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‘Tiraram a roupa dele para dar os outros tiros’, afirma mãe de morto pela Rota

22/06/20 por Caê Vasconcelos

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Rodrigo Queiroz Ferreira, 29 anos, foi morto com 8 tiros, mas apenas um ficou marcado em seu casaco; Angela encontrou roupas do filho no local da ação policial

Rodrigo foi morto por PMs da Rota no dia 24 de maio; família contesta versão da PM | Foto: arquivo pessoal

Era uma segunda-feira, 25 de maio, quando Angela Maria de Queiroz, 58 anos, recebeu uma ligação. Era do IML (Instituto Médico Legal) pedindo para ela reconhecer um corpo. Às 14h, ela saiu do trabalho, um café em frente ao Ceasa, e foi até o IML do Butantã, na zona oeste da cidade de São Paulo. Lá, reconheceu seu filho Rodrigo Queiroz Ferreira, 29 anos.

O jovem foi assassinado em uma ação policial da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a tropa mais letal da PM paulista, na noite de 24 de maio. Por volta das 23h48, Rodrigo e outro homem, não identificado até hoje, foram mortos rua Paulo Silva, Rio Pequeno, zona oeste da capital paulista.

Essa é a segunda perda de Angela, que luta desde 2000 para encontrar outro filho, Alex, que desapareceu aos 19 anos. A matriarca entrou para o movimento Mães da Sé, grupo de mães de crianças desaparecidas de São Paulo, para tentar superar a primeira perda. Agora, teve que se despedir de Rodrigo, seu filho mais carinhoso, no dia 26 de maio.

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Segundo a versão narrada pelos PMs no DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), a polícia perseguia um carro com dois suspeitos. Segundo os policiais, eles fugiram e o carro onde estavam colidiu com um muro. Os dois homens, que não foram identificados no registro policial, saíram do veículo atirando contra os policiais, que revidaram.

Participaram da ação os PMs da Rota: Celso de Moura Cavalcanti, Vinicius de Sena Santos, Bruno Santos Costa e Carlos Eduardo Santino. De acordo com a perícia, Rodrigo levou oito tiros: um nas costas e sete na região da barriga e do tórax. A sua roupa, porém, só tinha marca de um disparo: o que o atingiu pelas costas.

Apenas uma marca de tiro foi encontrada nas roupas de Rodrigo | Foto: arquivo pessoal

O carro, segundo o registro policial feito no DHPP como disparo de arma de fogo, resistência e homicídio simples, era roubado. À Ponte, Angela contou que Rodrigo não sabia dirigir, tampouco tinha habilitação, e não sabe quem é o homem que estaria com o filho na noite em que ele foi morto. Além dos tiros, a mãe afirma que Rodrigo tinha sinais de tortura.

Leia também: Vídeo mostra PMs da Rota matando dois homens em um carro

Ela acredita que o filho levou um tiro nas costas e os PMs tiraram a sua roupa para disparar os demais. Na tarde do dia 26 de maio, quando ela foi ao local conversar com moradores da região, as roupas do filho ainda estavam na calçada.

Os moradores contaram a Angela que não houve perseguição no local e que os policiais em uma viatura da Rota entraram na rua, onde ficaram por aproximadamente três horas. Depois foram ouvidos vários tiros e só em seguida chegaram mais viaturas.

Dois dias depois da ação policial, as roupas de Rodrigo continuavam no chão | Foto: arquivo pessoal

A mãe contou que Rodrigo era usuário de drogas, mas que esse era seu único problema. “Meus outros filhos sempre falavam que eu fazia de tudo por ele, mas ele era o filho que mais precisava da minha atenção. Ele começou a usar droga aos 14 anos. Eu vivia internando ele em casa de recuperação, correndo para um lado e para o outro. Mas ele era muito amoroso”, lamentou Angela.

“Ele não tinha coragem de matar nem barata. Os meninos que ficavam com ele, ali onde ele ficava usando droga, me falaram que ele nunca aceitava roubar, que preferia ficar pedindo de farol em farol. Eu fui lá perguntar se ele tava fazendo alguma coisa errada, mas me falaram que não”, relatou. 

Leia também: ‘Um volume na cintura’ foi a alegação da Rota para invadir casa e matar homem em SP

Rodrigo fazia bico em uma barraca de churrasco em frente à estação de trem Vila Lobos-Jaguaré, na zona oeste. “Ali ele conseguia o dinheirinho dele pra comprar a maldita da droga”, relatou. “O chefe dele me ligou perguntando se era verdade que o Rodrigo tinha morrido. Ele disse que brigava com o Rodrigo pra ele não pedir dinheiro no sinal, que ele podia trabalhar com ele. Disse que Rodrigo não fazia mal para ninguém”, contou.

“O Rodrigo ficava dois, três dias na rua e depois voltava para casa. Ele queria parar com as drogas. Com a pandemia, ele teve que parar de trabalhar. Ele ficava em casa muitos dias seguidos, mas sempre tinha recaídas”, completou a mãe.

Outro lado

A reportagem procurou a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Militar questionando a ação policial e solicitando entrevista com os policiais citados.

Em nota, a SSP informou que “o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pela Divisão de Homicídios do DHPP. As armas envolvidas na ação foram apreendidas e encaminhadas para perícia”.

“A PM também apura os fatos por meio de IPM, cujo teor é de caráter sigiloso conforme Art. 326 do Código do Processo Penal Militar”, completou a pasta.

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