‘Só deu tempo de salvar meus filhos’, diz moradora de favela atingida por incêndio

03/06/20 por Paulo Eduardo Dias

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Moradores se uniram em mutirão para limpar o que foi destruído pelo fogo e começar a reconstruir os cerca de 60 barracos atingidos que deixou 100 desabrigados

Focos de fumaça ainda podiam ser vistos no local | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

O barulho das enxadas e pás raspando o solo na tentativa de remover a fuligem e os restos de madeira e concreto queimados após o incêndio no final da manhã de terça-feira (2/6) era a trilha sonora preocupante na Favela Diogo Pires, no Jaguaré, zona oeste da capital paulista. Na tarde desta terça-feira (2/6), o fogo destruiu cerca de 60 moradias, segundo o Corpo de Bombeiros.

Durante a manhã desta quarta-feira (3/6), enquanto uma parte dos moradores limpava o terreno, ainda com focos de fumaça, outras pessoas buscavam roupas e calçados entre as muitas doações recebidas. Uma boa parte delas utilizava máscaras contra a Covid-19, mas a pandemia deu lugar à urgência em conseguir resolver a situação dos desabrigados.

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Segundo os moradores, o fogo se alastrou rapidamente e fez com que 35 famílias perdessem tudo, deixando mais de 100 pessoas desabrigadas, que procuraram auxílio em casas de familiares, vizinhos ou “irmãos da igreja”.

A dona de casa Rafaela Paz da Silva Cale, 18, era uma das pessoas que se alternavam entre a busca por doações e a mão na enxada na tentativa de remover os escombros e construir uma nova moradia em poucos dias. Mãe de uma menina e de um menino com idades de dois e um ano, ela conta, aliviada, ter conseguido salvar ambos.

“Só deu tempo de tirar a Ana e o Pedro. Estou esperando que a prefeitura apareça. Já estamos limpando o terreno para subir os barracos”. Sobre o tempo para subir uma nova casa, ela nem hesita: “duas semanas”.

Rafaela Cale (de azul e shorts jeans) conta com a ajuda de amigas para reerguer sua casa | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

A Favela Diogo Pires é composta por casas de tijolo e madeira, além de algumas feitas com a junção dos dois materiais. Não houve feridos, de acordo com relato dos moradores.

Um prédio ocupado antes de ter suas obras concluídas também foi afetado. A prefeitura informou ter interditado o local, no entanto, pessoas transitavam pelo imóvel normalmente.

A reportagem da Ponte percorreu por mais de duas horas a comunidade, que tem o mesmo nome da rua que a liga à avenida Alexandre Mackenzie, e pode notar muita tristeza e até resignação, mas, ao mesmo tempo, a esperança de dias melhores.

Morador da comunidade há nove anos, o gari desempregado Antônio Rosalvo Lima, 47 anos, contou que o incêndio teve início pouco antes das 11h, bem no centro da favela e se expandiu rapidamente para as laterais. O homem estava em sua residência quando tudo aconteceu e disse que não teve tempo de salvar nada. “Estava reformando uma parte de casa, quando escutei um barulho. Era o fogo. Saí com a roupa do corpo”, disse.

Antônio Lima e sua esposa Maria Aparecida estão alojados em uma igreja | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Durante a entrevista, Lima e sua esposa, a auxiliar de limpeza Maria Aparecida Conceição, 29, retiravam os mantimentos queimados e o restante da mobília perdida. “Eu não tenho condições de construir novamente. Agora, é ver se as pessoas acham que a gente merece doação de material. Nós somos pessoas trabalhadoras. Eu vim do Nordeste na tentativa de melhorar de vida. Estou alojado na igreja, na salinha em que ficam as crianças durante o culto na Assembléia de Deus”.

Entre os moradores da Diogo Pires são duas as suspeitas de como o fogo teve início. A primeira é de que duas moradoras teriam brigado e uma delas acertado a fiação com um pau, iniciando um curto-circuito. A outra versão dá conta de um curto-circuito na fiação de uma das casas.

A desolação de ter perdido o lar e tudo que havia conseguido em muitos anos de luta marcava o semblante da desempregada Edivânia Oliveira, 35 anos. Quando a reportagem chegou ao local do incêndio, ela estava ao lado dos filhos Paulo Henrique, 11, e Luiz Gustavo, 5, exatamente no ponto em que ficava a entrada da casa de alvenaria, onde também moravam seu esposo e um outro filho, de 16 anos.

Edivânia Oliveira e os filhos Paulo Henrique e Luiz Gustavo | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

“Tinha ido na igreja buscar uma cesta básica. Na volta, vi aquela fumaça. Quando cheguei, minha vizinha já estava chorando. Agora, o que eu quero é limpar e reconstruir, nem que seja de madeira”, declarou.

A Favela Diogo Pires, que possui mais de 40 anos, tem como vizinho dezenas de prédios construídos pela CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano) ao longo dos anos 2000. Foram dessas unidades, habitadas principalmente por ex-moradores da Diogo Pires, de onde partiram várias manifestações de solidariedade e doações.

Moradora desses edifícios, Genilsa Ferreira, 51, cedeu seu tempo para ajudar na separação de roupas e calçados na manhã desta quarta-feira (3/6). “Hoje, foram eles. Amanhã, pode ser a gente. A solidariedade serve para todos. A gente faz o possível para ajudar”, explicou.

A dona de casa Camila Santos Soares, 30, era uma das pessoas que procuravam roupas para vestir ela, o marido e seus quatro filhos de 14, 11, 10 e dois anos. Com a mais nova no colo, ela detalhou o que o fogo consumiu em sua casa. “Acordei com o povo gritando. Voltei para pegar meus documentos, mas não consegui. Conseguir tirar o botijão vazio. Se tivesse cheio não ia conseguir tirar. Perdi geladeira, máquina de lavar, fogão, bicicleta, TV, duas cestas básicas que tinha acabado de ganhar”, lamentou.

Camila Soares estava com a filha Isabelly no colo, em busca de roupas e calçados | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Procurada, a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) informou que, “ao todo, 30 famílias foram atendidas na comunidade e a assistência social ofertou insumos, sendo 118 colchões, 118 cobertores e 45 cestas básicas. A Secretaria também atendeu 55 famílias residentes no prédio ao lado que foi interditado e estão recebendo 230 colchões e 230 cobertores. Até o momento ninguém aceitou acolhimento”.

Construa a Ponte!

A pasta ainda completou que “a Defesa Civil foi acionada para atender o incêndio na comunidade no Jaguaré. Juntamente com engenheiro e agente vistor, fez interdição total do prédio de oito andares ao lado da comunidade. A área atingida pelo incêndio foi de 150 metros quadrados”, detalhou.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que o caso está sendo investigado pelo 93º DP (Jaguaré). “Foi solicitada perícia ao local e os laudos estão em andamento pelo Instituto de Criminalística (IC), para auxiliar a esclarecer a causa do incêndio”, diz a nota.

Reportagem atualizada no dia 4/6 às 11h46 para inclusão da nota da SSP-SP

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