Artigo | Black is King: o protagonismo é nosso e a branquitude tem que entender isso

    Beyoncé contraria narrativa que nos coloca em lugares de miséria e escravidão, e devolve a riqueza e realeza que sempre foram parte da história da população negra

    Cena de “Black is King”: “nosso lugar é o de realeza” | Foto: reprodução

    Como sempre, Beyoncé trouxe mais um lançamento de sua carreira, que fez o mundo e a internet parar com a magnitude de seu trabalho. Desta vez, com o álbum visual “Black Is King”, lançado na última sexta-feira, 31. A obra é um complemento visual ao álbum “The Gift”, lançado para o remake do filme “O Rei Leão”, em 2019.

    A reação de mulheres e homens negros ao assistir o filme evidencia a importância de termos histórias que entreguem narrativas de vitória e enaltecimento à cultura preta. Já fomos obrigados a crescer e conviver com referências brancas sendo entregues a nós em todos os espaços midiáticos, principalmente em produtos do cinema, da televisão e da moda. As referências são sempre rostos que não são os nossos.

    Assim, “Black Is King” chega contrariando a narrativa que sempre foi deixada para nós e que já estamos cansados de ver: pessoas negras em lugares de empobrecimento, miséria e escravidão. Muito pelo contrário, Beyoncé devolve a riqueza e realeza que sempre foram parte das nossas histórias, entregando um filme que fala sobre pretos com dignidade, beleza e riqueza.

    Além disso, a ideia de que a África seria uma unidade e de realidade miserável também é deixada de lado. Repetindo: já estamos cansados dessas narrativas. Em “Black Is King”, a artista mostra uma África multicultural, plural e futurista. Os elementos visuais presentes nas imagens, nos sons, nas danças e na participação de cada artista trazem tantas referências que poderíamos passar dias pesquisando.

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    De fato, Beyoncé está presente na indústria como um amplificador de potência máxima para diversas pautas que estamos tentando levantar. Obviamente, a forma como ela evidencia isso é artística e, em muitos momentos, lúdica. Independentemente do formato que se passe, nós entendemos a mensagem: nosso lugar é o de realeza. É por isso que “Black Is King” nos representa.

    Mas, como sempre, quando uma pessoa preta ascende, as críticas e cobranças sempre recaem sobre elas, pois, de tão acostumada com a população negra em posições subalternas, a branquitude não consegue consumir obras que não lhes dê protagonismo.

    Logo após o lançamento do filme, diversos comentários negativos foram expostos sobre Beyoncé. Um deles, que acabou se sobressaindo por tamanha ousadia, é o de uma mulher branca afirmando que Beyoncé não representava mulheres negras. Além disso, ela vai mais longe ao dizer que acreditar que Beyoncé nos representa significa reproduzir um discurso liberal, já que o lugar de mulheres negras seria o da pobreza e o de realizar jornadas triplas de trabalho.

    Bom, nós sabemos em qual lugar a sociedade nos coloca hoje em dia, entretanto, não precisamos ser expostos apenas a representações negativas sobre os nossos corpos. A representatividade positiva é importante e urgente justamente para mostrar às mulheres negras que o nosso lugar não é o de subalternidade e, sim, o de potência. Beyoncé produziu um filme que nos coloca exatamente no lugar que nunca deveríamos ter saído e é muito importante que crianças, jovens e adultos negros tenham contato com essas narrativas, pois elas nunca chegaram para nós.

    Ver comentários negativos de pessoas brancas sobre a produção me parece mais um reforço ao fetiche da branquitude em ver negros sendo retratados apenas em imagens de escravidão. Já está mais do que na hora de rejeitar essas narrativas, pois agora nós produzimos as nossas. E nas nossas histórias nós somos reis e rainhas.

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    Essas críticas só reforçam a importância de uma obra como essa. Nós precisamos de mais. E a branquitude precisará se acostumar com mulheres negras produzindo arte, história e intelectualidade. É urgente a necessidade de a branquitude se pensar e entender que aqui o protagonismo é nosso. É preciso usar seus privilégios para se manterem calados no momento que suas vozes não são necessárias.

    Nós, mulheres negras, temos capacidade e autonomia suficientes para escolher o que vai ou não nos representar. Já chega de falarem por nós. Desta vez, o protagonismo é nosso, a voz é nossa, assim como o momento. Beyoncé falou sobre nós e para nós.

    Branquitude, nem sempre tudo é sobre vocês.

    Ashley Malia é jornalista e criadora de conteúdo. Repórter e colunista do Grupo A TARDE, na Bahia, colaboradora da Pretitudes e embaixadora da Batekoo. Escreve sobre questões raciais, vivências de mulher negra e autocuidado.

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