Artigo | Antonio Carlos Malheiros e o grande livro da vida

Advogada conta o que aprendeu com o professor, palhaço e desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo que morreu em 17 de março

Antonio Carlos Malheiros |Foto: PUC-SP

Nossos grupos de mensagens, que andam tão carregados de notícias difíceis, manifestaram muita tristeza pela partida de Antonio Carlos Malheiros. Mas também estão repletos de boas lembranças que revelam respeito profundo por um homem que fez muita diferença. Testemunhamos uma onda de admiração que vem de todos os cantos.

Antonio Carlos falava da necessidade dos estudos para os operadores do direito, mas principalmente ressaltava a importância de nos dedicarmos aos aprendizados do que chamava de “grande livro da vida”. Em uma gravação de uma palestra no TEDx, ele fala lindamente sobre isso. “O livro da vida está na poeira das ruas, no chão enlameado das favelas, no pátio da Fundação Casa e nas celas do nosso fracassado sistema carcerário”.

Seu livro da vida tem capítulos muito bem escritos. De sensibilidade ímpar, ouvidos atentos, coração largo e um compromisso gigante com as causas sociais, ele se fez presente em temas espinhosos como a cracolândia e a CPI da Vala Clandestina do Cemitério de Perus. Trabalhou por 15 anos com crianças e adolescentes em situação de rua e na Fundação Casa, integrou o Conselho da Ouvidoria da Defensoria Pública, onde tive a honra de desfrutar de suas palavras certeiras. Nos últimos anos, esteve à frente da Reitoria de Cultura e Relações Comunitárias da PUC-SP, fazendo jus a sua vocação para o diálogo. Formou muita gente como professor de Direitos Humanos na mesma universidade.

Antonio Carlos tornou-se desembargador pelo quinto constitucional, pela vaga dos advogados, e foi querido por todos com quem trabalhou de perto. Sua coerência se manifestou nos inúmeros votos vencidos que marcaram a sua carreira como juiz e pelo respeito de seus colegas de Tribunal. Um homem gentil.

Antonio Carlos Malheiros tinha uma das qualidades que mais admiro: uma curiosidade pelo outro, pelo ser humano, pelas pequenas coisas, pelos afetos e encontros. Não por acaso se tornou um grande entusiasta da justiça restaurativa, cujos princípios traduzem o seu jeito de se colocar no mundo.

Com um humor afiado, Malheiros se tornou o Totó, um palhaço que contava histórias para crianças portadoras de HIV no Hospital Emílio Ribas. Um projeto que ele ajudou a criar e se chamava Associação Viva e Deixe Viver.

Para nós o que fica é a alegria de conviver com um sujeito extraordinário e que num momento tão delicado de nosso país nos deixa uma lição: não podemos desanimar. A vida exige da gente coragem. Agir com o coração. Seguiremos seus passos, Antonio Carlos Malheiros, aprendendo e caminhando no grande livro da vida.

Marina Dias é advogada e diretora-executiva do Instituto de Defesa do Direito de Defesa

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