A PM me bateu e levei 8 pontos na língua, afirma morador de rua

31/08/19 por Paulo Eduardo Dias

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Homem de 33 anos relata que levou golpe no rosto após rebater policial que disse que ele vendia drogas na região da Mooca, na zona leste da capital

Carregador de caminhão relata que levou golpe no rosto e, ferido, foi puxado pela cabeça por PM. | Foto: arquivo pessoal

Um morador em situação de rua afirma que levou oito pontos na língua, além de sofrer escoriações no rosto, após relatar ter sido agredido por quatro policiais militares durante madrugada da última quinta-feira (29/8) em uma rua da Mooca, na zona leste da capital paulista.

Mesmo com dificuldade em falar devido ao ferimento na boca, o carregador de caminhão, E., de 33 anos, que preferiu não se identificar por medo de represálias, contou à reportagem que por volta das 5h estava na Rua Visconde de Parnaíba, altura do número 1760, próximo ao albergue Arsenal, quando foi abordado pelos PMs, que estavam em uma viatura Fiat Palio Weekend. Segundo a vítima, um dos policiais teria perguntado se ele “tinha passagem e o que estava fazendo ali”.

Antes mesmo de responder, um outro PM teria dito que E. “estava traficando e que devia falar a verdade”. De imediato, o morador em situação de rua rebateu dizendo que “preferia roubar a traficar”, momento em que um dos PMs teria o chamado de “folgado” e desferido um golpe com a empunhadura da arma que segurava, que parecia com uma metralhadora, segundo a vítima. Como estava falando no momento da agressão, o homem acabou por morder a língua e se feriu.

Mesmo sangrando, o carregador de caminhão conta que as agressões e ameaças continuaram. Sentado no meio fio, um dos PMs teria o puxado do chão pelo rosto, o que ocasionou em arranhões em sua face. O agente ainda teria mostrado um pacote, em que aparentemente tinha maconha, afirmando que se o encontrasse ali novamente o enquadraria por tráfico.

Em seguida, o homem afirma que começou a passar mal e que um dos policiais militares que aparentava ser mais velho teria pedido para que ele abrisse a boca. Quando notou a gravidade do ferimento, teria dito aos colegas: “vamos largar esse moleque aí e seguir na nossa responsa”.

O morador em situação de rua disse ter recebido auxílio de uma senhora vizinha ao local do fato, que lhe cedeu gazes para estancar o ferimento. Sozinho, ele seguiu por três quilômetros até o albergue São Martinho, na Rua Cajuru, e de lá foi socorrido por uma ambulância até o pronto socorro João XXIII.

E. conta que procurou o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, que o instruiu a elaborar um B.O. (Boletim de Ocorrência) no 8º DP (Brás). O caso foi registrado como lesão corporal. Depois, disse que seguiu para a Corregedoria da Polícia Militar, em que teria feito o reconhecimento fotográfico de quatro dos três policiais.

“Meu sentimento é de agora para frente após a abertura do processo. Foi uma covardia. Quase arrancaram minha língua. Quase quebraram meu queixo. Meu sentimento é de medo. Estou acuado. Medo de uma hora trombar eles na rua e saberem que eu abri o processo e fazerem uma covardia comigo, me matar”, declarou E. à Ponte.

A advogada Juliana Hashimoto, que acompanhou a vítima na ida à delegacia, ao Instituto Médico Legal e à Corregedoria, alegou que tem recebido denúncias por agressão. “Tem sido assustador o aumento do número de casos de violência de agentes públicos contra a população em situação de rua. Neste mês de agosto, a Pastoral do Povo da Rua recebeu pedido de assistência jurídica para três situações de violência policial”.

A Ponte questionou a InPress, assessoria terceirizada da SSP (Secretaria de Segurança Pública), sobre as agressões sofridas pelo homem e se os policiais foram identificados, mas não obteve uma resposta até a publicação.

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