‘Tive duas perdas: do meu namorado e do filho que não vai nascer’

05/05/20 por Caê Vasconcelos

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Isabele Vieira, 18 anos, estava grávida de 5 semanas e teve um aborto espontâneo ao saber que o companheiro David foi morto após ser colocado em viatura da PM

Isabele e David estavam juntos há 9 meses | Foto: arquivo pessoal

“Naquele momento, acabou tudo”. É assim que a estudante Isabele Vieira, 18 anos, define a sensação ao saber que o namorado David Nascimento dos Santos, 23, que trabalhava como vendedor de balas e tinha sonho de ser cantor, estava morto. Na noite de 24 de abril, ele foi abordado e colocado em uma viatura do 5° Baep (Batalhão de Operações Especiais), na Favela do Areião, no Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo.

“Meu chão caiu e parecia que tinha mais de vinte caminhões em cima das minhas costas. Foi uma tristeza tão grande que eu não quis acreditar, apenas me afastei do pessoal dele e fui chorar. Pedia para Deus trazer meu menino de volta”, desabafou Isabele.

A prece de Isabela, infelizmente, não se concretizou e, duas horas depois, o corpo do namorado foi encontrado em uma favela da Grande SP.

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O casal estava namorando há 9 meses e há 3 moravam juntos. Com a morte de David muitos sonhos e planos ficaram para trás. Em entrevista exclusiva à Ponte, a estudante contou que estava grávida de 5 semanas, mas, diante do nervosismo dos últimos dias, teve um aborto espontâneo.

David e Isabele moravam juntos há 3 meses | Foto: arquivo pessoal

“Ele [David] ainda nem sabia. O primeiro filho que eu ia ter com ele e o terceiro filho dele”, disse. “Mas infelizmente ele morreu sem saber dessa notícia. Agora meus dois anjinhos estão cuidando de mim lá do céu”.

No dia da tragédia, como Isabele nomeou a morte de David, eles trocaram mensagens até minutos antes de o vendedor ser abordado. A jovem conta que o namorado havia saído de casa para baixar uma série e comprar algo no aplicativo iFood para os dois comerem.

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Eram por volta de 18h30 quando David saiu de casa. Desse instante até o momento da abordagem, às 19h48, o casal trocou mensagens. Essas mensagens, segundo o advogado Raphael Blaselbauer, que representa a família da vítima, monta uma ordem cronológica que corrobora com as declarações da família de David e servirá como importante prova.

“Quando foi por volta das 19h43, ele me mandou a última mensagem, dizendo que já tinha terminado de baixar as séries e que já estava descendo para casa”, detalha Isabele.

“Ele foi abordado e logo em seguida o irmão dele veio me avisar. Nessa hora eu fiquei louca, desesperada atrás dele, mas infelizmente eu só fui encontrar ele quase 2h da manhã no hospital, sem vida já”.

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Para Isabele, a notícia de que os 8 policiais militares suspeitos de participar da ação que tirou a vida de David estão presos foi um alívio. “Eu fiquei mais tranquila, pois antes estávamos com muito medo e nos sentindo ameaçados. Acreditamos que, dessa forma, as investigações vão poder ser feitas de uma forma mais segura”, conta.

Isabele define David em duas frases: trabalhador e menino de ouro. “Ele não tinha vergonha de nada, com ele não tinha tempo ruim. Ele trabalhava no farol, na marginal, no trem e vários outros lugares que ele conseguia para ganhar um dinheiro para sustentar a gente e os dois filhos”, explica.

A jovem conta que o companheiro tinha o sonho de comprar uma casa fora da favela para a mãe. “Por isso que tinha esse grande sonho de explodir no mundão [como cantor]. Ele sempre me falava ‘vida, se um dia eu explodir no mundão e me perguntarem se eu quero dinheiro ou uma casa, eu vou escolher a casa e vou dá para minha coroa, e o resto eu conquisto'”, relembra Isabele.

O que diz a PM

A reportagem procurou, nesta terça-feira (5/5), mais uma vez a Secretaria de Segurança Pública de SP e a Polícia Militar para solicitar entrevista com as defesas dos policiais suspeitos de participar da ação: 1º sargento Carlos Antonio Rodrigues do Carmo, cabo Lucas dos Santos Espíndola, cabo Mauricio Sampaio da Silva e soldado Vagner da Silva Borges, e da equipe do Baep E-05303, composta pelo 2º sargento Carlos Alberto dos Santos Lins, cabo Cristiano Gonçalves Machado, soldado Antonio Carlos Rodrigues de Brito e soldado Cleber Firmino de Almeida.

A mesma nota enviada nesta segunda-feira (4/5) foi reenviada pela pasta, confirmando que os policiais estão presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da cidade de SP.

“As investigações seguem tanto pela PM, como pelo DHPP”, conclui a nota.

ERRATA – 8h50 do dia 6/5: Alteração na linha-fina para corrigir a informação do período de gravidez de Isabele.

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