Estudante desaparece após abordagem policial e é encontrado morto uma semana depois no RS

    Três policiais militares foram presos. Eles teriam levado o jovem para uma área afastada do município gaúcho de São Gabriel, onde corpo foi encontrado

    Estudante foi encontrado morto no município de São Gabriel (RS)

    O estudante Gabriel Marques Cavalheiro, de 18 anos, foi encontrado morto no município gaúcho de São Gabriel, na noite da última sexta-feira (19), uma semana depois de ter sido abordado por três integrantes da Brigada Militar do Estado, e desaparecer.

    O jovem era morador de Guaíba, município da região metropolitana de Porto Alegre que fica a cerca de 310 km de onde ele foi abordado pelos policiais. Conforme informações da imprensa local, Gabriel estava na casa de um parente em São Gabriel para se apresentar ao serviço militar obrigatório.

    O corpo do estudante foi encontrado em uma localidade conhecida como Lava Pés, que é de difícil acesso, e onde a viatura dos policiais que realizaram a abordagem ficou parada por quase dois minutos antes de retornar sentido região central do município.

    As investigações do caso começaram na segunda-feira (15), três dias depois do desaparecimento, quando o pai de Gabriel, Anderson da Silva Cavalheiro, procurou a polícia para informar o sumiço do filho.

    No primeiro momento, a Polícia Civil começou apurar, mas no mesmo dia também foi instaurado um Inquérito Policial Militar para apurar a conduta dos agentes. De acordo com o Comando da Brigada Militar, os policiais foram ao local onde abordaram Gabriel após serem acionados. Chegando no bairro, realizaram as buscas no jovem. A ação foi registrada com celular por uma moradora que teria sido a responsável por chamar a viatura.

    Gabriel durante abordagem / Foto: Reprodução/Facebook

    No segundo dia de apurações, terça-feira (16), a Corregedoria-Geral da Brigada Militar assumiu a apuração do caso, pois havia inconsistências nos depoimentos dos policiais. Alguns pontos causaram dúvidas sobre o procedimento do sargento e dois soldados durante a apuração, incluindo a contradição entre eles acerca da liberação do rapaz, e também o fato de o GPS da viatura apontar a ida dos policiais ao bairro afastado da região.

    Diante dessas questões, o Comando da Brigada Militar passou a cruzar informações com o que havia sido registrado pela Polícia Civil, afim também de localizar Gabriel. A Brigada Militar, então, deslocou o efetivo para fazer a busca pelo jovem no Lava Pés. O estudante acabou sendo encontrado em um açude, na tarde de sexta-feira.

    No depoimento, os policiais que realizaram a abordagem disseram que levaram o rapaz para o Lava Pés após pedido do próprio estudante, que estaria procurando por familiares. Essa versão é contestada.

    “O procedimento operacional padrão da Brigada Militar não foi adequado na condução desse fato”, disse o coronel Vladimir Luís Silva da Rosa, corregedor-geral da Brigada Militar. Segundo ele, o correto nesse caso seria “levar o cidadão para fazer uma avaliação médica e conduzi-lo à delegacia”, somente depois disso avaliar se o jovem deveria responder a algo ou ser liberado. Por causa desse não cumprimento de protocolo, os policiais foram presos e colocados à disposição das investigações.

    “Eu nunca imaginei que São Gabriel, um lugar tão calmo, ia acontecer tudo isso. Esses brigadianos não podiam ter feito isso com ele”, escreveu Soila Marques, irmã de Gabriel, no Facebook.

    Além das apurações da Polícia Civil e da Brigada Militar, o caso é acompanhado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul e a OAB-RS (Ordem dos Advogados do Brasil no Estado). A viatura usada pelos policiais foi isolada no primeiro dia de investigação e será periciada. Também foram recolhidos os armamentos e os telefones celulares dos policiais.

    “A instituição não compactua com erros de procedimentos, e temos ainda uma série de atos para serem cumpridos. Propiciando o contraditória e a ampla defesa, mas, desde o primeiro momento que soubemos das alterações de procedimento operacional padrão que temos, agimos no intuito de elucidar os fatos, sem titubear”, disse o coronel Cláudio dos Santos Feoli, comandante da Brigada Militar.

    O secretário da Segurança Pública do Rio Grande do Sul, coronel da reserva Vanius Cesar Santarosa, classificou a morte de Gabriel como um ato isolado no Estado. “Casos de desvio de função dos policiais são esporádicos, mas quando acontecem são investigados com todo rigor da lei”, disse. Ele ressaltou ainda que “até agora tem se comprovado apenas o rastro do GPS da polícia, e que os policiais registraram algo que realmente não foi o que aconteceu de fato”.

    Nas redes sociais, o prefeito de Guaíba, Marcelo Maranata (PDT), se solidarizou com a família e pediu justiça pelo jovem. “Nesse momento de dor prestamos nossas condolências a seus familiares”, escreveu o prefeito em nota publicada também nas contas da prefeitura.

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