Advogada que foi algemada durante audiência abre seu próprio escritório no RJ

‘É tudo com meu dinheiro, meu trabalho, minha cara’, afirmou Valéria Lúcia dos Santos, que denunciou violência sofrida em Duque de Caxias frente a uma juíza e dois PMs

Pouco mais de um mês após ter sido algemada e arrastada por policiais militares por ordem de uma juíza durante uma audiência, a advogada Valéria Lúcia dos Santos irá abrir seu próprio escritório. O espaço ficará em frente ao Fórum de Caxias, no Rio de Janeiro. Valéria apontou ter sido impedida de realizar seu trabalho e, após insistir com a juíza Ethel Tavares de Vasconcelos, acabou algemada por dois PMs chamados por Ethel.

Animada, ela disse em entrevista à Ponte que não recebeu ajuda de ninguém para realizar esse sonho. “Não queria parcerias. Esse é um projeto muito pessoal, muito particular. É tudo com o meu dinheiro, meu trabalho, minha cara”, afirmou. Segundo Valéria, tudo indica que o escritório esteja pronto para atendimento a partir da primeira semana de novembro. O local, alugado, está passando por reforma e, após adaptações, será aberto aos clientes. Um letreiro com seu nome, por exemplo, é um item da lista. “É um escritório simples”, disse a advogada.

Valéria defendia uma cliente em audiência no 3º Juizado Especial Cível de Duque de Caxias sobre cobranças indevidas de R$ 180 feitos pela empresa de telefonia Claro. Ao fim, a juíza Ethel não permitiu que Valéria tivesse acesso a um documento da defesa da operadora. Para ela, se saísse da sala, estaria dando razão à juíza, que chamou dois PMs para retirá-la do local. Segundo a advogada, eles deram uma rasteira e a retiraram à força, depois a algemando.

Uma investigação do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) isentou a juíza Ethel de culpa na ação, considerando que não houve “qualquer desvio funcional”. Segundo o desembargador Joaquim Domingos de Almeida Net, que assina o documento, Valéria estaria errada na situação. “Efetivamente a prova colhida deixa patenteado que a advogada Valéria estava exaltada, e as testemunhas falam que achavam que a mesma ia agredir a juíza leiga Ethel, ao ponto de esta premir o botão de pânico”, sustentou.

Após a anulação da audiência, a advogada saiu vitoriosa no processo.

Para além do racismo

Passada a violência, o foco de Valéria é no trabalho. A advogada afirma que o escritório irá atender as questões de racismo, mas também estará aberto para outras denúncias. Ela lembra que, por conta da região onde atende, os casos de racismo são mais numerosos. Além disso, também diz que existe uma identificação das pessoas por conta do caso sofreu enquanto exercia a sua profissão. “E eu também me identifico com elas”, constatou.

Segundo a advogada, já há tem casos em que defende três jovens mulheres negras atualmente. Elas, de acordo com o relato de Valéria, foram procurar emprego para serem vendedoras em uma loja. Quando chegou na segunda fase da entrevista, ouviram que não atendiam às características necessárias para o atendimento no estabelecimento.

Para Valéria, se elas fossem atendidas por uma outra especialista que não tem a empatia necessária com o assunto, as moças provavelmente seriam orientadas a alisarem seus cabelos para se adequarem a um padrão racista, mas isso não acontece com ela as defendendo. “Eu consigo me sensibilizar a causa delas. Elas não querem alisar o cabelo, não querem tirar a trança. Isso é você sentir o outro, vestir a mesma pele que o outro”, afirmou.

Depois que seu caso teve grande repercussão na mídia, Valéria conta que está sendo mais procurada por clientes que fazem questão de que ela assuma seus casos. Também está, atualmente, apoiando campanhas de colegas que estão concorrendo para a eleição da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e dando algumas palestras. “Graças a vocês [imprensa], eu consegui essa projeção, essa evidencia e as pessoas estão me procurando. É um trabalho árduo. Você tem que sentar na frente e ouvir o cliente. Mas a minha vida melhorou, tanto é que eu estou abrindo meu escritório”, disse a advogada.

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