Sem apoio, pais investigam sozinhos o desaparecimento de filhos

Mais de 40 mil crianças e adolescentes desaparecem todo ano no Brasil, mas os casos não são investigados corretamente e as famílias têm de buscar seus desaparecidos por contra própria

O fim de 2017 não foi festivo para famílias que tiveram filhos, pais ou irmãos desaparecidos. É o caso da família de Samuel Gustavo. Com 19 anos, o jovem desapareceu na madrugada de 9 de dezembro do ano passado, na região do Grajaú, extremo sul de São Paulo, após sair de uma festa.

“Eu saí da festa 1h da manhã e ele quis ficar lá, não quis vir embora. Todo mundo falou que ele saiu de lá sozinho por volta das 2h30. Foi um dia normal. Quando amanheceu, percebemos que ele não estava em casa e esperamos até a tarde para registrar o Boletim [de Ocorrência]”, relata o irmão Sandro Júnior.

Na festa, Samuel estava com o celular descarregado, o que impediu qualquer comunicação. Depois de feito o Boletim de Ocorrência, a família decidiu, por conta própria, ir atrás de imagens de câmeras de segurança pelo trajeto que o jovem faria para voltar para casa. Em um dos registros, segundo o irmão, Samuel Gustavo estava a menos de 100 metros de casa.

Sandro Júnior diz que Samuel é uma pessoa reservada, alegre, tranquilo, bebe socialmente e não fuma. Havia acabado de ser aprovado em uma prova para fazer um curso técnico. A família não tem ideia do que pode ter acontecido.

“Ele foi para o último ano do Ensino Médio, ganhou a carta de motorista, passou na prova do Frei [Instituto Social Nossa Senhora de Fátima] para fazer um curso técnico. Mesmo sem ele aqui, minha mãe foi fazer a matrícula, porque a gente acha que ele vai voltar. Ele estava feliz”, ressalta Sandro. Ele afirma que foi difícil passar o Natal sem o irmão Samuel. “A pior parte de passar o Natal assim é que a gente não tem notícias. A gente não sabe por onde seguir, sempre passamos juntos, em família.”

Há relatos de outros desaparecimentos na região. Na última sexta-feira de 2017 (29/12), foi realizada uma manifestação, organizada pela família de Samuel Gustavo, no Grajaú, para cobrar providências do poder público. Sandro Andrade, mecânico de manutenção e pai de Samuel, diz que sai todos os dias para procurar o filho.

“Durante o dia eu vou às comunidades e em lugares onde costumam ser mais perigosos. E à noite eu circulo aqui pelos pontos de ônibus, praças e parques da região para ver se ele não está na rua, por exemplo. Estamos procurando pela zona sul e também pelo centro da cidade. Já procuramos em Santa Ifigênia, na Luz, na Cracolândia. Nós temos mais de 2 mil cartazes espalhados e mais a divulgação em redes sociais”, diz o pai.

Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, feito a pedido do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, mais de 693 mil boletins de ocorrência por desaparecimento foram registrados de 2007 a 2016. São Paulo lidera o ranking entre os estados, com mais de 242 mil e 500 registros de desaparecimentos nesse período.

Por ano, 40 mil do total de 200 mil desaparecidos no Brasil são crianças e adolescentes, segundo estimativas de entidades que atuam na área de Infância e Juventude. Em São Paulo, a média é de 10 mil desaparecidos por ano.

Matheus Hiago, de 12 anos, faz parte dessa estatística. Ele brincava na rua de casa, em São Mateus, na zona leste de São Paulo, quando desapareceu, em 10 de novembro de 2017. “Ali o Matheus estava jogando bola, com seu celular na mão. O amigo que estava com ele disse que ia embora porque a mãe estava chamando. O Matheus respondeu para que o amigo ficasse mais um pouco, mas não adiantou. Aí o Matheus contou que ficaria e depois entraria pra casa. Foi a última vez que o amigo viu ele e onde percebemos que havia sumido. Assim, já começamos a procurar. E eu estou desesperada ainda”, conta a mãe Geisa dos Santos de Jesus.

Geisa não conseguiu entrar em contato com o filho. Apesar dele estar com um celular no momento do desaparecimento, não tinha chip. Usava apenas com a internet de casa. Depois de espalhar cartazes, a mãe de Matheus recebeu ligações de pessoas que disseram ter visto o menino. Ia ao local informado, mas não conseguia encontrá-lo. “Eu até dormi na rua para procurar ele, porque falavam: ‘Ele está por aqui, é ele mesmo’. Aí eu pensava em não ir embora pra casa. Avisava minha mãe dizendo que ia dormir no local mesmo. Dormi debaixo do viaduto pensando que ele ia aparecer lá. Amanhecia e a gente ia embora sem resposta, sem nada”, diz angustiada.

Matheus Hiago pouco antes de desaparecer | Foto: arquivo pessoal

Ela critica a falta de informações sobre a investigação do desaparecimento do seu filho. “A polícia não ajuda, não liga pra mim para falar nada. A investigadora que está no caso liga pra mim para perguntar: ‘E aí, Geisa. Você tem alguma novidade pra me dar? Ela quer que eu dê novidade pra ela?’”

Na capital paulista, as ocorrências de desaparecimentos devem ser investigadas pela 4ª Delegacia de Investigação Sobre Pessoas Desaparecidas do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Apesar disso, muitos casos não são investigados, segundo Ariel de Castro Alves, advogado e coordenador da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana (Condepe).

“Os desaparecimentos devem gerar uma grande preocupação da sociedade exatamente porque esses casos não acabam sendo investigados. As delegacias, em geral, não cumprem sequer o que prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de realizarem já o boletim de ocorrência de uma forma imediata e já iniciarem as buscas, as investigações e as apurações. Imediatamente, as delegacias também já deveriam comunicar as polícias rodoviárias e também todas as empresas que atuam com transporte de pessoas exatamente para evitar que essas crianças sejam levadas para locais mais distantes”, observa Ariel.

O advogado ressalta que faltam políticas públicas e programas de apoio psicológico e social para famílias de pessoas desaparecidas. “Muitas vezes estas famílias ficam completamente abandonadas. Os próprios familiares é que fazem as investigações. As mães se tornam investigadoras exatamente pela total ausência do Estado em atuar nessas questões. São situações realmente muito graves e sabemos que o Estado tem sido completamente omisso.”

Geisa dos Santos sabe bem o que é a falta de apoio. Ela tem 32 anos e trabalhava com reciclagem. Perdeu o emprego por causa da busca pelo filho Matheus. “Eu trabalhava com reciclagem. Como ele sumiu, eu tive que procurar ele e perdi o emprego. Eu fiquei meio desnorteada. Todos os dias eu saía, de noite e durante o dia. Aí falaram pra mim que não dava mais e colocaram outra pessoa em meu lugar. Agora só Deus pra me ajudar.

Emocionada, Geisa diz que cuida, sozinha, de mais três filhos. “Ele [Matheus] é meu filho mais velho, de mais três. Eu ainda tinha esperança que ele iria chegar no Natal. Ou que quem estivesse com ele ia falar: ‘Volta pra casa que é Natal. A sua mãe está te esperando’. Mas ele não voltou, não apareceu até hoje.”

Ivanise Esperidião ajuda famílias de pessoas desaparecidas há quase 22 anos. Ela é co-fundadora e atual presidenta da Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD), mais conhecida como Mães da Sé. Fundou a Associação em março de 1996, depois do desaparecimento de sua filha, Fabiana Esperidião, na época com 13 anos. “A gente já cadastrou quase 10 mil pessoas e temos um saldo positivo de 4.536 pessoas encontradas. Esse trabalho é minha razão de viver e que me mantém viva. Meu coração de mãe diz que minha filha está viva em algum lugar deste planeta.”

Segundo a Associação Mães da Sé, o principal motivo que leva aos desaparecimentos é a fuga de casa, geralmente causada por conflitos familiares. A disputa de guarda, deficiência mental e quando a criança se perde também estão entre os motivos. Nesses casos, a solução é mais fácil. Já os casos mais difíceis de serem solucionados podem ter ligação com tráfico de pessoas, tráfico de órgãos, adoção ilegal e exploração sexual.

Existe no Brasil, desde 2009, o Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos. Mas até hoje ele não funciona, diz o coordenador do Condepe. Castro Alves defende cadastros unificados e atualizados para facilitar as buscas. “Nós temos hoje neste cadastro apenas mais de 300 casos desde 2009. É um número muito pequeno se levarmos em conta esses números expressivos de 40 mil desaparecimentos de crianças e adolescentes por ano. Há 2 anos esse Cadastro Nacional não recebe atualização. É um cadastro que foi completamente abandonado pelo governo federal. Isso mostra o total descaso e a negligência dos governos com relação a essa questão”, alerta Ariel.

Além de divulgar informações de pessoas desaparecidas em seu site e nas redes sociais, a Associação Mães da Sé realiza encontros com familiares aos domingos, a cada 15 dias, na Praça da Sé. Lá, conversam e também divulgam cartazes com fotos dos desaparecidos, conta Ivanise.

“A gente se encontra a cada 15 dias na Praça da Sé. É uma forma de uma família amparar a outra e também de chamar a atenção da sociedade e das autoridades. Já aconteceu por quatro vezes, em 21 anos de trabalho, de estarmos ali, alguém passar e reconhecer alguma daquelas pessoas por ter visto em algum lugar e da gente ir lá e realmente se tratar daquela pessoa que a família estava procurando”, comemora.

O próximo encontro será no dia 21 de janeiro.

O que diz a Secretaria de Segurança Pública

Procurada pela reportagem da Rádio Brasil Atual, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) respondeu, por meio de nota, que a Polícia Civil, via DHPP, segue investigando o desaparecimento de Samuel Gustavo de Andrade, com auxílio do 101º Distrito Policial, do Jardim Imbuias, área dos fatos, e que os familiares do jovem já foram ouvidos.

Ainda de acordo com a SSP, o desaparecimento de Matheus Hiago também segue em investigação no DHPP, com auxílio do 53º Distrito Policial, do Parque do Carmo, e os familiares do menino foram chamados para prestar depoimento.

(*) Matéria originalmente publicada na Rádio Brasil Atual

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