Líder do PCC pensou em se matar há 5 anos, quando foi para o ‘castigo’

08/03/19 por Maria Teresa Cruz

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O Regime Disciplinar Diferenciado deixa preso completamente isolado; na avaliação psicológica, Marcola relatou marca na infância pela morte da mãe e ausência do pai, e que a saudade que sentia dos filhos o fez pensar em suicídio

Marcola pouco tempo depois de ser preso, aos 21 anos, quando ainda era conhecido como Marcão e em foto mais recente, já como integrante do PCC | Foto: reprodução

Durante a sexta e penúltima internação no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) em Presidente Bernardes, em 2014, o preso Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, pensou em cometer suicídio. O presidiário, apontado pelo MP (Ministério Público) como líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital), foi avaliado por uma psicóloga e apresentava quadro de “taquicardia, ansiedade, instabilidade, emotividade, estresse situacional e suposta ideação suicida”.

A avaliação ocorreu em 14 de março de 2014, no CRP (Centro de Readaptação Penitenciária) de Presidente Bernardes e durou uma hora e 30 minutos. No CRP, o preso fica em cela isolada 22 horas por até um ano. O banho de sol é de duas horas. É proibido o acesso a rádio, jornais, revistas e TV. A visita é realizada uma vez por semana e no parlatório, sem contato físico. O RDD é um sistema de castigo e isolamento. Alguns juristas o consideram cruel e inconstitucional e outros acham necessário.

Marcola contou à psicóloga que não sabe se conseguirá ficar longe dos filhos e que por esse motivo pensa até em dar um fim na própria vida. Ele tem quatro filhos, sendo três com a atual mulher e uma garota fruto de um relacionamento anterior. Marcola disse na avaliação psicológica que mal consegue ver as fotos dos filhos e quando isso acontece, ele cai no choro. Ressaltou que depois do nascimento dos filhos passou a ser outro homem, mais emotivo, mais sentimental e que quer ficar longe do crime.

“O sentenciado é casado há cerca de 8 anos e considera seu relacionamento com a esposa muito bom. Refere-se aos filhos, principalmente do atual casamento com muita emoção e aflige-se pelo fato de não poder mais ter contato físico com os mesmos no atual Regime Disciplinar Diferenciado que se encontra. Demonstra grande preocupação com os filhos e com a imagem de pai que os filhos terão dele”, diz trecho da avaliação obtida com exclusividade pela Ponte.

O preso contou ainda que teve uma infância infeliz, a partir dos nove anos, com a morte de sua mãe e a ausência o pai. Acrescentou que foi criado por uma tia materna até os 12 anos e depois saiu de casa. Nas ruas passou a usar drogas, cometer delitos e também abandonou os estudos. Não terminou a 7ª série do ensino fundamental.

Afirmou que não fez nenhum curso profissionalizante e que concluiu o ensino médio no sistema prisional. Ressaltou, porém, que gosta de estudar e de ajudar a alfabetizar os presos e se considera um autodidata. Garantiu também que há 20 anos não faz uso de cocaína e maconha – que eram as drogas que no passado ele assumiu usar, de acordo com prontuários anteriores – e que conseguiu deixar o vício do cigarro.

A psicóloga concluiu que Marcola tem discurso coerente com indícios de nível intelectual e cultural acima da média, capacidade de crítica adequada e vocabulário mais elaborado. “Não utiliza gírias, é um indivíduo com características de impetuosidade, obstinação para o concreto, articulado, eloquente, crítico e pragmático”, diz o trecho em que a psicóloga define traços da personalidade. Marcola não manifesta arrependimento algum pelas suas escolhas e pela vida no crime. “Não verbaliza sentimentos de arrependimento e de irreprobabilidade para com as operacionalizações criminosas, fugas e rebeliões”, escreve a psicóloga.

Ela recomendou avaliação e acompanhamento médico na especialidade psiquiátrica para diagnóstico e se necessário tratamento medicamentoso para o preso. Os prontuários e receituários médicos de Marcola foram enviados ao Centro de Reintegração e Atendimento à Saúde da Penitenciária Federal de Porto Velho, para onde o preso foi transferido no último dia 12.

A vida de Marcola não será nada fácil na prisão federal. Ele deverá ficar 60 dias no RDD, sem sair para o banho de sol, já que na própria cela existe um solário. Essa é oitava internação de Marcola no RDD e a primeira em uma penitenciária federal. O último castigo dele no CRP de Bernardes aconteceu entre 14 de dezembro de 2016 a 11 de dezembro de 2017. O preso, que em 2014 pensou em se matar porque estava isolado e sem ver os filhos, agora está bem mais longe da família. Porto Velho fica distante 2.987 km da capital paulista.

Ele poderá receber visitas semanais, de duas pessoas, com exceção de crianças, com duração de duas horas. Assim como acontece no CRP de Presidente Bernardes, as visitas no Presídio Federal de Porto Velho ocorrem no Parlatório da unidade e sem contato físico.

Em 1989, quando Marco Willians Herbas Camacho tinha 21 anos e estava preso há três anos na Penitenciária de Araraquara, o PCC não existia e também não havia RDD. Ele havia antes passado pelo Presídio de Itirapina. O preso também não era conhecido como Marcola. No prontuário de saúde dele, obtido com exclusividade pela Ponte, consta que seu apelido era Marcão.


Na foto, sua aparência é de um jovem no final da adolescência. No prontuário médico não havia nenhuma indicação de doença ou observação sobre quadro de ansiedade e depressão. Nos documentos obtidos pela Ponte, há vários registros de atendimentos médicos preventivos pelos quais Marcola passou ao longo da vida, de prisão em prisão e algumas curiosidades: sua predileção pelo creme dental Sensodyne, receitado pelo dentista para evitar quadros de gengivite, por exemplo, e em 2006, quando autorizou a retirada de pastilhas para estômago, que estavam sobrando de seus medicamentos, para serem doadas para 4 presos.

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