Zilda Maria de Paula: ‘Não sossego enquanto não houver justiça’

14/05/21 por Luís Adorno

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Após quatro abortos espontâneos, Zilda conseguiu ter seu primeiro e único filho, Fernando. Em 2015, ele foi morto na chacina de Osasco. ‘Será que os bandidos fardados que fizeram isso têm noção do quanto eu lutei para ter meu filho?’

Ilustração: Junião

Para marcar os 15 anos dos Crimes de Maio, a Ponte publica 15 perfis de mulheres que perderam familiares para a violência policial, originalmente publicados no livro “Mães em Luta”, organizado por André Caramante e editado por Ponte e Mães de Maio em 2016

Uma força negra nasceu em algum lugar de São Paulo no dia 9 de outubro de 1952. Uma menina. Chamada Zilda. Meses após seu nascimento, a mãe biológica, de Guaianazes, extremo leste da capital paulista, pediu a um casal da Brasilândia, na zona norte, que cuidasse dela um instante, enquanto iria comprar uma lata de talco. Não voltou para buscar aquela criança até hoje. Zilda Maria de Paula foi, então, adotada pelo casal. A mãe de criação sempre trabalhou como empregada doméstica, dormindo nas casas dos patrões. Zilda era levada junto com ela. Os empregos da segunda mãe da menina eram itinerantes. Às vezes, era na Brasilândia, às vezes, na Pompeia, bairro nobre na zona oeste da capital. A menina era uma das poucas negras nas escolas da região.

— Mãe, preciso saber quais são minhas reais origens.

— Zilda, sua mãe é de Guaianazes. Seu pai morreu. Está enterrado no cemitério do Lajeado, lá na zona leste. Não sei os nomes.

Tirando isso, a outra informação que Zilda tinha quando criança era de que seu pai biológico teve uma outra filha. A menina tinha uma irmã em algum lugar do mundo. E quis conhecê-la. Mal sabia ela que, passados mais de 60 anos de idade, jamais a encontraria. Assim, Zilda cresceu entre um bairro nobre e um bairro periférico. Pensando em conhecer sua família biológica.

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A pré-adolescência foi chegando e ela e a mulher que a acolheu estavam estabilizadas na casa de uma família no bairro da Pompéia. Até que a dona da casa começou a temer ter uma menina de 13 anos dentro de casa. Ela poderia ser um risco para seu casamento. Mãe adotiva e filha começaram a se desentender e Zilda decidiu ir para a rua.

Na primeira noite, tentou dormir na paróquia católica Nossa Senhora do Rosário, na rua Doutor Augusto Miranda. Pela primeira vez na vida sentiu a dificuldade de não ter cama e cobertor quentinho para a confortar durante a noite. Decidiu caminhar para esquentar na noite fria paulistana. Andou, andou, andou até chegar na rua da Consolação, onde se deslumbrou com o Canal 7 — a Rede Record — que ficava no local (hoje, fica na rua da Várzea, na Barra Funda).

— Oi, meninas. O que acontece aqui?

— Aqui vêm os artistas. Só broto da Bossa Nova se apresenta. É a maior onda.

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Zilda virou parceira de rua de outras cinco meninas. Todas dormiam em frente à entrada principal do Cemitério Municipal da Consolação. As meninas dormiam abraçadas para diminuir o frio. Quando acordavam, entravam no cemitério e pediam proteção a um Santo Antônio de mármore. Ali, Zilda descobriu que a união faz a força. Todas elas arrumavam, esporadicamente, bicos de doméstica.

— Meninas, o patrão foi trabalhar. Podem entrar, lavar a roupa e tomar banho. Mas sem bagunça!

Assim, elas se mantinham limpas para estarem apresentáveis na frente do Canal 7, com tanta gente bem arrumada. Por 3 cruzeiros, elas compravam alguns ingressos e revendiam. Trabalhavam como cambistas. O dinheiro, somado ao da diária como doméstica, era usado sempre de manhã, para tomar café.

— Ontem, a noite foi ruim, seu João. Me vê uma coxinha e uma Fanta, fazendo o favor.

Quando elas conseguiam revender mais ingressos, o café da manhã era melhor, comprava um salgado mais caro e mais reforçado. O que estivesse na prateleira. A comida de manhã também era melhor quando conseguiam os bicos. Elas não se fixavam num emprego porque, vira e mexe, eram pegas tentando ajudar as amigas. Só a Zilda foi desmascarada ajudando as companheiras duas vezes.

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Assim foi a vida de Zilda por dois anos. Até que ela foi amadurecendo. Prestes a completar a maioridade, foi se fixando mais em bicos, até que conseguiu um emprego na Brasilândia, zona norte, onde passou a morar. Depois, ainda vivendo no mesmo bairro, conseguiu um emprego em uma malharia no Bom Retiro.

— Tinha só dinheiro pra condução. Nada para a marmita. Pegava um ônibus até a Barra Funda e ia andando até o Bom Retiro.

Decidiu voltar para a casa da mãe, ainda na Brasilândia, e largar esse emprego onde ela não conseguia sequer comer durante o dia. Mas o ambiente já não era bom. Foi quando o samba mudou a vida da então jovem Zilda.

Surgiu na Brasilândia uma das principais escolas de samba de São Paulo. A Rosas de Ouro. Zilda foi uma das primeiras passistas da Rosas. Se tornou primeira porta bandeira. Se apaixonou e se casou com um dos primeiros diretores de bateria da agremiação, o Nego 2. O rapaz, com fama de mulherengo, era casado e terminou para ficar com Zilda. Os dois namoraram e passaram a viver juntos. Queriam era ter uma família grande.

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Tentaram ter um filho. Zilda ficou grávida pela primeira vez, mas sofreu aborto espontâneo, com três meses de gestação. Fez um tratamento no Hospital das Clínicas e descobriu que a fatalidade ocorreu porque a pressão dela estava muito alta. Teve a segunda gravidez. Novo aborto espontâneo, desta vez, aos quatro meses. Na terceira gravidez, o mesmo aconteceu quando ela estava com quase cinco meses. Na quarta, com quase seis meses. Veio a quinta gravidez.

— Mãe, é um menino. Se cuide e, qualquer eventualidade, corra para o médico — disse à Zilda e Nego 2 o médico que acompanhava a família.

Zilda contava os dias para a chegada do filho numa folha. Mas ela errou nas contas. Numa quinta-feira, ela achava que estava com oito meses de gestação, percebeu um sangramento e, com medo de sofrer novo aborto espontâneo, voou para o hospital. Foi internada às pressas.

— Mamãe, seu filho vai nascer!

Fernando Luiz de Paula, um negro lindo, nasceu pesando três quilos e medindo 38 centímetros em um hospital de São Paulo que hoje é um mercado Dia, perto da delegacia da Freguesia do Ó.

O mês era março e parecia que o Carnaval de fevereiro havia se prolongado por mais um mês. Foi festa desde a nova quadra da Rosas de Ouro, na própria Freguesia — mudou a localidade porque havia muita briga na Brasilândia após os eventos —, até o bairro raiz da agremiação, onde a família De Paula vivia.

— Fernando foi muito esperado. Ninguém aguentava ver meu sofrimento com tantos abortos espontâneos. A gente queria muito ele. Lutamos muito para ter ele. Será que os bandidos fardados que fizeram isso têm noção do quanto eu lutei para ter meu filho? Como é que pode a gente tentar tanto, conseguir ter, criar com carinho e alguém vir tirar nosso filho da gente, da forma que foi? — questiona Zilda, hoje com 67 anos.

Zilda e Nego 2 ainda sonhavam com uma família grande. Decidiram tentar dar a Fernando um irmão, ou uma irmã. A passista e doméstica Zilda engravidou pela sexta vez. Quando o menino tinha um ano, nasceu a irmãzinha, com problemas de respiração.

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—Depois de um mês na incubadora, trouxe ela para casa. Era um domingo. Na segunda, voltei com ela para o hospital. Ela morreu.

Para o enterro, a família decidiu batizar a menina de Flávia. Então, Zilda e Nego 2 se contentaram em ter apenas Fernando. Mas o marido não tinha decidido ficar só com Zilda. A mãe de Fernando relata que era agredida constantemente por Nego 2. A fama antiga de mulherengo do sambista havia sido confirmada na prática. Ele passou com uma outra mulher em frente à casa de uma amiga.

Paft!

Um barulho interrompe a entrevista concedida por Zilda na casa dela, que fica a menos de 300 metros do bar onde Fernando foi morto. Estamos no sofá, eu e a fotógrafa Fernanda, numa tarde de 2016. Zilda está no meu lado esquerdo, sentada em frente a uma máquina de costura. O barulho veio da direita. Ela passa pela gente e se dirige até uma espécie de escrivaninha.

—Fernando, nunca vi um amor tão grande quanto esse que você tinha pelo seu pai — diz Zilda enquanto pega uma foto de Fernando, vestido com a farda do Exército, quando ele serviu a pátria, em 2000, emoldurada com madeiras da cor bege, que caiu sozinha no chão. — Ele amava o pai. Nunca pude falar mal dele. Quando ele foi embora, Fernando rastejando aos pés dele, chorando. Devia ter uns 4 ou 5 aninhos — continuou.

Mas nem tudo eram flores nos 11 anos em que Zilda e Nego 2 viveram juntos. Zilda sofria e se acostumou com a violência doméstica. Era agredida dentro de casa. O motivo principal: ciúmes. Na mesma época que o divórcio era concretizado, a família para a qual Zilda trabalhava foi para os Estados Unidos ficar dois anos. Período em que a doméstica ficaria sem receber deles.

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O apoio chegou justamente da família do ex-marido. Sem casa para morar, Zilda e Fernando foram para a casa da sogra. Os cunhados também ajudaram muito. Dia e noite, Zilda trabalhava para três itens essenciais: o leite de Fernando, o macarrão para que ambos pudessem comer e o cigarro, seu vício. Zilda não deixava o filho na creche. Preferia levar Fernando para cima e para baixo, onde fosse, fizesse chuva ou sol.

Até que os patrões voltaram dos Estados Unidos e a chamaram de volta. Eram três ônibus para chegar no emprego de seus patrões, biólogos renomados. O carinho dos patrões começou a crescer cada vez mais por Fernando.

— Meu patrão quis adotá-lo, mas a psicóloga disse que seria ruim porque Fernando já tinha pai. Ele conhecia e amava seu pai.

Mesmo assim, os patrões pagaram uma escola famosa, em Pinheiros, assim que Fernando entrou na primeira série. Estudava na mesma escola de seus filhos. Ele era a única criança negra da escola e sofria racismo diariamente. Um ou outro colega se aproximava, mas, a maioria só chegava perto para zombá-lo.

— Queriam chamá-lo de Pelé. Ele, são-paulino roxo, não admitia — diz a mãe.

Mesmo assim, ele tinha empatia com o jogador Viola, artilheiro corintiano e palmeirense. Gostava quando o chamavam de Viola. Certa vez, ele, cansado de ser chamado de Pelé pelos colegas, levou um estilete para a escola e ameaçou todos que ousavam chamá-lo de Pelé. Isso tudo em um semestre apenas de estudo.

A mãe o levou à psicóloga recomendada por seus patrões. A especialista recomendou que Zilda o retirasse da escola privada e lhe matriculasse em uma pública. Era o lugar dele. No segundo semestre, passou a estudar em uma escola pública do Butantã, zona oeste, perto do trabalho da mãe.

— O problema é que, quando ele chegou, na metade do ano, já sabia tudo o que a professora passava. Porque na particular o ensino é melhor. Aí me chamaram na escola e falaram: olha, o Fernando é muito inteligente. Vamos colocar ele para ajudar os demais alunos que estão com dificuldade.

Dona Zilda se encheu de orgulho. Foi passando o tempo e o repertório dele começou a aumentar, com novos ensinamentos. Os professores elogiavam sempre sua capacidade e velocidade de raciocínio lógico. Nego 2 se reaproximou da família. Voltaram a ficar juntos, mas depois de um ano, Zilda percebeu que não se encaixavam mais.

— Não fluiu. Eu não ia criar meu filho com ele perguntando: pai, quantas mulheres você tem?

Depois disso, Fernando ficou rebelde. Não entendia por que seus pais não decidiram ficar juntos. Com isso, os patrões pediram para que Zilda e Fernando ficassem fora da casa deles. Foi quando Zilda foi acolhida, novamente, pela família do ex. Desta vez, por um irmão de Nego 2. Depois, alugou uma casa na Brasilândia.

Foi quando decidiu comprar uma casinha no Munhoz Júnior, bairro de Osasco (Grande São Paulo). Custava R$ 9 mil e Zilda pegou um empréstimo com os patrões para pagar em seis anos. É a casa em que vive até hoje, com sete cachorros, que eram os xodós de Fernando. Entre 2011 e 2012, foi feito um puxadinho na casa. Um quartinho, na parte de cima, seria o local onde Fernando viveria.

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Fernando teve uma juventude tranquila. Era chamado por todo mundo de Abuse, por causa do ator negro Sebastião Fonseca, que fazia propaganda da loja C&A, com o slogan “abuse e use”. Não gostou muito no começou, mas o apelido pegou. Até uma certa idade, ele não gostava muito de sair à noite. Zilda até dava umas broncas:

— Será que você é meu filho mesmo? E filho do Nego 2? A gente sempre foi festeiro…

Depois, passou a sair às vezes com os amigos para a noitada. Mas nunca deu trabalho. Nunca se envolveu em brigas, nem em vícios, que a mãe saiba. Em casa, onde preferia estar, não havia demonstrações constantes de carinho. E, sim, de respeito entre mãe e filho. Certa vez, após uma briga boba, Fernando ameaçou sair de casa. Pegou uma ou outra muda de roupa e saiu. Ficou na casa de um vizinho, amigo dele.

— Aí, mais ou menos um mês depois, ele me liga disfarçando a voz: ‘Dona Zilda? O Abuse tá passando mal. Vem ver o que ele tem’. Voltou para casa na hora. Não aguentou. Nada como a casa da mãe.

Abuse era um cara muito reservado. Zilda soube de poucos amores. Só havia uma garota que, vira e mexe, comentavam que ele estava junto. Fernando, o próprio, não falava nada sobre o assunto. Mas teve uma vez em que ele foi pego com a boca na botija.

— Cheguei em casa mais cedo do trabalho e já viu. De cara, vi um chinelo pequeno. Pensei: ‘esquisito’… Entro no quarto e vejo ele abraçado com a menina na cama. Já gritei: “que pouca vergonha é essa?!”. Só vi o vulto da menina correndo pra fora. Não sei nem como era o rosto dela — lembra Zilda, sorrindo.

Fernando de Paula nunca teve um emprego fixo. Mas nunca ficou parado. Fazia bicos do que aparecesse. Sempre entregava currículos. Um dos últimos bicos foi de pintor. Ele ficou com problemas respiratórios e teve tuberculose. Passou um tempo se recuperando, dentro de casa, e, mesmo assim, deu aquele trato na casa em que viviam. Pintou a parede da sala, de amarelo e planejava pintar o restante.

— Nossa, Fernando, olha o que fizeram com esse policial, que covardia — apontou para a televisão, que noticiava a morte do cabo da Polícia Militar Avenílson Pereira de Oliveira, morto no dia 7 de agosto de 2015, em um posto de combustível localizado no quilômetro 18 da avenida dos Autonomistas, em Osasco.

— É verdade, mãe.

— Fernando, pelo amor de Deus, Fernando. Não fica em turminha porque polícia odeia turminha, Fernando. Toma cuidado.

Três anos antes, uma outra chacina havia ocorrido na região. Duas vítimas eram conhecidas de Abuse.

— Fernando, tenta ficar mais dentro de casa. Cumprimenta o pessoal e sai. Não dá motivo pra eles te pegarem. Essa favela tem várias entradas e eles podem chegar de surpresa.

—Tá bom, mãe.

Mesmo doente, Abuse não conseguia ficar mais trancado em casa. Certa vez, Zilda chegava do trabalho e via o filho no bar de bermuda, camiseta e chinelo de dedo tomando uma cerveja. Na mesma época, um conhecido deles havia morrido.

— Falei uma besteira para ele que me arrependo. Pensei em fazer um escândalo, porque ele estava bebendo, mas só falei para ele: se você não ficar esperto, o próximo a morrer é você! Que boca a minha. Três meses depois, ele foi morto. Mas não de tuberculose. De tiro.

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No dia 12 de agosto de 2015, o GCM (guarda civil metropolitano) Jefferson Luiz Rodrigues da Silva, de Barueri (Grande São Paulo), também foi assassinado. O suspeito do crime seria frequentador de um bar localizado próximo do ponto final de ônibus Munhoz Júnior, na avenida Diretriz. O mesmo que Abuse costumava frequentar. Era muito perto de sua casa.

No dia seguinte ao assassinato do GCM, Fernando, ainda se recuperando da tuberculose, se sentou em uma escada de cinco andares em frente ao portão de sua casa, para fumar um cigarro. A mãe o acompanhou.

— Fernando, uma vizinha pediu uma indicação. Ela quer pintar a casa. O que acha?

— Ótimo, mãe. Peça para ela vir olhar a parede que eu pintei aqui de casa, que, se ela gostar, pintarei a casa dela também.

Fernando havia terminado de pintar a sala recentemente. Naquela quinta-feira (13/8) ele escutou música antiga, em volume alto, o dia inteiro.

— Mãe, amanhã a gente termina a cozinha.Já limpei tudo.

—As coisas parecem que vão melhorar, Fernando. A filha da patroa está para voltar ao Brasil e abrir um negócio de adestramento de cachorro. Você trabalharia com ela?

— Sim, mãe. Claro.

— Você vai cortar o cabelo hoje ou vai continuar me enrolando?

— Vou.

Zilda deu o dinheiro e Fernando saiu de casa. E não voltou mais. A doméstica queria assistir à televisão, mas ela não estava funcionando. Depois de mexer nos fios por quase dez minutos, a TV pegou. Ela quase foi atrás dele para que ele pudesse ajudá-la. Quando deitou no sofá, ouviu: pá, pá, pá, pá, pá, pá. Contínuos. E um silêncio.

— Os cachorros não latiram. Eu não me liguei. Pensava que eram fogos. Depois que me liguei. E aí começou um movimento.

“O que aconteceu?”, perguntava a si mesma. Silêncio. Até que alguém disse:

—Dona Zilda, o Abuse foi baleado!

“Baleado? Ele não era de briga…”, pensou.

— Pega seu documento e vai pro PS!

“Meu filho morreu”, pensou na hora.

Foi para a rua imediatamente. Havia inúmeros carros da Polícia Militar. Quando chegou ao Pronto Socorro, Zilda viu o corpo de seu filho, com um tiro na testa.

— Esses dias, fechei meus olhos e veio na minha mente a imagem do meu filho morto.

Zilda relata que havia muitos policiais no pronto-socorro. Alguns davam risada.

— Superei fome, frio, rua, humilhações, porrada, machismo e todo tipo de violência. Mais essa eu não vou conseguir superar. O estrago que esses caras fizeram, podem passar dez, vinte ou trinta e eles nunca vão sentir esse vazio terrível que sinto. Nunca mais ouvi música, não consigo comer, dormir. Eu morri junto com o meu filho.

Além de Abuse, outras 16 pessoas foram assassinadas na mesma noite, naquela que é considerada a maior chacina da história de São Paulo. As investigações dos crimes foram feitas pela Corregedoria da PM, pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, e pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público. De acordo com o Gaeco, os autores da chacina eram membros de uma milícia que ofereciam segurança privada e irregular a comerciantes naquela região de São Paulo. Eles usam as armas das corporações e agem como organização paramilitar, dispostos a praticar crimes em nome da segurança, especialmente homicídios.

Ajude a Ponte!

As investigações apontaram para o GCM de Barueri Sérgio Manhanhã e para os então policiais militares Victor Cristilder, Fabrício Eleutério e Thiago Henklain. Eleutério e Henklain foram condenados, em 2017, a penas de mais de 200 anos. Cristilder e Manhanhã foram condenados a mais de 100 anos, mas, em 2019, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou as sentenças dos dois, alegando insuficiência de provas. Em fevereiro deste ano, um novo julgamento absolveu Cristilder e Manhanhã.

— Minha vida sempre teve mudanças. E pra pior. Meu Deus, que mão pesada é essa? Se queriam matar inocentes, por que não mataram gente da família dos caras que mataram o policial e o guarda? Ainda fizeram um churrasco para comemorar. Eu vou persistir. Não sossego enquanto não houver justiça.

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