‘Uma marca para o resto da vida’, diz vítima atingida no rosto por bala de borracha da PM

20/09/19 por Mariana Ferrari

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Moradora do extremo leste de SP, Rosimeire Santos da Silva levou tiro de bala de borracha em seu rosto ao testemunhar ação policial contra suspeito

Rosimeire mostra a cicatriz em seu rosto | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Rosimeire Santos da Silva descobriu um inimigo aos 34 anos. Vidros e espelhos refletem não só a sua face, mas a lembrança e a cicatriz de um dia que ela quer esquecer. As maquiagens estão jogadas em um canto do apartamento de dois quartos dentro do Condomínio Atibaia, em São Mateus, extremo leste de São Paulo. As unhas já não recebem o esmalte com a mesma frequência de antes. A vaidade foi e ficou a marca na bochecha do lado esquerdo do seu rosto, que ela classifica como “horrível”. Em fotos reveladas e penduradas na pequena sala do apartamento, Meire, como é conhecida pelos íntimos, posa com óculos de sol e um batom rosa claro nos lábios. No registro ela sorri. Hoje, quando a mulher de cabelos longos se olha no espelho não consegue mais ver “aquele rosto bonito”.

Exames mostram a profundidade do tiro que Meire levou no rosto | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Eram 22h30 de um domingo de agosto, quando as temperaturas chegaram a 10 graus na capital paulista. Rosimeire aceitou o convite da amiga Rosineide para fumar um cigarro na entrada do condomínio, onde mora há 5 anos. As duas ficaram conversando ao lado de uma porta, que dá acesso aos apartamentos do bloco. Pouco depois avistaram três viaturas. “Eu vi os policiais vindo com um rapaz algemado”, conta. Por causa do frio, Meire e Rosineide eram praticamente as únicas pessoas na área comum da ocupação. “Dali eu visualizava tudo o que eles [policiais] faziam”, explica.  

Foi desse ângulo que o PM conseguiu perceber que Meire testemunhava a ação no matagal do condomínio | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Meire resolveu ficar por ali mesmo, já que os policiais levaram o rapaz algemado para a parte de trás do condomínio onde há um matagal. O local também ficava próximo a entrada do seu apartamento. “Eu não vou [entrar] né? Vai que eles resmunga que eu to entrando aqui para ver alguma coisa”, disse que pensou na hora. Ficou ali.  Mas, entre uma tragada e outra, o policial fitou Rosimeire lá no fim do corredor. Ela sentiu que ele havia guardado a sua fisionomia.  

Cerca de 2 minutos depois que os PMs levaram o rapaz até o fundo do terreno, Meire escutou quatro disparos. Em seguida, o jovem que chegou algemado passou a correr em direção a portaria. Só que agora sem algemas. “Se ele entrou algemado, como ele tava ‘desalgemado’?”

O cigarro foi abandonado e ela só pensou em gritar para as poucas crianças que estavam na rua: “Corre, corre”. Meire avistou um policial ruivo, apoiou a mão em seu ombro e implorou: “Moço, pelo amor de Deus. Tem criança, não atira”. “Tá bom senhora. Isso não vai acontecer. Desculpa”, ele respondeu, segundo ela. 

Apesar do alvoroço, Meire seguiu o protocolo de sempre: acompanhou as autoridades até a saída. Quando chegaram na entrada do condomínio, que fica em uma rua sem saída, ela viu o rapaz, agora algemado, entrando na viatura. Em seguida, dois policiais saíram dos carros oficiais com armas de bala de borracha em punho. Rosimeire ficou atônita “Ele [policial] não vai fazer isso”, pensou, enquanto se mantinha paralisada. “Sabe quando você paralisa? Se fosse alguém gritando, agredindo, mas não tava acontecendo nada”.  

A descrença virou realidade. Com a arma apontada na direção de Rosimeire, o PM disparou três balas de borracha, a uma distância de três metros. Uma delas ficou alojada no rosto de Meire. “Aí eu caí”, conta.

Meire tenta fazer as pazes com o espelho e esquecer a violência que sofreu | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Em seguida, se levantou e foi socorrida pela amiga que antes só queria fumar um cigarro. Subiram 48 degraus até a rua de cima. No meio da escada, outros policiais desciam rumo ao tumulto. Meire achou que seria uma boa hora de pedir socorro: “Moço, me ajuda. Eu fui atingida”. A resposta veio como um maltrato. “Vai embora para casa. Se tivesse dentro de casa não tinha acontecido isso”. Só que ela estava em casa. “Eu tava onde, então? Eles que entraram nessa agressão toda sem a gente entender quem era o rapaz, o que se passava”, desabafou.  

Rosineide acompanhou a amiga até o Hospital Sapopemba. Lá, policiais chegaram e questionaram o que Meire sabia do ocorrido. Ela disse que viu tudo. Neide alegou a Meire que os PMs eram os mesmo que estavam, horas antes, no Condomínio Atibaia. Depois de 24 horas, Meire foi transferida para o Hospital Penteado, na zona norte de São Paulo. Ficou internada por 10 dias. No dia 20 de agosto, fez exame de corpo de Delito no IML Leste, localizado no bairro Arthur Alvim.  

Quando recebeu alta, encontrou a casa um pouco mais vazia. O marido, com quem é casada há 14 anos, tinha ido embora. Deixou Meire sozinha, machucada e com os quatro filhos. “Foi tudo para o lixo por causa de uma coisa que eu não tenho culpa? Fiquei na minha cabeça: aonde eu sou culpada? O que eu errei? Estar no lugar errado, na hora errada? Minha cabeça ficou um buraco sem fundo aqui”, relata com a voz embargada e olhos marejados.  

Meire também encontrou crianças abaladas com a situação. Basta um policial fardado ou uma viatura para os pequenos se alvoroçarem para avisar a “tia” que tem “polícia” no condomínio. Um dia, o filho Meire brincava com o amiguinho nos prédios de cima, chamados de laranja. “Olha, tem polícia nos prédios”, disse a criança de 8 anos. O filho de Meire respondeu: “Vamo logo antes que os polícia pegue e leve a minha mãe de uma vez e mata”. Ele só tem nove anos.  

O filho de 9 anos de Meire fica abalado quando vê policiais e viaturas no Condomínio Atibaia | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

A noite fria do domingo de agosto impactou também as inocentes brincadeiras das centenas de crianças que moram no Condomínio Atibaia. Pega-pega, esconde-esconde foram ficando para trás e hoje os pequenos correm pelo terreno imitando “polícia e ladrão”.  

Antes, quando os policiais entravam na ocupação, os pequenos diziam “oi, polícia”. Enquanto os homens fardados passavam as mãos nos cabelos das crianças. Hoje o aviso é: “Viu polícia vem para dentro”.  

No Condomínio Atibaia os apartamentos dos vizinhos são de livre circulação. Meire recebeu e acomodou a reportagem na sala de sua casa, sem fechar a porta de entrada. De tempos em tempos moradores passavam, deixavam brinquedos para as crianças, pediam a chave do portão ou então só perguntavam se estava tudo bem. As trancas são passadas quando algum morador, com vista para a portaria, avisa os condôminos, pelo grupo de WhatsApp, a chegada das viaturas. Segurança reversa no Condomínio Atibaia desde o dia 4 de agosto.  

Saindo da Avenida Sapopemba, sentido São Mateus, parece que entro em uma cidade do interior. Grandes casas com revestimento impecável contrastam com puxadinhos finalizados só no tijolo laranja. Quanto mais o carro anda, mais árvores aparecem. O colorido das grandes casas de esquina, revestidas com pedras, ficam para trás. Os comércios chegam e as cores predominantes passam a ser o cinza e o coral. As paredes são coloridas com tinta barata, que deixam qualquer cor com uma tonalidade pastel.  

Em prédios de cinco andares, de um tom verde-claro, Rosimeire tende a continuar a vida. “Meu mundo parou”, diz. Dia e noite ela procura ficar o máximo de tempo possível dentro do apartamento, que bloqueia a luz do sol com uma cortina vermelha, sobreposta por uma renda branca. As paredes de sua casa recebem uma decoração peculiar, que trazem um colorido na pintura branca. A única mesa da sala é também branca, mas o uso e o tempo mostram o ferro atrás da camada de tinta.  

Condomínio Atibaia é uma ocupação que existe desde 2013; Meire mora nos blocos pintados de verde-claro | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Em cima do móvel em que a família faz as refeições há bibelôs grudados na parede. 3 pássaros, 12 borboletas, 7 golfinhos, 3 pombas, 5 peixes e 3 corações vermelhos. O sofá de dois lugares está coberto por uma manta com desenhos indianos, meio alaranjada. É ali que os filhos de Meire passam a maior parte do dia jogando video game. “Antes aí do que na rua”, ela comenta.  

Desde o ocorrido, Meire passa a maior parte do tempo dentro de casa ou no ‘seu quadrado’, uma área aberta que fica dentro dos blocos | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Há uma semana o marido resolveu voltar para casa. Um dos filhos estava fingindo doença de corpo, mas era o coração com saudades do pai. O único espelho de corpo do apartamento foi estraçalhado, quando Meire não suportou olhar sua imagem. O objeto quebrou só do joelho para baixo, fazendo com que a mulher ainda tenha que se olhar toda vez que precisa limpar o curativo.  

Rosimeire se sente corajosa por estar conseguindo enfrentar tudo isso. Deu queixa na Ouvidoria de São Paulo e aguarda uma resposta das autoridades, embora seja bastante pessimista quanto ao resultado disso. “Minha cicatriz vai ser para o resto da minha vida, aqui na minha cara. Enquanto eles [policiais] vão perder o que, só a farda?”, questiona. 

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP) para questionar o motivo da ocorrência no Condomínio Atibaia e sobre as investigações. Até a publicação a pasta não respondeu.

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