecer, por um lado eu senti muita segurança no movimento, as pessoas dão muito apoio, são muito organizados”, afirma.

Ela tem filhos de 15, sete e um ano de idade. O ex-companheiro dela, com quem divide a guarda dos três, também passou a morar no local. “Ele é autônomo, trabalha com arte plástica e grafite. Está com trabalhos agendados, mas não pode sair”, conta.

Flavia Regina Antunes é educadora social e ocupa prédio com os filhos de 15, 7 e 1 ano de idade desde sábado (29/10) | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Outros pais de família que estão no imóvel desde sábado perderam o emprego, segundo a coordenadora da ocupação Suzane Veríssimo, 37, que representa a Frente de Luta por Moradia (FLM) e está ocupando o prédio junto com seus filhos de 18 e 16 anos. “A Cohab quebrou o acordo”, diz. Segundo ela, foi feita uma reunião na terça-feira (1/11) com o presidente da companhia, Alexandre Peixe, em que foi acordado verbalmente para que o fornecimento de água e eletricidade fossem mantidos se no prédio permanecessem apenas mulheres e crianças. A assessoria da Cohab nega acordo.

Na quinta-feira (3/11), Suzane disse que foi surpreendida com a presença de funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) que tentaram entrar na ocupação, acompanhados de agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM), para cortar a água do edifício. “Não me deixaram nem me inteirar do que estava acontecendo, já foram empurrando, me puxando até que bati a cabeça no chão e apaguei”, afirma. Ela é quem aparece em alguns vídeos desmaiada. “Eu tinha exame de hepatologia no dia, porque tenho problema no rim, marcado há mais de um ano no SUS e faltei por causa disso”, lamenta.

A Ponte acompanhou parte da ação no local, onde moradores denunciavam que os guardas não permitiam a entrada e saída de ninguém. Houve protesto e fechamento da avenida na terça-feira. Segundo eles, após a ação da Sabesp, a GCM impedia até a entrada de alimentos e água no edifício. “Eu perdi pelo menos uns dois dias de trabalho porque a gente não podia sair”, conta Flavia, que conseguiu um emprego em uma ONG há menos de um mês. A coordenação informa que no edifício estão ao menos 100 famílias, incluindo 60 crianças.

O pai dos filhos dela permanece na ocupação e está cuidando das crianças. Se ele sair para trabalhar, a guarda não permite que ele retorne ao prédio. “Eu trabalho das 7h às 15h e meu filho sai da escola às 11h, também não tenho como buscar minha bebê na creche porque é meu horário de trabalho, então eles estão nessa semana sem sair”, relata. “Só o meu menino de 15 anos que está conseguindo ir para a escola”.

De acordo com Suzane, apenas o térreo dispõe de energia elétrica e há um gerador que também permite acionar alarme de incêndio. No restante dos andares, como o quinto onde Flavia está morando, não há energia. “A gente percebeu que o prédio está em muito boas condições, só os andares mais altos, no quinto e no sexto, que tem infiltração por falta de telhas”, diz a coordenadora.

Suzane Veríssimo é coordenadora da ocupação e atua no movimento de moradia há 13 anos | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Ao menos duas viaturas da GCM ficam estacionadas em frente ao Art Palácio. Eles também não permitiram a entrada da reportagem no prédio. Primeiro, o subinspetor Claudinei disse que “não é que não estava autorizando” e que estava ali para “proteger o espaço público”. “Para a integridade física de vocês é complicado entrar aí”, disse.

A Ponte apontou que iria acompanhada da coordenadora da FLM e que não havia risco. Assim, ele disse que ia ligar para o superior para averiguar e que a autorização para mulheres e crianças transitarem era um acordo com a Cohab. “Ela [coordenadora] não pode garantir que não aconteça nada com vocês lá dentro”, declarou. “Lá são invasores, tem homens lá que invadiram, não é uma garantia de segurança”, continuou.

Após 10 minutos de conversa ao telefone, o subinspetor direcionou o telefone celular dele à reportagem com o diretor de comunicação da GCM, que negou a entrada da reportagem no edifício e que qualquer solicitação deveria ser feita à Cohab. “Nós temos uma determinação, pela sua segurança, de que ninguém, a não ser as mães que são cadastradas e entram porque deixam seus filhos para trabalhar, somente elas podem entrar no prédio”, declarou.

De acordo com Suzane, há pelo menos 60 crianças dentre as 100 famílias no prédio | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A Ponte retrucou questionando se o corte de água e luz no prédio não traria insegurança para as famílias no local, o que o diretor de comunicação rebateu que procurasse a Cohab.

Quem tem procurado a companhia insistentemente por resposta é Suzane. “Eu estou na fila da Cohab antes mesmo de ter meu filho, faz 20 anos”, afirma. Baiana, ela veio para São Paulo ainda criança e passou a morar na zona leste da cidade e participar de movimento por moradia. “Eu fui percebendo que não era só esperar, eu tinha que lutar por moradia e tô na luta há 13 anos”, afirma.

A companhia havia dito em nota que o prédio do Art Palácio foi cedido à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) em dezembro de 2020, por meio de um convênio, para servir como Centro de Acolhida Especial (Caes) para famílias em situação de rua. A inauguração de fato aconteceu e foi encerrado em maio deste ano sob a justificativa de problemas de infraestrutura e reforma que deveria ser feita. Na ocasião, a Smads firmou um contrato com o Hotel Artemis, na Alameda Barão de Limeira, acerca de 400 metros do Art Palacio, para que as famílias atendidas fossem remanejadas.

Moradores da ocupação entram com doações de água | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Não é o caso das pessoas que ocuparam o Art Palacio no sábado, segundo Suzane. “Essas famílias que estão aqui não eram do Caes, algumas vieram da ocupação da Avenida Ipiranga [a poucos metros do local] e que não conseguiram uma moradia”, afirma.

Essa ocupação teria acontecido em maio de 2019 e, de acordo com a coordenadora, a Prefeitura fez cadastros dos ocupantes para fornecer aluguel social enquanto não conseguia moradia definitiva. “Algumas pessoas foram para outras ocupações que têm aqui no centro, mas o que a gente quer não é Caes, é moradia definitiva”, sentencia.

A Ponte permaneceu até às 18h30 desta sexta-feira (4/11), do lado de fora da ocupação, entrevistando pessoas. Alimentos e várias garrafas de água foram doadas para os moradores. Enquanto a reportagem esteve no local, esses itens entravam no edifício sem impedimento.

Contudo, horas depois, a página da FLM no Instagram, em um vídeo em que Suzane aparece, denunciou que a GCM não estava mais permitindo que as doações de água adentrassem o imóvel, nem colchão para crianças dormirem.

As famílias afirmam que estão recebendo doações apenas presencialmente, no edifício localizado na Avenida São João, nº 407, no centro da cidade.

O que diz a Cohab

A reportagem reiterou os questionamentos a respeito da oferta de moradia, além da determinação para que a GCM controle o acesso no local e o destino das famílias. Até a publicação, não houve resposta.

O que diz a Prefeitura

A Ponte questionou a respeito do cadastro das famílias e oferta de moradia, além da atuação da GCM no local e aguarda resposta.

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