Viúva de homem morto por PM na Grande SP afirma ter sido fotografada por réu

19/01/18 por Maria Teresa Cruz e Giorgia Cavicchioli

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Fernanda Camargo quer denunciar policial que responde processo pela morte do marido dela por suposta intimidação; tanto ouvidoria das polícias quanto ONG Conectas afirmam que, confirmada, atitude configura ameaça

Casal viveu junto durante 23 anos e teve uma filha, que tem 17 anos – Foto: Arquivo Pessoal

“Eu não acredito em coincidência”, diz Fernanda Camargo dos Santos, viúva do mecânico Eduardo Alves dos Santos, de 42 anos, que morreu após ser agredido pelo PM Adriano Soares Araújo, que foi atender uma ocorrência na casa do casal. Eduardo era alcoólatra e o casamento dos dois não estava indo bem. Um dia antes do ocorrido, eles tinham tido uma discussão e Eduardo queimou roupas e quebrou objetos pessoais de Fernanda.

“Eu tinha voltado do serviço e meu marido tinha bebido, não queria me deixar entrar e eu tive receio, até porque a verdade é que ele tinha me agredido outras vezes. Chamei a polícia para me ajudar. Mas nunca imaginava que ia matar meu marido”, explica a viúva. “Eu me arrependi amargamente de ter chamado a polícia. Eu estava tentando solucionar um problema, pedi ajuda porque sempre pensei que a polícia era pra proteger e não para matar. Mas ele [Araújo] destruiu minha família, acabou com a nossa vida”.

Na terça-feira (16/1), data em que se completa um ano da morte do marido, Fernanda conta que foi buscar a filha adolescente no centro de Itapevi, na Grande São Paulo, onde mora, quando garantiu ter sido fotografada e filmada pelo policial que é réu no processo na Justiça Militar por lesão corporal seguida da morte de Eduardo.  

“Eu fiquei apavorada, porque reconheci ele, mas tive que fazer um retorno e passei novamente pelo local onde ele estava. Ele ficou esperando, filmou o meu rosto, o da minha filha e o carro. Foi até mais ou menos no mesmo horário da morte do meu marido”, desabafou. “Eu nunca mais tinha visto o Araújo, só nas audiências mesmo”, diz. Ela conta que o PM não estava fardado. “Ele estava de camiseta e bermuda. A minha pergunta é por que ele me filmou? Qual a intenção nisso?”. 

De acordo com o ouvidor das polícias do Estado de São Paulo, Julio Cesar Fernandes Neves, ela deve fazer a denúncia formal na Ouvidoria. Segundo ele, Fernanda está “entendendo [a situação] como uma ameaça”, então ela deve registrar as intimidações.

Fernanda conta que, desde o ocorrido, está afastada do trabalho e toda viatura que vê na rua provoca pavor. “Eu fico olhando para ver se é o Araújo ou o Vasconcellos”. Ela afirma que pretende registrar a denúncia formal na próxima segunda-feira (22/1).

O advogado Henrique Apolinario, assessor do programa de violência institucional da ONG Conectas, afirma que ela tem razão em se sentir insegura com a situação e que “com esse histórico, sem dúvida [a ação do policial] é uma ameça.” Segundo ele, além da Corregedoria da Polícia Militar, ela também poderia procurar o MP (Ministério Público) ou a defensoria pública para que os órgãos pudessem agir sobre o caso e proteger a testemunha, já que Fernanda é testemunha dos fatos. “A agressão aconteceu na minha frente, na frente da minha mãe e de outros dois funcionários. Meu marido estava caído no chão já e levou chute na cara”, lembra.

O advogado do PM Adriano Soares Araújo, Ângelo Aparecido Moitinho, afirma desconhecer qualquer atitude desse tipo do cliente. “Eu desconheço esse fato de que ele a estaria seguindo. Não vou nem mesmo me manifestar se isso seria uma possibilidade ou não, porque seria leviano da minha parte”, disse Moitinho. “Sugiro que ela vá até o batalhão dele ou mesmo até a Corregedoria para denunciar e que eles apurem de fato o que está acontecendo”, afirmou por telefone. Segundo o advogado, o processo que corre na Justiça Militar está na chamada fase 262. Ou seja, as oitivas já foram feitas, mas a defesa questionou um item do laudo pericial.

“Existe uma questão de interpretação. Lá tem um ferimento com crosta que se alega que teria sido produzido pelo Araújo. Mas quem conhece um pouco de medicina legal sabe que se tem crosta é porque já tinha sido produzido a mais de 48 horas. O que esta sendo discutido é o que esta no laudo e o que foi de fato produzido. do que realmente aconteceu, do que é verdade ou mentira”, explica. Não há previsão para conclusão dessa fase, já que o juiz pode entender que há necessidade de uma nova perícia. Além disso, com esse questionamento probatório, tanto defesa quanto o Ministério Público podem querer ouvir mais testemunhas.

A Ponte procurou por e-mail a assessoria da Polícia Militar e da Secretaria da Segurança Pública, de responsabilidade da CDN Comunicação, para saber o que a instituição acha da atitude do policial, além de saber detalhes da situação dele dentro da corporação, mas, até o momento, não obteve retorno.

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