Como Heliópolis, maior favela de SP, luta contra o coronavírus e a perda de renda

    Moradores mostram os cuidados possíveis dentro da comunidade, onde 70% das famílias viram a renda diminuir no último mês

    Jocimar da Costa, 40 anos, perdeu seu emprego no último mês. Ele trabalhava como segurança em uma empresa. Com o rápido alastrar da pandemia de coronavírus, viu a fonte de renda secar. Vive junto da mãe, dois irmãos, filho, sobrinho… São sete ao todo em sua casa em Heliópolis, maior favela da cidade de São Paulo, localizada na zona sul da capital paulista. São cerca de 200 mil habitantes na área segundo a Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região).

    Alzirene Monteiro, 40 anos, cuida de seus dois netos em Heliópolis | Foto: Caio Castor/Ponte

    “Tem muita gente abusando. Você vai no mercado, o preço era uma coisa e está outra”, lamenta, falando sobre o aumento de preço que viu desde o começo os reflexos da doença, como fechamento do comércio. Sua sorte, conta, é que antes de ficar desempregado comprou carnes e estocou na geladeira. Sem saber como será o futuro sem emprego, ele se mostra otimista. “Temos que ter em mente é fé em Deus, que vamos vencer a pandemia. Sei que está abalando o mundo todo. Não vamos nos entregar”, afirma.

    União dos Moradores distribuiu cartazes e faixas pela favela | Foto: Caio Castor/Ponte

    Há muitas pessoas como Jocimar em Heliópolis e região. Uma pesquisa feita pela Unas com 653 moradores, no final de março, apontou que, de cada dez famílias que vivem em Heliópolis e região, sete delas já sentem no bolso os reflexos do coronavírus, tendo algum tipo de perda na renda por causa das medidas de isolamento social. No bairro, 63% das famílias vive com até dois salários mínimos por mês e 20% delas afirma não ter, hoje, qualquer fonte de renda.

    Uma das proteções usadas são as máscaras, vistas aos montes por quem anda na comunidade | Foto: Caio Castor/Ponte

    Mais da metade das casas têm quatro ou mais pessoas, o que demonstra a dificuldade da quebrada seguir a recomendação de isolamento social da OMS (Organização Mundial da Saúde).

    Aos montes também são os comércios fechados pelos riscos da pandemia | Foto: Caio Castor/Ponte

    São domésticas, comerciantes, desempregados e autônomos que sofrem os maiores impactos da Covid-19 em suas vidas. Quem pode mescla o uso de álcool em gel com a limpeza da casa, como conta a jornalista Lia Santos, 50. Quem não tem os itens usa água para limpar frutas das crianças, exemplo dado pela doméstica Alzinere Monteiro, 40, enquanto segura um dos dois netos no colo. “Procuramos manter tudo em ordem. Procuramos tudo organizado e limpo. Ninguém está livre de ser contaminado, pelo menos vamos prevenir”, comenta Lia.

    Famílias inteiras, como a de Jocimar, sentem no bolso os impactos do coronavírus | Foto: Caio Castor/Ponte

    A Unas puxou campanha para arrecadar doações, como comida e itens de higiene, para distribuir às famílias mais afetadas pelo coronavírus. São ao menos 2,5 mil, como conta Douglas Cavalcante, 27, comunicador da organização. “Agora vamos fazer o processo de separar e distribuir”, conta. A previsão é levar às famílias nesta primeira semana de abril. Além disso, distribuíram cartazes e faixas para alertar dos riscos da doença e explicar as formas para os moradores se prevenirem.

    Seu Antônio, 71 anos, faz parte do grupo de risco e prefere se isolar em casa | Foto: Caio Castor/Ponte

    A visão dos moradores é de que as ações da Unas são maiores do que as dos governos. “É uma palhaçada, como se você tivesse em um circo e ouvisse palhaço falar piadinhas. É bem complicado vermos um governante, que lutaram tanto para colocar no poder, desfazer de uma coisa tão séria”, disse Alzinere, comentando as declarações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como a de chamar o Covid-19 de “gripezinha”. Das necessidades locais, a pesquisa destaca dinheiro e trabalho (19%), alimentos (15%) e insumos de higiene (11%).

    Há quem se arrisque a trabalhar, mas tentando diminuir a chance de contágio | Foto: Caio Castor/Ponte

    Como ajudar

    Doações de cestas básicas, álcool em gel e sabonetes
    Unas – União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região
    Endereço: Rua da Mina, 38 – Heliópolis
    Fone: (11) 2272-0140

    Doações em dinheiro
    Banco: Caixa Econômica Federal (104)
    Agência: 3124
    Conta: 376-7
    CNPJ: 38.883.732/000.1-40
    Unas – União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região

    Já que Tamo junto até aqui…

    Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

    Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

    Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

    Ajude

    mais lidas