Sem lama é o caos: escassez do barro ameaça futuro dos artesãos em Caruaru (PE)

A matéria-prima usada por Mestre Vitalino e seus seguidores, que colocaram o bairro do Alto do Moura no mapa da arte mundial, ameaça chegar ao fim

Artesão do Alto do Moura: barro como arte e sustento | Foto: João Gabriel Lourenço/Ponte Jornalismo

Barro. Para alguns, não passa de sujeira, algo que fica abaixo de nossos pés. Para 700 pessoas do Alto do Moura, bairro da cidade de Caruaru, interior de Pernambuco, o barro é fonte de sobrevivência e sustento, tão valioso quanto ouro. É a matéria-prima de peças de artesanato que fizeram do Alto do Moura um centro de arte figurativa reconhecido em todo o mundo. Hoje, esse legado está ameaçado. O barro sobre o qual o bairro construiu seu modo de vida está chegando ao fim.

Surgida em 1781, em torno de uma tímida capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, Caruaru constituiu-se como centro comercial, uma potente força feirante no meio do agreste pernambucano. A feira de Caruaru ganhou música na voz do Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que cantava alegremente que “de tudo que há no mundo, nela tem pra vender”, e serviu de cenário para a história de Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963), que pela primeira vez transformou em ouro o barro do leito do Rio Ipojuca.

Imagem sem data da Feira de Caruaru | Foto: Prefeitura de Caruaru

Desde criança, Vitalino ajudava sua família a produzir panelas de barro para vender na feira da cidade. Aos 6 anos, vendeu sua primeira peça: um caçador com dois cães atrás de um gato. Aos 22, casou-se com Joana e teve 16 filhos, dos quais apenas 6 vingaram. Mudou-se do Sítio Campos, onde havia nascido, para o Alto do Moura. Ali, deixou de produzir as características panelas de barro, que aprendera com sua mãe, e passou a moldar nas peças a sua visão e o seu cotidiano, reproduzindo retirantes, trabalhadores, pais e mães do Nordeste. Vitalino retratava no barro um jantar em família, um homem doente visitando um médico, uma família fugindo da seca em busca de oportunidades melhores. Cada peça vendida vinha acompanhada de uma história, que ele contava aos clientes, cada vez mais numerosos.

O sucesso foi muito além da feira de Caruaru. Suas peças foram exibidas em São Paulo, Rio de Janeiro, Suíça. Mestre Vitalino foi alçado ao patamar de um dos maiores artesãos brasileiros de todos os tempos e teve um acervo permanente adquirido pelo Museu do Louvre, em Paris. Ganhou o título de Mestre do Barro, o primeiro de vários outros mestres e mestras que surgiram no Alto do Moura após o seu estrondoso sucesso. Além de Vitalino, despontaram nomes como Mestre Galdino, autor de peças lúdicas e fantasiosas, para as quais criava poemas, Mestre José Caboclo e sua filha Marliete, conhecida pelas miniaturas de barro, Manoel Eudócio, um dos melhores amigos de Vitalino, e tantos outros.

A produção da cerâmica garante o sustento, hoje, de 700 pessoas, sejam artesãs, pintoras das peças ou as que retiram o barro manualmente do terreno, segundo a Associação de Moradores e Artesãos do Alto do Moura (Abmam). Mais do que um sustento, é um costume, uma tradição. A arte é o próprio Alto do Moura.

Pioneiro da produção artística com o barro de Caruaru, Mestre Vitalino já havia alertado sobre o seu possível fim. Pouco antes de morrer, vítima de varíola, aos 53 anos, Vitalino já havia manifestado preocupação com a possível extinção da matéria-prima do seu ofício, como conta o pesquisador Laudenor Pereira, em sua dissertação de mestrado em geografia para a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), de 2007.

“Noivado a cavalo”, de Mestre Vitalino | Foto Museu Nacional de Belas Artes

O barro no Alto do Moura, retirado das margens do Rio Ipojuca, um dos mais poluídos do país, já não tem mais a mesma qualidade dos tempos do Mestre. Não são apenas os artesãos que fazem uso dele. As cerâmicas e olarias, empresas que fabricam tijolos e telhas, também fazem extração das jazidas locais para a produção civil, deixando crateras nas proximidades do rio. O barro que sobra, contam os artesãos, contém mais impurezas, o que torna as suas criações mais quebradiças e frágeis, prejudicando o trabalho e, principalmente, as vendas.

Para tentar enfrentar a concorrência dos fabricantes de telha pelo barro do Ipojuca, os artesãos contam com a Abmam, único movimento coletivo do bairro. A Abmam é um marco histórico dentro da localidade, que conseguiu inúmeros benefícios e direitos para seus associados e par ao bairro. Atualmente, a associação mantém um terreno regulamentado com barro destinado aos artesãos, mas estima que a jazida deve durar no máximo mais cinco anos.

“A formação da argila é gerada desde que o mundo foi criado, existe um grande processo geológico, durante séculos. Esse material foi gerado e não é renovável. É igual ouro, se acabar não tem mais”, afirma o engenheiro Ricardo Henrique de Lira, professor do Instituto Federal de Pernambuco em Caruaru e autor de uma tese de doutorado sobre argila.

‘O barro não é para sempre’

Trazido por um rio e produzido no ritmo das águas, o barro traça um caminhar específico, seja na mente dos artesãos que o usam, seja nas jazidas físicas de barro. A água se torna um dos principais materiais de trabalho com o barro. É molhando a matéria-prima que se consegue modelar e transformar a terra. E é com o fogo que se consegue solidificar.

“O barro uma história ele tem e o barro não é pra sempre. Ele está aí há quase um século, mas o barro não é algo que… está se multiplicando, ele está acabando. E o que se vai fazer quando esse barro acabar é o que preocupa”, relata Iris Marcolino, 31 anos, artista residente no Alto do Moura e doutoranda em Filosofia pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Iris Marcolino e seu mestre, Zezinho Muriçoca | Foto: Acervo pessoal

Aprendiz de Zezinho Muriçoca, um dos mais estimados artistas do bairro, Iris encontrou no barro um suporte muito diferente das obras em tela que estava acostumada a pintar. É algo que você toca, cheira, mexe, reforma, puxa e repuxa. A criação se torna algo mais íntimo, mais seu. É por isso que ela conta que, em seu processo artístico, muitos artesãos, e ela própria, por vezes tratam o trabalho como algo ritualístico. Quase como um dom que guiasse suas mãos para a criação sólida das imagens em sua mente. No final, há o processo de queima. É quando o artesão coloca sua criação em um forno e espera o fogo cauterizar o material, até transformá-lo por completo. É como a espera por um filho, prestes a chegar ao mundo através de seu suor, força e sensibilidade. Quem modela o barro cria uma vida, ainda que inanimada.

Hoje com 64 anos, Cleonice Otília, conhecida como Nicinha, começou a mexer com o barro das margens do Ipojuca aos 7, fazendo bonecas para brincar, já que seu pai não tinha condições de lhe comprar brinquedos. “Vem dos ancestrais”, conta com um sorriso em seu rosto. Adulta, inspirou-se em Mestre Galdino, que era amigo íntimo de seu pai, para criar peças lúdicas e compor poemas para cada uma delas. Mestre Galdino se tornou outra referência dentro do Alto do Moura, por iniciar a produção de peças lúdicas, mais imaginativas e sonhadoras.

Ateliê de Cleonice Otília, a Nicinha, em seu ateliê | Crédito: João Gabriel Lourenço/Ponte Jornalismo

“Aprendi a fazer o barro e trabalho por amor à arte e pelo retorno financeiro”, conta Nicinha. “É do barro que tiro meu sustento e criei meus filhos.” Ela possui seu próprio ateliê na principal avenida do bairro. Trabalha com um sobrinho e também participa de um grupo chamado Flor do Barro, composto apenas por mulheres artesãs. Junto com o grupo, faz oficinas para crianças e tenta repassar a arte do barro para os mais jovens.

Segundo Nicinha e outros artesãos, não há interesse dos mais jovens em trabalhar com o barro. Muito poucos se mostram dispostos a continuar na profissão, devido a dificuldades. Essa situação se agravou durante a pandemia de Covid-19, que afetou o movimento na feira mais famosa de Pernambuco, o resultado foram pequenos ateliês familiares sendo fechados e artesãos abandonando sua carreira artística. Essa nova realidade tornou o ofício menos atraente para os jovens. Poucos se mostram dispostos a continuar na profissão, segundo os artesãos.

“Geracionalmente, a gente [a produção artística do Alto do Moura] pode se tornar um livro ou uma fotografia de história, daqui a dez anos”, lamenta o artesão cearense Humberto Botão, 42 anos, que reside há quase uma década no bairro. Seu ateliê e casa ficam um pouco afastados da avenida principal do Alto do Moura. Diferente da avenida que é cheia de lojas e ateliês, a residência de Humberto é cercada por casas coloridas com a tinta descascando. A rua de terra é cheia delas. Humberto é pai de um garoto de 4 anos e teme que, se um dia o seu filho quiser seguir seus passos para se tornar artesão, não encontre mais a matéria-prima do Alto do Moura como suporte.

Ateliê de Cleonice Otília, a Nicinha | Foto: João Gabriel Lourenço/Ponte Jornalismo

Vizinho de Botão, o artesão e documentarista caruaruense Shivo Araújo, 42 anos, conta que a grande maioria das pessoas que moram ao seu lado trabalhavam com barro. Com a pandemia, muitos resolveram trabalhar no comércio ou na indústria, já que o Alto do Moura é vizinho ao bairro industrial da cidade. Sobreviver apenas da arte se mostra pouco atrativo para a nova geração, especialmente num momento de baixa do turismo e em um contexto de ataques contra os artistas, liderados pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (PL). “Quando você coloca alguém no governo que não tenha essa visão de valorização da cultura local e o investimento de políticas públicas para a cultura local, o local vai se acabando”, afirma Shivo. “Do começo do ano pra cá, eu vendi apenas duas obras”, contou, em fevereiro e maio. É como um efeito dominó desastroso. Uma peça cai lá em cima e afeta todos consecutivamente. Quem paga o maior preço, claro, são os artistas.

Futuro em aberto

As jazidas de barro ao longo do Rio Ipojuca não são originárias do local, mas foram levadas até ali como resultados de processos geológicos milenares. É o que explica a professora Maria do Carmo da Silveira Xavier, 70 anos, pesquisadora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e ceramista, que desde 2010 desenvolve um projeto de pesquisa sobre “as argilas de alta plasticidade para a sustentabilidade do artesanato do Alto do Moura”.

Maria do Carmo da Silveira Xavier alerta para o fim do barro do Alto do Moura | Foto: Arquivo pessoal

Embora caruaruense e professora de artes, Maria trilhou um longo caminho até se interessar pelo barro, primeiro se especializando em ensino transdisciplinar sobre ciência, matemática e arte. Ela resolveu voltar o seu olhar para o Alto do Moura ao saber, através do seu filho, o artista plástico e químico formado Leopoldo Nóbrega, 44 anos, sobre o risco do fim do barro.

Em seu estudo, Maria do Carmo aponta que a natureza geológica de Caruaru é mais de pedra do que lama, já que pela cidade passa uma fenda que “possui mais material rochoso do que argila”. Para ocorrer a formação dos depósitos de argila que alimentam o modo de vida do Alto do Moura, foi preciso que o material fosse carreado até o local pelo Rio Ipojuca, numa feitura de milhares de anos, que não pode ser facilmente renovado. É como se o próprio barro que os artesãos moldam e queimam tivesse sido criado pela natureza num paciente processo de artesanato, que hoje se choca com o ritmo acelerado das pessoas que o exploram.

A pesquisa da professora, realizada em 2010, realizou análises de laboratório comparando o barro coletado atualmente na jazida utilizada em Alto do Moura com aquele usado por Mestre Vitalino e concluiu que a plasticidade do barro diminuído, o que tornava as peças mais quebradiças. Os artesãos tentam diminuir as falhas manualmente, misturando o barro “forte” com o barro “fraco”, que seriam barros com diferenças extremas de plasticidade e qualidade. Na época, a pesquisa estimou que a jazida não duraria mais de uma década. “A região não possui intensidade de lavras de argila, esse material é trazido pelo Rio Ipojuca. A área de Caruaru é mais rochosa, ela possui depósito de argilas, não lavras”, diz.

Maria do Carmo ainda tentou avisar a comunidade de artesãos do Alto do Moura, mas relata que encontrou pouco interesse por parte da direção da Abmam na época: “Não senti uma unidade de pensamento em quem estava comandando a associação e os artesãos que utilizavam a argila”.

A partir da pesquisa de Maria do Carmo, seu filho, o artista plástico, designer e químico Leopoldo Nóbrega desenvolveu uma técnica que, segundo ele, permite refazer a qualidade da época de Mestre Vitalino, com a adição de produtos como feldspato e quartzo, para aumentar a liga e aprimorar a elasticidade do barro. Ele também defende a adoção de práticas mais ambientalmente sustentáveis na produção das peças de cerâmica, como a troca dos fornos de lenha pelos de gás e a reutilização dos “restos” do barro, como peças defeituosas, para produzir outras.

Leopoldo Nóbrega pesquisa técnicas para aprimorar a qualidade do barro | Foto: Arquivo pessoal

Por iniciativa própria, Leopoldo começou a construção de um ateliê-escola dentro do bairro artesão e planeja lançar um livro sobre a história do Alto do Moura. Para ele, a educação é uma forma de transmitir às novas gerações a importância do legado de Vitalino e seus companheiros e, junto com a adoção de práticas menos prejudiciais ao meio ambiente, garantir a continuidade artística do bairro. O futuro está em aberto. “Daqui a um tempo, qual será a realidade do Alto do Moura? Será um polo [artístico] ou um museu?”, pergunta.

O que dizem os governos

Foi justamente para lidar com a questão da escassez do barro que os trabalhadores do bairro criaram a Associação de Moradores e Artesãos do Alto do Moura, em 1984. O primeiro presidente, Manoel Antônio, hoje com 89 anos, conta que trabalhou para conquistar a primeira jazida, em Barra de Taquara, para a utilização do barro pelos artesãos. Segundo ele, esse primeiro terreno durou entre oito e dez anos, acabando rapidamente. Logo em seguida, a associação conseguiu outro. Também artesão, Manoel construiu sua casa e a de seus filhos com o dinheiro da venda de suas peças. Hoje, parte de sua família trabalha com o barro, tirando seu sustento dali.

A Abmam afirma ter encontrado um terreno com uma jazida que poderia manter as atividades do bairro funcionando, localizado a cerca de dois quilômetros do centro da comunidade, na zona rural. A Associação tem participado de conversas com a Prefeitura de Caruaru e o Governo de Pernambuco sobre a aquisição do terreno para a comunidade. Em março de 2021, o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, José Bertotti, e a deputada estadual Laura Gomes (PSB), visitaram Alto do Moura para falar sobre a escassez do barro. Até agora, porém, nada disso resultou em anúncios concretos.

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade e a Secretaria de Cultura afirmaram à Ponte que criaram um grupo de trabalho em conjunto para “para analisar a possibilidade de aquisição de um novo terreno pelo governo do Estado para ceder à Associação do Auto do Moura”. Atualmente, segundo as secretarias, o grupo de trabalho aguarda o relatório de um estudo geológico feito pela CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), que em setembro fez uma visita técnica à área indicada pela Associação. Em nota, a Secretaria de Cultura afirma que “está empenhada e atenta às demandas do Alto do Moura”.

Já a Prefeitura de Caruaru, através de sua Fundação de Cultura, informou que “o Município está ciente da situação, inclusive, representantes da Prefeitura de Caruaru já se reuniram algumas vezes com artesãos do Alto do Moura, tendo como pauta o problema apontado”. A Fundação também afirmou que está analisando o material colhido, a qualidade do barro e a capacidade de extração da matéria-prima antes de iniciar as tratativas para desapropriação do terreno.

Sem uma solução à vista, o Maior Centro de Artes Figurativas das Américas aguarda, temendo o fim do barro que Mestre Vitalino já havia aventado. “Se a gente ficar sem o nosso barro, a gente para de trabalhar”, explica a veterana artesã Nicinha. Sem o barro, não há artesãos, não há Alto do Moura: “Tudo depende do barro. É a nossa matéria-prima”.

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