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‘É um ataque criminoso, não foi acidente’, diz líder indígena de aldeia incendiada em SP

07/04/21 por Paulo Eduardo Dias

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Aldeia Multiétnica Filhos Dessa Terra, na Serra da Cantareira, teve três ocas de reza incendiadas, duas delas totalmente consumidas pelo fogo; Awa-Kuaray-Wera afirma que autor conhecia região devido à distância entre os locais

Oca estava trancada no momento do incêndio. Cadeado foi único objeto que restou no local | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

Um misto de tristeza e revolta tomava conta dos moradores de Aldeia Multiétnica Filhos Dessa Terra, no bairro Cabuçu, em Guarulhos (Grande SP), na manhã desta quarta-feira (7/4). Há cerca de três dias os moradores do espaço em meio a Serra da Cantareira já não dormem mais sossegados. Tudo por conta de um incêndio, o qual afirmam ser criminoso, que queimou três ocas usadas para reza.

Os incêndios ocorreram no domingo (4/4). O primeiro deles por volta das 9 horas. O segundo ataque por volta das 14h. Duas ocas foram totalmente consumidas. Uma delas foi parcialmente destruída, muito graças à intervenção rápida dos moradores do local, que conseguiram debelar o fogo.

No momento do incêndio, os indígenas trabalhavam na construção de uma oca, que virá a ser a maior do local, com intuito de abrigar um centro cultural para os moradores e para visitação aberta. Por conta do esforço de todos no trabalho naquele domingo é que se demorou a notar os ataques.

Mulheres pensam em construir casas de taipa para conter novos incêndios. Vanuza Kaimbé (camiseta branca e calça preta) foi a primeira indígena brasileira imunizada contra Covid-19 | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

A artesã Simone Pankararu, 43 anos, era uma das pessoas mais desoladas no local. Ela foi uma das responsáveis por entrar mata a dentro atrás de madeira e sapé para a construção de uma das ocas queimadas. Ela conta que rodou boa parte da Serra da Cantareira para conseguir os materiais.

“Tristeza e um pouco de revolta, por saber que a pessoa que fez isso não respeita a nossa cultura. Trabalhei duro, andei muitos quilômetros na mata”. No momento da entrevista a mulher, da etnia Pankaruru, estava com seu filho, o estudante Gabriel, 16, que também leva no sobrenome a origem de seu povo.

Artesã Simone Pankararu e seu filho Gabriel Pankararu | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

A reportagem da Ponte permaneceu por cerca de duas horas na aldeia. Devido à chuva do dia anterior, o chão de terra batida se transformou em barro e lama, o que dificultou ainda mais as passadas pelos barrancos e subidas que formam a geografia do local. Entre um escorregão aqui e outro ali, o som dos pássaros e o fecho de luz que emana por sobre árvores frutíferas, como jacas e abacates, nos leva até a segunda oca destruída.

Ali, a desolação das mulheres que acompanham a reportagem é ainda mais evidente, já que além da oca foram destruídas mesas, cadeiras e alguns utensílios usados no dia a dia. Somente um cadeado ficou intacto. O local fica próximo a duas nascentes, que jorram água suficiente para encher um pequeno curso de água que serve de reserva para peixes comprados pelos indígenas e depositados ali.

Quem também acompanha a reportagem é assistente social Vanuza Kaimbé, 51, a primeira indígena a ser vacinada no país contra o coronavírus. Uma mulher alta, de longos cabelos lisos negros e usando adereços, ela é outra pessoa a usar a palavra “tristeza” para expressar seus sentimentos. “Tristeza. Sofrimento. As coisas já são poucas e vemos elas serem desfeitas. Estamos com medo. Estamos pensando em fazer [outras ocas] de taipa para dificultar o vandalismo. Construir uma oca é muito trabalho. É muita maldade, não tem outra palavra”.

O sol estava a pino enquanto a reportagem seguia pelas trilhas desniveladas que compõem a aldeia. Devido ao barro que se formou e a distância um ponto ao outro, as mulheres preferiram não ir até a terceira oca destruída, localizada numa área em que se é obrigado atravessar o trecho norte do inacabado Rodoanel.

“A pessoa sabia onde estavam localizadas. É um ataque criminoso, não foi acidente. Não foi um ato religioso”, diz Awa-Kuaray-Wera, 49, uma das lideranças da aldeia. Assim como os outros moradores, o homem também não tem suspeitos pelo atentado.

Awa-Kuaray-Wera, 49, uma das lideranças da aldeia | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

O espírito de luta permeia a intenção de renovação. “Parte do meu sonho foi destruído, mas me fortaleceu a construir novamente”, afirmou Simone Pankararu.

No caminho de volta até a entrada da aldeia, Vanuza passou a contar sobre sua imunização contra Covid-19 e a importância para sua família.“Além da esperança pude ajudar meus parentes a se vacinar, perderam o medo. Quando eles viram que eu me vacinei e não aconteceu nada, eles resolveram se vacinar”, explicou.

História da aldeia

A Aldeia Multiétnica Filhos Dessa Terra ocupa uma área de 276 mil metros quadrados, contou à reportagem Awa-Kuaray-Wera. De etnia Tupi, ele informou que o local, que está dentro de uma Área de Proteção Ambiental, serve de moradia para o grupo há três anos. Eles chegaram até ali após serem convidados pela prefeitura de Guarulhos para compor um projeto habitacional na região, contaram os indígenas para a Ponte.

Além dos tupis, residem ali Kaiambé, Pankararé, Pankararu, Xucuru, Pataxó e Kiriri-xoco, num total de 25 famílias ou 52 pessoas, sendo 15 delas crianças.

Mesmo próxima de uma das ocas incendiadas, casa feita de madeira e sapé foi poupada | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

As pessoas que vivem ali tiram seu sustento através do artesanato e doações. Com a falta de feiras ou visitantes devido à pandemia, os auxílios também chegam através de vaquinhas. Enquanto a reportagem esteve no local, caixas de bolachas e produtos de limpeza foram deixados por equipes da prefeitura de Guarulhos.

“Não podemos dizer que somos abandonados pelo poder público”, disse Vanuza, enquanto ajudava a carregar caixas recebidas. No entanto, água e energia elétrica só chegaram após instalações feitas pelos próprios moradores.

Em nota, a Prefeitura de Guarulhos informou que “a Subsecretaria da Igualdade Racial (SIR), vinculada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SDH) tomou conhecimento no mesmo dia sobre o incêndio ocorrido no domingo (4), em área no Cabuçu, onde várias etnias indígenas residem”. Em outro trecho do texto, explicou que “manteve contato com lideranças para obter mais informações e prestou orientações e atendimento à comunidade diante do acontecimento. Ao mesmo tempo, acionou a Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social (SDAS) e a Defesa Civil para a distribuição de cestas básicas e  kits de higiene, bem como atender outras necessidades”.

Também através de nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) explicou que “uma pessoa, ainda não identificada, ateou fogo em três ocas indígenas, na manhã de domingo (4), por volta das 9h, na avenida Benjamin Harris Hunicutt, no bairro Cabuçu, em Guarulhos. Um representante da Secretaria de Direitos Humanos da Subsecretaria de Igualdade Racial da Prefeitura de Guarulhos compareceu à delegacia para registrar os fatos. Segundo moradores do local, as habitações foram danificadas. Foi solicitada perícia ao Instituto de Criminalística (IC) e o caso, registrado como incêndio e provocar incêndio em mata ou floresta pelo 1º Distrito Policial de Guarulhos. A ocorrência foi encaminhada à Polícia Federal”.

*Reportagem atualizada às 12h04, de 8/4/2021, após recebimento de nota da Secretaria da Segurança Pública.

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