Especial Mulheres | Mulher e lésbica: casal escolhe 8 de março para oficializar união

Movimento estudantil uniu uma professora e uma bancária, que escolheram o dia da mulher para casarem como forma de marcar a luta em suas histórias

Sara (direita) e Juliana se casaram em 8/3, dia internacional da mulher | Foto: Felipe Giubilei

A decisão da professora Sara Azevedo, de 32 anos, e da bancária Juliana Selbach, 33, de se casarem no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, não foi por acaso. Embora exista mais de uma versão para que a data tenha sido oficializada pela ONU em 1975, o fato é que o 8M representa a luta das mulheres por igualdade de gênero, nos mais diferentes aspectos: na política, no mercado de trabalho, na vivência da sexualidade e também marca o combate à violência que vitima mulheres no mundo inteiro. O tempo todo. No Brasil, a versão mais difundida é que a data busca lembrar um incêndio em uma fábrica têxtil nos Estados Unidos em março de 1911, que deixou mais de 100 mulheres mortas. As russas, no entanto, reivindicam a homenagem como sendo uma alusão a um levante de mulheres ligadas ao movimento socialista que culminaria na Revolução Russa de 1917.

Militantes feministas, as duas quiseram marcar a luta contra a violência dupla a que estão submetidas na condição de mulher e lésbica. “É importante por ser o dia da mulher e nós, duas mulheres militantes e trabalhadoras, queríamos colocar o dia do nosso casamento em um dia especial para nós e todas as mulheres”, diz Sara. “No momento que entendi que sou uma mulher lésbica que dentro da nossa sociedade machista, sexista e LGBTfóbica, ser quem eu sou seria um problema, também entendi o meu papel”, lembra. Segundo ela, feminismo é superar a barreira da opressão. “É construir uma luta de totalidade para que nenhuma fique pra trás. E que nenhuma seja subjugada ou colocada a margem por ser quem é”, diz.

Foi no movimento estudantil que elas se conheceram, em 2007. Juliana morava em Porto Alegre e Sara vivia em Belém. A distância impediu que aquele encontro prosperasse. Em 2013, elas se reencontraram e se viram algumas vezes, mas nunca conversavam muito. No mesmo ano, elas participaram de um Congresso sobre política, quando tiveram a oportunidade de se conhecer melhor. Naquela época, Juliana estava morando em Brasília. “Mas nesse momento, não aconteceu nada”, lembra Juliana, que admite, no entanto, que àquela altura o interesse de ambas já existia. Até que chegou 2014. “Nesse meio tempo, a gente se falou por telefone, mensagem e só foi crescendo esse sentimento. Em janeiro de 2014, a Sara foi para uma atividade em Brasília e ficou na minha casa”, conta. Foi aí que a relação começou e, depois disso, foi automático: elas estavam namorando. Em 2016, elas resolveram celebrar a união e fizeram uma festa de casamento.

Logo depois, Juliana conseguiu uma transferência no trabalho para Belo Horizonte para poder morar com Sara. No ano passado, decidiram que era hora de casar no cartório. A data escolhida? O dia 8 de março.

Segundo Sara, a luta política com a companheira vem de muitos anos e a descoberta da sexualidade ficou mais tranquila por serem militantes. “Ainda temos a barreira do preconceito, mas esse espaço é mais seguro para nossa relação”, diz.

Juliana concorda. Diz que a militância também a ajudou no ponto de vista da aceitação. “Eu sou bissexual e, hoje, olhando para minha adolescência, essa orientação era óbvia, mas apenas depois de algum tempo de militância que ‘descobri’”, afirma. “Soube antes mesmo de me relacionar com alguma mulher. Sara foi a primeira com quem me relacionei de forma séria”, diz.

Desde os 18 anos militando por causas sociais, Sara afirma que foi se descobrir lésbica aos 21. “O processo veio concomitante com o meu papel transformador na sociedade”, afirma. Empoderamento, para ela, é “ter consciência de quem sou e o que sou na sociedade.”

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