‘Apertava a terra de tanta dor’, diz testemunha de ataque com dois mortos

06/09/19 por Arthur Stabile

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Dois homens desceram de um carro e atiraram na direção de três moradores de uma favela no Jaçanã, zona norte de SP; um sobreviveu

Vítimas estavam apoiadas em carro quando foram atingidas pelos disparos | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Uma caminhada de 20 metros separa o fim da área asfaltada da Rua Elias Pereira do chão feito com terra batida onde fica uma favela. A comunidade não tem um nome específico. Ali, na região do Jaçanã, extremo da zona norte de São Paulo, dois homens desceram de um carro na noite da última terça-feira (3/9), caminharam do asfalto para a terra e sacaram suas armas. Sem dizer uma palavra, dispararam mais de 15 vezes, segundo testemunhas. Duas pessoas morreram, outra ficou ferida.

Um disparo acertou a cabeça de Mateus Wendel Santino, 18 anos. Outros tiros atingiram André Gustavo Nunes da Silva, 17. Um resgate do Corpo de Bombeiros levou Mateus para o Hospital Geral de Guarulhos, cidade na Grande São Paulo e vizinha do bairro, segundo a Rádio BandNews. Já André contou com ajuda dos próprios moradores, que o levaram ao Hospital São Luiz Gonzaga, também no Jaçanã. Ainda assim, ambos não resistiram e morreram.

Os atiradores acertaram mais um jovem de 17 anos que estava no local, mas sobreviveu ao ataque a tiros. Ele tentou fugir quando ouviu os primeiros disparos, mas não conseguiu. Ele foi atingido por três tiros, dois deles nas costas e um no braço, segundo relato de testemunhas do ataque.

“Eu estava aqui na rua junto com os moleques, de um lado da rua e eles no outro, encostados no Corsa. Aí apareceram esses caras. Desceram do carro, andaram para cá e começaram a atirar. Estavam com mais de uma arma. Só deu tempo de correr sem olhar para trás”, relembra um homem, em relato à Ponte no início da tarde desta quinta-feira (5/9).

As marcas ainda estão no chão de terra. Há a silhueta do que era uma poça de sangue onde Mateus caiu. Um senhor que mora na comunidade detalha a cena chocante que viu ao sair de casa. “Ouvi os barulhos dos tiros, foram muitos. Saí e vi os garotos no chão, um estava agonizando. Apertava a terra de tanta dor que sentia. Ainda está lá a marca de onde ele caiu com o disparo na cabeça”, diz.

Marcas de sangue no chão ainda estão aparentes | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

O homem vive há cerca de quatro anos na pequena favela. Está ali desde quando o primeiro dos aproximadamente 40 barracos foi levantado. Ele estima que são mais ou menos 100 moradores atualmente. “Nunca tinha acontecido uma coisa dessas aqui. Foi execução, sem dúvida alguma”, continua.

Favela, que não tem nome, é feita com barracos de madeira e dois de alvenaria | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A suspeita é de que as vítimas vendiam drogas no local. Apenas um deles tem familiares que moram na comunidade, enquanto os moradores que conversaram com a Ponte com a condição de anonimato não sabem dizer a origem dos outros dois. O espaço é bastante humilde, com apenas duas casas feitas de alvenaria. Todas as outras construções são de madeira e falta saneamento básico.

“Você é dos direitos humanos? Opa, precisamos de você. Não pode ficar assim. Mataram os moleques aqui e ninguém veio fazer nada. Só a polícia, que colou no dia e só deixou as pessoas passarem depois que levaram os corpos. E demorou”, conta outro homem que vive na favela sem nome ao lado da Avenida Antonelo da Messina.

A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública), chefiada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre o ataque a tiros. A pasta explicou que “o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pelo DHPP. Diligências são realizadas em busca de imagens de câmeras de monitoramento e testemunhas que possam auxiliar na identificação dos autores”, diz. A Ponte buscou na tarde de quinta-feira (5/9) informações com os responsáveis pela investigação, mas não teve sucesso.

A reportagem questionou a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo sobre o quadro do sobrevivente, que segue internado, mas o hospital não informou a estado de saúde do adolescente.

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