Mães de Maio denunciam perseguição da PM de SP contra familiares de vítimas de grupo de extermínio

Maria Goreti Rodinick Marques, 60 anos, relata ter sofrido ameaça de PM que foi acusado de assassinar seu neto | Reprodução

Policial militar ameaçou prender por tráfico de drogas avó de jovem assassinado em 2010. Procurado, o Comando-Geral da PM de SP não se manifestou 

Caramante
Maria Goreti Rodinick Marques, 60 anos, relata ter sofrido ameaça de PM que foi acusado de assassinar seu neto | Reprodução

Integrante do movimento independente de direitos humanos Mães de Maio, a dona de casa Maria Goreti Rodinick Marques, 60 anos, afirma ter sido ameaçada, há dez dias, por um policial militar que prometeu “mandá-la para a cadeia por tráfico de drogas”.

O responsável pela ameaça, de acordo com dona Maria Goreti, é o cabo da Polícia Militar André Ferreira da Silva, que atua no serviço de patrulhamento na cidade de Santos, litoral de São Paulo.

Dona Maria Goreti deixava o shopping Praia Mar, em Santos, quando o policial Ferreira, fardado e em um carro oficial da Polícia Militar de SP, se aproximou e disse que ela “estava presa por ser dona de uma biqueira [ponto de venda de drogas] e mal sabia o que viria pela frente”.

Assim que deixou suas sacolas de compras no chão e perguntou ao PM o motivo da prisão, dona Maria Goreti ouviu do cabo Ferreira que ela estava sendo presa por desacato à autoridade.

Ao perceber a abordagem, o marido de dona Maria Goreti se aproximou e disse ao PM: “Você já matou meu neto e agora quer levar minha mulher presa? Por quê?”. Foi quando o cabo Ferreira liberou o casal.

De acordo com o Ministério Público Estadual e a Polícia Civil, o cabo Ferreira foi um dos quatro envolvidos no assassinato de Rafael Souza de Abreu, 16 anos, neto de dona Maria Goreti. O crime ocorreu em 26 de março de 2010, no bairro Macuco, em Santos.

A abordagem do policial militar Ferreira contra dona Maria Goreti aconteceu 19 dias após a revelação de um vídeo no qual a promotora Ana Maria Frigério Molinari, ex-integrante do Gaeco (grupo especial do Ministério Público de SP), acusou, sem apresentar provas, que algumas das mães de maio são ligadas ao crime organizado e donas de pontos de tráfico de drogas na Baixada Santista.

“Algumas dessas pessoas faleceram nos Crimes de Maio e os direitos [de gerenciar biqueiras] são transmitidos aos familiares, que por vezes gerenciam ou até mesmo arrendam os pontos de tráfico de drogas”, disse Ana Maria. Por isso, segundo a promotora, as Mães de Maio teriam adotado a prática de denunciar “policiais que efetivamente combatiam o tráfico de drogas”.

As declarações da promotora contra as mães de maio foram dadas quando ela prestava testemunho em defesa de um policial militar já investigado sob a suspeita de integrar um grupo de extermínio que age no litoral de São Paulo. Atualmente, Ana Maria trabalha no Fórum de Praia Grande. Procurada pela reportagem, ela não quis se manifestar.

Após as acusações da promotora, o movimento Mães de Maio encaminhou o vídeo com sua fala para a Anistia Internacional e Justiça Global, organizações internacionais de direitos humanos.

O caso de dona Maria Goreti também foi relatado às organizações e servirá como exemplo da tentativa de criminalização do Movimento Mães de Maio, entidade independente criada em maio de 2006, após a onda de violência que atingiu o Estado de São Paulo. Foram 493 pessoas mortas em uma semana e, em 122 casos, há suspeitas de participação de policiais militares que teriam agido em represália aos ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), que matou 43 agentes públicos.

O assassinato do neto Rafael

Em abril de 2013, o juiz Antonio Álvaro Castello, do Tribunal do Júri em Santos, arquivou o processo pela morte de Rafael ao impronunciar o cabo Ferreira e os outros três réus, Marcelo Cantoni Morais, Thiago Quaresma Mendes e Renato Francisco da Silva.

Sobre o cabo Ferreira, o magistrado Castello afirmou: “O acusado André Ferreira da Silva também negou o delito. É verdade que a testemunha XXXXX [nome omitido pela reportagem] testificou que André ingressou na casa de sua avó, junto com outros policiais, a procura de mercadoria que teriam sido furtadas da loja Surfstore de propriedade do acusado Marcelo Cantoni. Todavia, essa conduta do acusado, se verdadeira, não serve para implicá-lo no crime que ceifou a vida de Rafael, e não seria justo, como disse o promotor de Justiça levá-lo ao Tribunal do Júri”.

Pelas investigações da Polícia Civil, Rafael foi morto a tiros, quando conversa com a namorada e três amigos em uma esquina do bairro Macuco, porque os quatro acusados pelo crime suspeitavam que ele tivesse participado do furto contra uma loja de roupas de Marcelo Cantoni, um dos réus. A participação de Rafael no furto contra a loja nunca foi comprovada por nenhuma autoridade.

A Promotoria acusou o cabo Ferreira de dar cobertura ao assassinato de Rafael. No momento da execução do jovem, o militar estava em um carro oficial da PM a poucos metros do local e, ainda segundo os promotores, ele sabia que Rafael seria morto.  “Logo após o crime, ele [Ferreira] compareceu ao local [do crime] exteriorizando contentamento com a morte da vítima”, afirmaram os promotores.

Dias antes da morte de Rafael, o cabo Ferreira, juntamente com outros policiais militares, havia entrado na casa do jovem e da mãe de dona Maria Goreti para tentar localizar parte das roupas que eles acreditavam terem sido levadas da loja de Marcelo Cantoni.

História que se repete

Caramante
A cabeleireira Vera Lúcia dos Santos teve a filha, grávida de nove meses, e o genro assassinados por um grupo de extermínio e acabou presa depois de buscar punição para os culpados

A cabeleireira Vera Lúcia dos Santos sabe o que é ser vítima de criminalização por lutar por Justiça. Depois que passou a denunciar o assassinato da filha por um grupo de extermínio formado por policiais militares, ela ficou três anos presa sob a acusação de tráfico de drogas.

Em 15 de maio de 2006, a filha de Vera Lúcia, Ana Paula, então com 20 anos e grávida de nove meses, saiu de casa com o marido para tomar uma vitamina em uma padaria perto da casa do casal, também em Santos, e nunca mais voltou.

Ana Paula, o marido e até mesmo a filha que ela carregava na barriga, Bianca, foram baleadas por quatro encapuzados. Dois amigos que estavam com o casal conseguiram escapar dos tiros.

Antes de chegarem à padaria, Ana, o marido e dois amigos foram interceptados por um carro preto de onde saíram quatro homens encapuzados. “Um deles atirou na perna de meu genro e outro no braço de minha filha, que caiu no chão”, disse Vera.

Ana Paulo até conseguiu tirar o capuz de um dos atiradores e, quando seu marido apelou para ela não fosse morta por estar grávida, um dos matadores disse “estava grávida” e atirou. Na sequência, o assassino atirou na barriga de Ana Paula. O inquérito sobre a morte do casal acabou arquivado em nove meses, sem que os assassinados fossem identificados.

Outro lado

A reportagem solicitou na sexta-feira (11/12) ao comandante-geral da PM, coronel Ricardo Gambaroni, autorização para realizar entrevista com o cabo Ferreira e também esclarecimentos sobre quais medidas foram adotadas pela Corregedoria (órgão fiscalizador) da PM para saber os motivos que levaram o militar a ameaçar a integrante do movimento Mães de Maio.

Até a publicação desta reportagem, o Setor de Comunicação Social da PM e o coronel Gambaroni, que receberam novamente nesta segunda-feira (14/12) a reiteração do pedido de entrevista com o cabo Ferreira, não se manifestaram. A reportagem não conseguiu localizar o policial militar. 

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