Testemunha de chacina falta a júri; ‘não sei se está viva’, diz acusação

27/02/18 por Arthur Stabile

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No primeiro dia de julgamento do PM Victor Cristilder, acusado de participar da maior chacina de SP, sobrevivente fala das sequelas irreversíveis após os ataques de agosto de 2015

Victor Cristilder antes do início do julgamento | Foto: Arthur Stabile/Ponte.org

A principal testemunha do julgamento do policial militar Victor Cristilder não apareceu no primeiro dia do júri. A pessoa, que tem sido chamada de ‘Beta’ por questões de segurança, foi peça-chave no indiciamento do PM, segundo a promotoria. Cristilder está sendo julgado pelo Tribunal do Júri por suposta participação na maior chacina da história de SP, em agosto de 2015, quando 23 pessoas morreram em Osasco, Barueri, Carapicuíba e Itapevi, na Grande São Paulo. 

“A testemunha protegida Beta foi arrolada [intimada] por nós e não a encontraram. Você sabe bem o que acontece com testemunhas aqui em Osasco, não sabe?”, declarou a assistente de acusação, Maíra Coraci Diniz, ao advogado de defesa, João Carlos Campanini, que rebateu: “Eu também quero ouvi-la”.

O promotor do caso, Marcelo Alexandre de Oliveira, diz não saber o paradeiro de ‘Beta’. “Ela estava no programa de proteção do Estado, mas saiu dele no período entre este julgamento e o primeiro, que condenou os três acusados”, sustentou, sobre o júri de setembro do ano passado. Outra testemunha, identificada como ‘Gama’ e que foi fundamental no julgamento anterior, também não apareceu. Mas, dessa vez, essa testemunha, embora importante, tem papel secundário. É Beta quem liga Victor Cristilder às mortes, segundo a denúncia. Contudo, a defesa do policial utilizou uma entrevista feita por eles com Gama, dizendo que estava mentindo no primeiro depoimento por “ganância” – o Governo do Estado ofereceu R$ 50 mil para quem desse pistas dos acusados da chacina. Até hoje, não se sabe se a recompensa foi paga.

O primeiro julgamento condenou os policias militares Fabrício Eleutério e Thiago Henklain e o GCM (Guarda Civil Metropolitano) de Barueri Sérgio Manhanhã. O trio foi considerado culpado por 17 dos 23 assassinatos ocorridos entre os dias 8 e 13 daquele mês. Na ocasião, 23 pessoas morreram nos ataques. Juntos, os três réus foram condenados a mais de 600 anos de prisão.

Fabrício pegou 255 anos, 7 meses e 10 dias; Thiago, 247 anos, 7 meses e 10 dias; Sergio, 100 anos e 10 meses. Todos cumprirão as penas em regime fechado. O processo de Cristilder acabou desmembrado por falta de documentos na fase final do processo. Somente da semana passada para esta, o advogado que o defende incluiu oito mil páginas no processo, de acordo com a promotoria.

Protesto em frente ao Fórum de Osasco nesta terça-feira | Foto: Arthur Stabile/Ponte.org

Esta terça-feira (27/2), foi o primeiro dia do julgamento que deve se estender por toda a semana. Em frente ao Fórum de Osasco, familiares de vítimas da chacina fizeram um protesto e pediram por justiça.

Foram mortos em Osasco Rodrigo Lima da Silva, Joseval Amaral Silva, Deivison Lopes Ferreira, Eduardo Bernardino Cesar, Antônio Neves Neto, Letícia Hildebrand da Silva, Adalberto Brito da Costa, Thiago Marcos Damas, Presley Santos Gonçalves, Igor Oliveira, Manuel dos Santos, Fernando Luiz de Paula, Eduardo Oliveira Santos, Wilker Thiago Corrêa Osório, Leandro Pereira Assunção, Rafael Nunes de Oliveira, Jailton Vieira da Silva, Tiago Teixeira de Souza e Jonas dos Santos Soares.

‘Até hoje tenho dificuldade para andar e respirar’

Um dos sobreviventes da chacina, o pintor Amauri José Custódio, voltou a falar do episódio e, assim como no julgamento dos outros três envolvidos, se negou a falar na presença do réu Victor Cristilder. “Perdi metade da minha saúde. Perco o ar quando ando muito, tenho pressão alta e dificuldade pra comer. Não consigo mais trabalhar”, conta, emocionado, no depoimento. Amauri passou por traqueostomia (procedimento de abertura de traqueia para passagem de ar) e chegou a ficar 75 dias no hospital. Um dos tiros atingiu o rosto dele e saiu pela nuca, causando deformação facial e na gengiva. “Quando acordei, pensei que tinha caído. Só depois de um tempo disseram que levei um tiro. Não deu pra ver nada”, relembra.

O pintor estava no bar onde morreram oito pessoas. Ali, segundo relatou, tomou uma cerveja e foi até a padaria próxima para comprar pão, mas só ficaria pronto em dez minutos. Então, voltou ao bar, tomou mais uma cerveja e cochilou na mesa. Ele acordou somente 12 dias depois no hospital.

“Vivo há 50 anos ali, não me mudei. O bar não era frequentado por gente que usa drogas. Agora mal consigo passar na frente, quando passo é bem rápido”, afirma.

Início do segundo júri

Acusação e defesa, juntas, arrolaram 24 testemunhas, sendo que quatro foram dispensadas e duas testemunhas protegidas não compareceram. Quatro homens e três mulheres decidirão o destino de Cristilder, o quarto acusado de participar da chacina.

Segundo o delegado Andreas Schiffmann, do Setor de Homicídios de Carapicuíba, há evidências da participação do PM em quatro dos oito ataques e uma conversa de whatsapp indica sua ligação com Sérgio Manhanhã. “Uma mensagem com troca de ‘joinhas’ significa o aval para iniciar os crimes. Depois, eles trocam um ‘joinha’ e o outro responde com um ‘joinha’ e símbolo de braço forte, indicando que deu tudo certo”, sustenta Schiffmann. O delegado aponta que, pelo modus operandi nas ações, é possível identificar “técnicas policiais”. A defesa de Cristilder usou vídeo com entrevista da testemunha Gama para desqualificar a versão. Na fala, Gama aponta que tentou recuar da “mentira” contada, mas Andreas não o ouviu e o forçou a manter o discurso.

O coronel da Corregedoria da PM, Rodrigo Elias Silva, conta que falou com mais de 70 policiais para chegar aos acusados e concluir que “Boy”, apelido que uma das testemunhas afirma ser de um dos atiradores, é Victor Cristilder. A testemunha conta que estava bebendo com um amigo, quando um Honda Civic escuro parou, dois homens desceram e depois atiraram. Pela fisionomia, conseguiu identificar “Boy”, com quem cresceu no mesmo bairro, mesmo não sendo amigos.

O advogado de defesa questionou o reconhecimento feito duas vezes: uma na Corregedoria e outro no DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa). Para o advogado João Carlos Campanini, houve confusão com outro policial também apelidado de “Boy” e com características similares às de Victor.

Em determinado momento, a juíza Élia Kinosita Bulman interveio, alegando que a defesa estava induzindo e intimidando o coronel. “A senhora tem que ser imparcial”, rebateu Campanini, sendo repreendido pela juíza. “Eu presido este júri, interfiro na hora que achar necessário”.

A defesa sustentou que os horários apontado para os ataques nas investigações do DHPP e o da Corregedoria não batiam pela distância de 18 quilômetros entre dois dos ataques ter acontecido em apenas 13 minutos. “Segundo o Google Maps, demora 29”, disse a defesa. Para demorar este tempo, o carro precisaria estar a, no máximo, 40 km/h. Se estivesse a 90km/h, chegaria no tempo citado nas investigações.

O julgamento continua nesta quarta-feira (28/2), a partir das 10h, com o depoimento de mais testemunhas. Segundo os envolvidos, a probabilidade é de o resultado sair somente na sexta-feira.

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