Vítima de estupro acusa policiais de zombarem dela em delegacia

Estudante ouviu um policial dizer que abusador ‘só tinha passado a mão’ e médico do IML perguntar se ela fazia parte da ‘moda do assédio’

Após se tornar mais uma vítima de abuso sexual em transporte público na região da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, ao acordar com a mão de um desconhecido em sua virilha dentro do ônibus, a estudante Cássia (nome fictício), 22 anos, viveu no último sábado (21) o que chamou de “show de horrores” ao buscar a ajuda da Polícia Civl no 78º DP (Jardins).

“Um policial me perguntou se eu estava bêbada, outro disse que não havia muito o que fazer porque o homem ‘só tinha passado a mão’”, relata a estudante. Ao ser levada para o IML (Instituto Médico Legal) para o exame do corpo de delito, um médico também zombou da sua queixa. “O médico me perguntou se eu estava fazendo parte da ‘moda do assédio em transporte público’. Foi um show de horrores”, afirma a estudante.

Na delegacia, o caso foi registrado como estupro de vulnerável, previsto no Código Penal para os crimes em que a vítima, por qualquer motivo, não consegue oferecer resistência contra um ato libidinoso.

O caso

Cássia conta que, a caminho do estágio, pegou um ônibus por volta das 18h, no sábado, ocupou o último assento e, sentada no canto da janela, adormeceu. Durante o trajeto, percebeu a presença de um homem ao seu lado. Ela carregava uma mochila em seu colo, mas sentiu a bolsa escorregar durante três vezes e achou que fosse a movimentação do ônibus. Quando abriu os olhos, ainda sonolenta, deparou-se com uma das mãos do agressor na sua virilha.

Ao ser flagrado, o abusador não se intimidou. “O rapaz estava olhando pra frente como se nada tivesse acontecido. No mesmo momento, mas sem muita voz, eu disse: ‘não acredito que você fez isso, você é louco?’”, conta.

Segundo a vítima, o homem levantou-se e rumou em direção à porta dizendo que iria descer no próximo ponto “para não ouvir os seus desaforos”. Imediatamente, ela começou a gritar no ônibus dizendo que o homem havia passado a mão nela.

Imagens do suspeito de estupro feitas pela vítima | Foto: Arquivo Pessoal

No cruzamento da Paulista com a Rua da Consolação, o motorista abriu a porta para outros passageiros descerem. O homem aproveitou para tentar fugir, sendo segurado pela vítima e pelo cobrador.

“O motorista fechou a porta na tentativa de impedir que ele saísse, mas nesse momento minha mão e parte do corpo do cobrador ficaram presas entre as portas”, relatou a vítima. Quando a porta se abriu de novo, o abusador saiu e Cássia gritou para as pessoas no ponto de ônibus que aquele homem a havia assediado, momento em que ele se voltou para tentar agredir a estudante.

“O nojento veio pra cima de mim, eu fiquei desesperada mandando ele não chegar perto, as pessoas ao redor sem entender o que estava acontecendo, enquanto os passageiros do ônibus filmavam todo o espetáculo. O homem se aproximou novamente e tentava me puxar, algumas pessoas o empurraram, quando uma pessoa entrou entre nós, dizendo para eu ficar atrás dele”, relatou a vítima à Ponte.

A pessoa que ficou entre ambos, o comerciante Jefferson Scaraficci, conta: “Eu estava no ponto e aquilo me deixou assustado, quando ele chegou próximo tentando pegar ela pelo braço acabei indo defendê-la e puxei ela pra trás de mim”. Outro rapaz tentou ir atrás do agressor, que dessa vez conseguiu fugir, correndo em direção à Avenida Angélica.

Durante o tumulto, a jornalista Natalia Guaratto, 29, que estava indo para o ponto de ônibus, afirma que se aproximou quando ouviu um grito e viu o aglomerado de pessoas. “A Cássia estava chorando muito, amparada pelo Jefferson. Eu imaginei que era assédio por conta dos casos recentes na Paulista e me aproximei dela para perguntar e tentar ajudar”, disse. Ela se juntou à vítima e, junto com Jefferson, dirigiram-se ao 78º DP para registrar um boletim de ocorrência.

Outro lado

Procurada pela Ponte, a CDN Comunicação, responsável pela assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública do governo Geraldo Alckmin (PSDB), não comentou as denúncias a respeito do comportamento dos policiais civis do 78º DP e do médico do IML. Em vez disso, emitiu a seguinte nota:

A Polícia Civil informa que o caso foi registrado como estupro de vulnerável e está sendo investigado pelo 78° DP. No dia dos fatos, após o registro da ocorrência, a vítima foi encaminhada para exame de corpo de delito e a equipe responsável aguarda os resultados. As imagens fornecidas pela vítima estão sendo analisadas e deverão ajudar na identificação do autor.

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