Inacy: ‘Sou uma artista movida por energia, gosto de dar vazão ao que sinto’

23/02/19 por Paloma Vasconcelos

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Mulher, negra e periférica, Inacy largou a cidade natal para realizar o sonho de ser cantora de RnB; ela conta detalhes da sua trajetória e da gravação do primeiro trabalho

Inacy no estúdio da Índigo, em SP | Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

Cria de Nova Iguaçu, baixada fluminense do Rio de Janeiro, Marciele Inácio, 25 anos, decidiu seguir a carreira musical em 2017. No ano seguinte, tomou a decisão que transformaria sua vida: mudar para São Paulo e gravar seu primeiro EP.

“Eu nunca gostei muito desse nome composto. Aí no teatro, durante a inscrição, eles pediam um nome artístico e aí eu troquei o ‘io’ e botei um ‘y’. Ali foi assim, sem muita história. Mas a história desse nome veio depois. Eu tava nesse processo de me entender e decidir se de fato eu ia me jogar nisso, na música, que é o que eu amo e aí eu larguei um trampo no Rio e fui fazer uma viagem para meditar e buscar repostas, eu sou muito essa pessoa de energia e é como se eu tivesse renascido. E nasci. Sabe? Inacy”, conta a cantora em entrevista à Ponte.

Com uma infância difícil, Inacy passou a ser criada pela mãe e pela tia de seu pai biológico quando tinha um ano e meio. “Fui criada em uma casinha de tijolo e telha, bem simples, com um quintal cheio de árvores. Fui criada por duas mulheres que não tinham condições nenhuma de ter uma criança, mas decidiram me pegar para criar”, relata a cantora. “Sempre precisei ralar, morava em um lugar bem afastado do centro. Mas, ao mesmo tempo, foi muito gostoso, a gente era muito unido. Eu tenho muito orgulho da minha história e da minha raiz, do que eu me tornei mesmo com tantas adversidades de ser uma mulher negra e periférica”, avalia.

A escola foi um dos períodos mais difíceis para Marciele. Ela relembra, em entrevista à Ponte, os momentos de racismo, bullying e não aceitação de suas raízes. “Eu passei por muita coisa, mas não entendia. Eu só fui entender depois que entrei pra faculdade, que eu fui me empoderar e aí fiz aquele feedback: caramba, é isso, eu sofri racismo. Eu sempre fui muito quieta, muito aquela menina que fica atrás, escondida em todo rolê, muito calada, sofri muito bullying na escola e foi muito pesado, isso atrapalhou demais o meu desenvolvimento na escola. Quando eu entrei para o teatro e depois para a faculdade, descobri outro mundo, ver as coisas com outras perspectivas e aí que eu fui entender e querer saber mais sobre mim, sobre a minha história, sobre a minha ancestralidade. Eu usava cabelo liso e aí fui aos poucos libertando”, explica.

Apesar de ter começado a carreira profissional recentemente, Inacy tem a música em sua vida desde os 6 anos. Se deixasse, ela passava o dia todo cantando em casa. De lá, passou a cantar em igrejas, ainda na infância. Apesar disso, nunca recebeu incentivo profissional na infância ou na adolescência. Só quando chegou na faculdade, em 2014, ela percebeu que deveria se profissionalizar na música.

“Eu passei por diversas transformações, de me entender, de entender tudo a minha volta e nada dava certo. Mas a música sempre esteve ali. Eu fazia várias composições, criava músicas, mas não mostrava pra ninguém. Só quando eu entrei na faculdade eu comecei a me soltar mais e algumas pessoas gostaram da minha voz, falando que eu tinha uma voz legal e porque eu não fazia isso, porque eu não ia atrás disso e eu fui trabalhando isso. É difícil, é muito complicado ser artista no Brasil. Eu decidi vir pra São Paulo buscar mais oportunidades e quando cheguei aqui tudo começou a acontecer. Foi lindo esse momento, foram muitas descobertas. Isso abriu minha visão pra muita coisa”, relembra.

Antes de se jogar na música, Inacy fez aulas de teatro e começou a graduação de Letras na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O amor pela escrita vem da sua infância. “Eu sempre gostei muito de ler e escrever, desde novinha. E tem um detalhe, na minha casa nunca teve TV e eu sempre fui enfiada nos livros. Eu decorava poemas, sempre amei poesia. Isso, e logo depois o teatro, me trazendo textos e literaturas que eu nunca tinha lido, foi o que me estimulou a cursar Letras na UFRJ. Eu entrei sem saber o que ia ser, mas acabei me apaixonando pelo curso”, relembra.

Conexão Rio – São Paulo

Decidir mudar para São Paulo não foi uma decisão fácil. Durante meses, Inacy ficou planejando em sua cabeça como seria essa mudança. “Eu me planejei, me preparei e vim”. Ao comunicar a família, ela não deu muitos detalhes do que viria fazer em SP, apenas que estava atrás de novas oportunidades.

O contato com a gravadora, a Indigo Music Production, veio depois de uma apresentação no “Quintal Sonoro”, a convite de Peh Augusto, produtor e idealizador do projeto. Com canções autorais e conversas, Inacy encantou os ouvidos dos produtores G Mike e Tico Pro. Eles guiaram e acolheram a cantora recém-chegada em SP. Dias depois, ela e os produtores começaram a trabalhar juntos.

Cantora Inacy ao lado dos produtores no estúdio da gravadora| Foto: Fernando Martins/Ponte Jornalismo

Sua primeira música de trabalho é a faixa Preto é luzúnica canção agitada do EP Inacy – que será lançado ainda este ano. Apesar de sempre ouvir RnB (rhythm and blues), o estilo que seguiria na música só foi decidido em SP, depois de conversar com os produtores e entender que o melhor caminho é misturar o estilo, que tem referências gringas, com a brasilidade da MPB.

Inacy, que se intitula sonhadora e romancista, conta que sua música e personalidade vem da mesma fonte: seu signo. A taurina tem como inspiração outras cantoras negras, em sua maioria também do RnB. Beyoncé, Nina Simone, Alicia Keys, Lauryn Hill, Corinne Bailey Rae, Martinália, Elza Soares e Luedji Luna são alguns desses nomes.

Os nomes das 5 outras canções do disco ainda não foram definidos, mas Inacy adianta o que vem por aí: amor, paixão, alegria, saudade, despedida e encontro. “As minhas composições sempre falam de emoções. Eu sou muito isso. Sou muito energia e amor, eu me acho romancista total, tô sempre escrevendo no amor no geral”, explica.

Cantora de R&B, Inacy largou o Rio para buscar seu sonho em SP | Foto: Divulgação/Oxalá Produções

Muitos colegas e amigos chegaram a chamá-la de doida quando decidiu mudar para SP sem nenhuma garantia de que daria certo. “E é isso, eu sou muito doida. É preciso, né? Ter coragem para fazer o que se ama”, defende a cantora. “Foi difícil vir para um lugar novo, que eu não conhecia ninguém, foi a primeira vez que eu mudei para outro estado, só me joguei. A adaptação foi difícil, mas também me trouxe muitas coisas incríveis de aprendizado de estar sozinha e conhecer lugares, pessoas. Eu vim com um objetivo, um sonho, então isso é minha prioridade total. Tive muito acolhimento, de uma forma muita linda. Tinha que ser sabe? Tinha que ser. A forma que eu cheguei e as coisas aconteceram tinha que ser”, finaliza.

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