Vídeo garante liberdade a cobrador negro acusado de roubo pela PM de SP

10/10/19 por Arthur Stabile

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Juiz deu alvará de soltura baseado em imagens de câmeras de segurança que mostram Valter José dos Santos na rua enquanto crime ocorria em mercado

Os três filhos abraçam Valter em sua saída do CDP do Belém, em São Paulo | Foto: Arquivo pessoal

Imagens de câmeras de segurança fizeram com que a Justiça de São Paulo libertasse Valter José dos Santos, um cobrador de ônibus negro de 53 anos. Ele foi baleado e incriminado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, gerida pelo governador João Doria (PSDB), por um roubo a um supermercado na Ponte Rasa, zona leste da capital paulista.

Um dos filhos de Valter enviou à reportagem a foto do emocionante reencontro na saída da penitenciária, que ocorreu no fim da tarde desta quinta-feira (10/10).

O juiz Antônio Carlos de Campos Machado Júnior acatou o pedido da defesa, que argumentava que as câmeras de segurança captaram Valter passando pela avenida Águia de Haia enquanto os suspeitos corriam. Os três passam na direção inversa à que o senhor está caminhando. Em seguida, Valter cai baleado com um tiro no abdômen.

“Entrei com pedido de reconsideração para o juiz da vara ontem [quarta-feira, dia 9/10]. Hoje eu fui despachar diretamente com ele, que concedeu a liberdade provisória”, explica a defensora, Maria Ângela Correia Leite. O homem estava preso desde o dia 14 de setembro no CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, zona leste de São Paulo.

Os registros contradizem a versão dada pelos policiais militares Vinícius Augusto de Freitas Silva e Rafael Montovani Mata da Silva. Os soldados afirmaram ao delegado José Pinto Martins Júnior, do 24º DP (Distrito Policial), que Valter era um dos quatro assaltantes que entraram no mercado e roubaram cerca de R$ 5 mil. Valter teria saído correndo, mesmo com severos problemas de circulação que afetam sua mobilidade. Com ele, garantem os PMs, teriam encontrado um revólver da marca Taurus e R$ 1 mil, fruto do roubo.

Segundo a defensora e parentes do cobrador de ônibus, os policiais interferiram diretamente no depoimento dos funcionários do supermercado Dia, local do crime. “O meu pai vem devagar, nessa os três passam e os PMs já estavam disparando. Foi quando atingem ele. O que você imagina? Para o PM não se ferrar, ele vai prejudicar um inocente. Foi o que fizeram e ficou comprovado nas imagens de segurança”, garante Yuri Santos, filho de Valter.

Sete funcionários do mercado apresentam suas versões: duas funcionárias disseram que Valter era o “meliante que anunciou o assalto”, outro disse que ouviu as falas de Valter no momento do roubo. Um quarto trabalhador falou que ele “gritava para que as pessoas fossem ao fundo do mercado”. Uma das funcionárias contou que Valter “andava pelo salão do mercado” e aproveitou o roubo para pegar um “pedaço de picanha”. Uma mulher não o citou em depoimento e um homem disse que não o viu no local.

Valter (à esq.) passa em direção ao mercado enquanto os suspeitos vão ao caminho inverso (registro à dir.) | Foto: Arquivo pessoal/Reprodução

A Ponte questionou a SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), chefiada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre a prisão de Valter e a atuação dos PMs. Em nota, a PM explicou que os policiais que atuaram na ocorrência foram afastados preventivamente e que a Corregedoria da PM investiga os fatos.

Em nota, a SSP afirma que “não compactua com desvios de conduta de seus agentes e defende a investigação rigorosa de todas as denúncias. Se comprovadas quaisquer irregularidades, as medidas cabíveis serão adotadas”, assegura.

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