Símbolo de luta, Mães de Maio também se unem na hora de recuperar as forças

Mulheres marcadas pela violência de Estado se encontram na periferia de São Paulo, dessa vez não para uma manifestação ou cobrança, mas para conversarem, forma de cura em meio à luta

Encontro reuniu cerca de 40 pessoas | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Quem conhece a rotina das Mães de Maio pergunta de onde aquelas mulheres retiram força e disposição. Elas puxam protestos contra a violência de Estado em um dia. No outro, ficam horas acompanhando julgamento de policiais acusados por matarem jovens. Participam de debates sobre segurança, protagonizam trabalhos acadêmicos, livros… Tudo em busca de justiça e por memória. Atos de resistência feitos, sobretudo, por uma encontrar força na outra.

A luta só é possível graças à união. Em meio às manifestações, debates com entidades internacionais de direitos humanos e as incontáveis vezes que relembram as histórias dos seus entes mortos violentamente, as mães encontram tempo para se curarem. Uma conversa com bolo e café já faz a energia voltar. Ou um cigarro com papo jogado fora. Quando estão juntas, simplesmente falar o que estão sentindo é suficiente para ganharem fôlego.

Foi assim neste domingo (25/11) no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo. As mães são de periferia e se encontram nas quebradas. Umas vieram de São Miguel, zona leste; outras eram da própria sul, como Capão Redondo, Campo Limpo, Paraisópolis, Grajaú e Jardim São Luís; e marcaram presença mulheres da Baixada Santista, de Fortaleza (Ceará), Salvador (Bahia).

Roda de conversa durou das 14h às 20h na zona sul de São Paulo | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

O histórico de violência norteava o encontro. As vitórias são raras, mas nada que desanima. Dessa vez, se juntaram mais para se fortalecerem e retomarem a luta no dia seguinte. Com mais vontade e outros braços amigos ao lado. “Há uma cobrança comum em quem se retira da luta, mas às vezes é um tempo que a pessoa precisa para se cuidar. Quem não caiu esse ano com tantas derrotas?”, perguntou Jeniffer Nascimento, integrante do Bloco do Beco, espaço local que recebeu o encontro.

Ser uma mãe de maio traz consigo um luto que se transforma com o tempo em uma responsabilidade de lutar cada vez mais. “Somos ameaçadas. Precisamos pedir apoio porque as perdas estão acontecendo entre as mães. Tem vítima de câncer, de depressão. A Verinha é um exemplo, uma parceirona que se foi em maio”, conta Debora Maria da Silva, fundadora do grupo.

As falas se transformaram ao longo da tarde e início da noite, entre 14h e 20h, tempo do encontro. Tratou-se da necessidade de se juntarem ainda mais; de como os próprios parentes, em casa, não são solidários com a dor das perdas; de como o discurso de ódio domina a atual sociedade e previsões sobre o governo de Jair Bolsonaro. Ali, com todo o peso que as falas tinham, o natural era o abatimento. Não para estas mulheres.

Mulheres de São Paulo, Ceará e Bahia contaram seus casos, suas histórias e inquietações | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

“Eles estão planejando nos matar e nós estamos aqui hoje planejando resistir e não morrer”, disparou Debora. “Não foram as pessoas que votaram no Bolsonaro, foi o sentimento de ódio”, disse Edna Carla, mãe de um dos mortos na chacina do Curio, em Fortaleza, com nove jovens mortos em novembro de 2015. “Não somos vistas como vítimas pelo Estado e nem em casa, não temos espaço para reconhecer a dor ou só falar do que houve a não ser aqui, entre nós”, seguiu Andreia Arruda, outra integrante do Bloco do Beco.

Eram cerca de 40 pessoas. Além das próprias mães, apoiadores colaram junto para auxiliá-las. Professores, educadores, psicólogos, psicanalistas… Tudo em prol destas mulheres que, apesar de reconhecerem o poder destes suportes, reconhecem ter em si mesmas o poder de resistência.

“É uma ajudando a outra, somo mulheres pobres, nosso tratamento é entre nós. Tiramos da dor a luta e a vontade de parir uma sociedade melhor”, diz Debora Maria. “Temos que ter esse cuidado entre nós, fazer um bolo com café que seja. Tentamos carregas todas as dores nas costas, temos que nos apoiar umas nas outras”, seguiu Jenifer Nascimento.

‘Somos mulheres pobres, nossos tratamentos são com a gente mesmo’ | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

No fim, a mãe cearense Edna puxou um exercício: cada pessoa pegou um papel com uma letra. Com ela, precisava escolher duas palavras, uma sobre deficiência pessoal e outra de algo que simbolizasse a luta coletiva.

“Há mães aprisionadas aos remédios, às dores e à saudade. Temos que entender que, se não lutarmos, vamos morrer do mesmo jeito. Não temos escolha”, disse, ao fim, quando listou o resultado do exercício. De tudo citado, a certeza de que as mães precisam apenas de si para seguirem em luta.

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