Depois de perder família, jovem da periferia vira professora universitária

Francilene Gomes Fernandes, 34 anos, teve dois irmãos vitimados em Itaquera, zona leste de São Paulo, e resolveu usar as perdas como base para estudar a violência e virar professora de 130 alunos em universidade
A professora universitária Francilene Gomes Fernandes, 34 anos, e seu irmão, Paulo, 23. Ele desapareceu em maio de 2006, em Itaquera (zona leste de São Paulo), durante onda violência no Estado de SP | Arquivo Pessoal
A professora universitária Francilene Gomes Fernandes, 34 anos, e seu irmão, Paulo, 23. Ele desapareceu em maio de 2006, em Itaquera (zona leste de São Paulo), durante onda violência no Estado de SP. Testemunhas disseram que ele foi levado por PMs da Rota | Arquivo Pessoal

O sofrimento da família de Francilene Gomes Fernandes, 34 anos, foi o que a moveu. Dois irmãos de Fran, como os amigos a chamam, foram vítimas da violência na periferia da zona leste de São Paulo, onde eles nasceram e viveram.

Sobrou apenas Fran. Mas ela foi à luta e, a partir dessa triste história familiar, conseguiu fazer mestrado em Serviço Social na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica).

“Barbárie e Direitos Humanos: As Execuções Sumárias e Desaparecimentos Forçados em Maio (2006) em São Paulo” foi uma espécie de renascimento e vingança que Fran quis dar para a sua família. A dor virou conhecimento. Aprovado com nota dez pela banca examinadora, o mestrado é uma análise sobre a violência em São Paulo.

No início, existiu um dilema ética em abordar um tema tão forte e delicado como parte da história, mas Fran procurou demonstrar aos seus orientadores que, acima de tudo, buscava conhecimento que, mais tarde, viria a ser retransmitido para seus alunos.

Hoje, Fran volta todos os dias para a casa e gosta do orgulho que seus pais, filhas (Júlia, 12 anos, e Sophia, dois anos) e o marido têm dela: fez o mestrado e, no início de 2012, ela se tornou professora universitária. Dá aulas para 130 alunos no curso de Serviço Social, da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas).

“Será que alguém que lê a minha história de vida agora tem ideia de como é importante para alguém da periferia como eu fazer mestrado e poder passar a transmitir conhecimento para outras as pessoas?”, questiona Fran. “Isso vale uma vida, ou melhor, vale duas vidas, é a minha reação para o fim trágico dos meus dois irmãos”.

CRIMES DE MAIO DE 2006

Juliana, a irmã de Fran que tinha 17 anos, foi assassinada no fim da década de 1990.

Paulo, o irmão de 23 anos, foi vítima de um desaparecimento forçado, que é como Fran chama o que aconteceu com ele na noite de 16 de maio de 2006, quando o grupo criminoso PCC [Primeiro Comando da Capital] atacava as forças de segurança do Estado de São Paulo.

Segundo vários moradores de Itaquera, na zona leste de São Paulo e onde Fran vive, Paulinho foi levado com vida por policiais da Rota, uma espécie de tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, na noite de 16 de maio de 2006. Até hoje, a família não sabe o que aconteceu depois daquela abordagem policial.

Assim como Paulinho, outros três jovens da periferia de São Paulo também foram vistos ao ser levados vivos por policiais militares naquela semana entre 12 e maio de maio de 2006, período da pior crise na segurança pública de São Paulo, e nunca mais retornaram para suas famílias e seus corpos nunca foram encontrados.

Naquele período de 2006, 493 pessoas foram mortas no Estado de São Paulo. Dessas, segundo as polícias e Promotoria, 261 tiveram relação com os chamados “crimes de maio”; as outras, não.

“Os quatro desaparecimentos, inclusive o do meu irmão Paulo, não estão em nenhuma estatística, apenas na dos meus pais, na minha tese de mestrado e em nossos peitos”, diz Fran.

“Infelizmente, vivemos em uma sociedade que tende a tolerar certos crimes cometidos pelo braço forte do Estado, a polícia. Muitas pessoas só passam a prestar a atenção na violência policial quando ela atinge alguém próximo e querido”, continua a professora universitária.

Quase nove anos depois do desaparecimento forçado do Paulo, Fran ainda tenta lidar com a dor, que diz ser eterna.

“Mas sei que o Paulinho sente orgulho pela mana dele andar por aí com sua tese de mestrado como se fosse um escudo para a batalha da vida”, ela sempre repete.

DESAPARECIDOS DA DEMOCRACIA

Quatro jovens, dois deles moradores da periferia de São Paulo e dois da de Guarulhos (Grande São Paulo), desapareceram durante o período entre 13 e 16 de maio de 2006, dias mais tensos dos ataques do grupo criminoso PCC contra as forças de segurança do Estado.

Paulo Alexandre Gomes, irmão da hoje professora universitária Francilene Gomes, tinha 23 anos quando foi visto com vida sendo colocado em um carro da Rota.

Para sua irmã, Paulo foi levado pelos PMs da Rota por ser negro e ter tatuagem.

Dois dias antes do sumiço de Gomes, no domingo (14), Dia das Mães, dois guardadores de carro -Diego Augusto Sant’Anna, 15, e Everton dos Santos Pereira, 24- foram abordados por PMs em uma Blazer, na avenida Paulo Faccini, região central de Guarulhos, e até hoje não foram encontrados por suas famílias.

Segundo três testemunhas, os guardadores de carro foram abordados por PMs.

O quarto caso de desaparecimento em maio de 2006 ocorreu no sábado (13) no extremo sul da capital paulista, em Parelheiros. Lá, Ronaldo Procópio Alves, 30, também foi visto ao ser levado vivo por policiais militares.

Até hoje, nenhum dos corpos foi localizado pela polícia e, por isso, para a professora Fran, é necessário que a Polícia Federal seja acionada para investigar os casos.

VALA COMUM

O único caso de desaparecimento ocorrido durante maio de 2006 e com suspeita de participação de policiais militares envolveu a morte de Maycon Carlos Silva, que sumiu em 15 de maio, no bairro da Casa Verde (zona norte de São Paulo).

Documentos da Ouvidoria da Polícia de São Paulo apontaram fortes indícios de que Silva fora levado por PMs da Força Tática, um grupamento especial formado em cada um dos batalhões da PM.

Após a insistência de seus familiares, a polícia paulista descobriu que Silva era um dos 38 mortos no Estado que haviam sido enterrados sem identidade. Até hoje, 22 dos enterrados em vala comum são tratados como “indigentes”.

SEM ESCLARECIMENTOS 

O Comando Geral da Polícia Militar de São Paulo sempre alegou não ter conseguido comprovar o envolvimento de PMs nos quatro desaparecimentos ocorridos em maio de 2006.

As investigações foram conduzidas pela Corregedoria da PM (órgão fiscalizador), mas em nenhum dos casos foi possível coletar provas sobre a ligação de PMs que atuavam nas áreas onde os quatro jovens sumiram.

Os batalhões que atendem as áreas onde aconteceram os sumiços, bem como a Rota, também investigaram os desaparecimentos dos quatro jovens em maio de 2006.

Os sumiços de Diego Augusto Sant’Anna, Everton dos Santos Pereira, Paulo Alexandre Gomes e Ronaldo Procópio Alves também foram investigados pela Polícia Civil, mas todos os inquéritos policiais foram arquivados sem conclusão.

Em maio de 2007, ao ser questionado sobre os quatro desaparecimentos ocorridos um ano antes, o então secretário da Segurança Pública de SP, Ronaldo Ronaldo Marzagão, disse não saber nada sobre os casos.

Até hoje, a Ouvidoria das Polícias de São Paulo acompanha os casos e aguarda receber informações que possam levar a descobrir o que aconteceu com os quatro desaparecidos em maio de 2006.

O movimento Mães de Maio, grupo independente que agrega mães de vítimas da violência policial, desenvolve uma campanha para que os desaparecimentos e as mortes não esclarecidas em maio de 2006 passem a ser investigadas pela Polícia Federal. O grupo crê que os órgãos estaduais não têm vontade de esclarecer os crimes.

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