Moradores de rua ocupam tenda fechada pela prefeitura

09/12/15 por Fausto Salvadori

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População de rua e trabalhadores demitidos criticam prefeitura de SP por fechar espaços que atendiam a cerca de 500 pessoas todos os dias

Entrada da tenda do viaduto Alcântara Machado, na Mooca, ocupada por trabalhadores e moradores de rua

Entrada da tenda do viaduto Alcântara Machado, no Brás, ocupada por trabalhadores e moradores de rua

Robson Pereira tem um caderno em espiral a quem chama de “amigo fiel”, porque em suas páginas ele confia os versos em que retrata, numa caligrafia cuidadosa de letras de forma, a sua vida de morador de rua. Sim, versos. Mesmo morando nas ruas desde que nasceu, há 29 anos, na distante Cáceres, no Mato Grosso, Robson é um poeta, de recitar em sarau e publicar em antologia. “Moro aqui nesse mundo,/ Dividido pela imensidão do muro/, Gigantesco e semi invisível/, Cruel, desigual e semi invencível”, escreveu no seu último poema, O Muro.

Esse gigantesco muro invisível, separando as pessoas que têm casa daquelas que têm nada, Robson diz que se tornou ainda maior e mais cruel desde 2/12, há uma semana, quando a Prefeitura de São Paulo ordenou o fechamento de dois espaços de atendimento a moradores de rua, chamados de tenda, que funcionavam sob os viadutos Bresser e Alcântara Machado, no Brás, região central da cidade e que, juntos, atendiam a cerca de 500 usuários por dia. Antes disso, a Prefeitura já havia fechado outro espaço semelhante na Mooca.

Robson na lavanderia da tenda ocupada: "esqueceram da gente"

Robson na lavanderia da Tenda Alcântara, que continuou a funcionar graças à ocupação

Os moradores de rua da região se recusaram a aceitar o fechamento do espaço e, no mesmo dia, ocuparam o Espaço de Convivência Tenda Alcântara. Pretendiam fazer o mesmo na Tenda Bresser, mas foram impedidos pela Guarda Civil Municipal, que ocupou o local.

“O fechamento das tendas é mais uma forma de nos reprimir contra esse muro, de nos isolar da cidade. Mais uma vez esqueceram a gente”, dizia Robson no último domingo (6/12), enquanto torcia suas roupas no tanque da lavanderia da Tenda Alcântara — um serviço que só continuou a funcionar graças à ocupação.

Além dos moradores de rua, a ocupação da Tenda Alcântara teve a participação de cerca de 40 funcionários demitidos da Prefeitura, que antes trabalhavam nas duas tendas. Contratados pela ONG Instituto Social Santa Lúcia para gerir as tendas, todos perderam seus empregos no dia em que Prefeitura fechou os espaços na Bresser e na Alcântara. Após a demissão, os ex-funcionários, que também são membros do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (Catso), resolveram continuar na Tenda Alcântara, agora atuando como militantes voluntários ao lado da população de rua. As decisões sobre a ocupação são tomadas em assembleias conjuntas, que buscam dar o mesmo espaço tanto a moradores de rua quanto aos trabalhadores. “Agora, mais do que nunca, somos um por todos e todos do mesmo nível”, afirma uma das funcionárias demitidas, Vera Santos.

Abertas em 2012, as tendas funcionam, para os moradores de rua, “como uma extensão do quintal que eles não têm”, define Vera. Os serviços oferecidos vão de banheiros com chuveiro, lavanderia e cozinha comunitária até bibliotecas e oficinas culturais de música, cinema, literatura. “É um espaço que ajuda muito a gente”, afirma o morador de rua William Xavier de Almeida, 26 anos.

De cima para baixo?

Fechamento, ocupar, resistir. As falas dos militantes que tomaram a Tenda Alcântara lembram as declarações dos estudantes que ocuparam cerca de 200 escolas públicas e, na semana passada, fizeram o governador Geraldo Alckmin (PSDB) recuar de um projeto de reorganização que previa o fechamento de 94 unidades escolares. Na Tenda Alcântara, os ocupantes acusam o prefeito Fernando Haddad (PT) de fechar espaços de assistência social de cima para baixo, sem um diálogo real com os envolvidos. “Invadem nosso espaço, não escutam nosso voz e ousam dizer que houve um diálogo”, pode-se ler num dos cartazes da ocupação, próximo a outro que diz “Haddad higienista não passará”.

A Prefeitura afirma que o fechamento das tendas foi debatido com a população. A assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social afirmou à Ponte Jornalismo que “faz o acompanhamento das famílias em situação de rua que vivem na região citada há mais de um ano por meio de assembleias, cadastros e encaminhamentos”.

“A desativação de todos os espaços, com a transferência para Centros Pop com Núcleos de Convivência que ofertam trabalho socioeducativo, é um compromisso desta gestão com o Movimento da População em Situação de Rua e o atendimento a uma recomendação do Ministério Público do Estado de São Paulo”, afirmou a Assistência Social, em nota.

Durante ocupação, crianças brincam e moradores de rua assistem a filme

Na ocupação da Tenda Alcântara, crianças brincam e moradores de rua assistem a filme

A secretaria também afirma que abriu, no mês passado, um novo espaço capaz de atender a população afetada pelo fechamento das tendas, localizado na Rua Cajuru. “O novo espaço oferta refeições, além de serviços como a lavagem de roupa, banho, atendimento social e encaminhamentos para rede socioassistencial”, diz.

Ocupantes da Tenda Alcântara ouvidos pela Ponte que estiveram no espaço da Rua Cajuru, porém, reclamam do novo espaço da Prefeitura. A principal queixa é a localização — o novo endereço fica a cerca de 3 quilômetros da Tenda Alcântara e 1 quilômetro do Viaduto Bresser. “Lá é distante para a gente. A Tenda Alcântara fica mais bem localizada. Aqui tem ônibus para todo lado”, contou Ronilda de Oliveira Missias, 33 anos, à Ponte no último domingo, enquanto o filho Nicholas, de 3 anos, dormia sobre suas pernas esticadas.

Ronilda vive em situação de rua há três anos, indo de albergue em albergue, desde que ficou desempregada e não conseguiu mais dar conta de pagar o aluguel. O filho a acompanha na jornada. No espaço da Cajuru, ela diz, mais do que a distância, o que a incomodou, mesmo, foi o atendimento.  “Atendem a gente com muita frieza lá”, afirma.”Aqui na Alcântara, tratam a gente como ser humano e não têm nojo de você“, comparou.

O padre Júlio Lancelotti, vigário do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, faz eco às queixas de Ronilda. “O atendimento no Cajuru ainda é burocrático. Não se interessa pela vida do morador de rua e não leva em conta os seus vínculos”, diz.

Segundo Lancelotti, o Cajuru foi inaugurado funcionando apenas em parte: serviços como lavanderia e bagageiro ainda não estariam funcionando. “O fechamento das tendas foi uma ação precipitada e equivocada da Prefeitura”, diz. “Tudo foi feito de cima para baixo, sem ouvir a população.”

O vigário defende a ocupação da Tenda Alcântara.  “A ocupação é uma forma de resistência legítima. Da mesma forma que os estudantes das escolas ocupadas lutam pela educação, o povo da rua luta por moradia.” Para ele, a desativação das tendas foi pensada para atender aos interesses do mercado imobiliário da região e de parte dos habitantes de classe média, para quem morador de rua é sinônimo de violência e sujeira.

E por falar em violência

Moradores contam que o processo de fechamento das tendas coincidiu com várias ações de tortura e ameaça que estariam sendo praticados por policiais militares da Força Tática do 45º Batalhão da Polícia Militar Metropolitana. O principal alvo é a Favela do Cimento, um grupo de barracos erguidos entre a Rua Pires do Rio e a Radial Leste. Como a Ponte denunciou em outubro, com base em depoimento de vítimas, os policiais estariam invadindo barracos da favela, espancando pessoas e fazendo prisões ilegais. Mesmo após a publicação da reportagem, nada mudou.

“A violência continua. Os policiais batem nas pessoas dentro dos barracos e dizem para elas: ‘vê se sai do barraco empinadinho, sem cara de dor e sem um gemido”, afirma Lancelotti. O padre relata que, na semana passada, enviou ao prefeito Fernando Haddad uma carta, entregue em mãos pelo  secretário de Direitos Humanos Eduardo Suplicy, na qual pedia para que a Prefeitura abandonasse os planos de fazer uma operação de reintegração de posse, com apoio da PM, na Favela do Cimento, marcada para 6/12.

O pedido foi aceito. Diz a nota da Secretaria Municipal da Assistência e Desenvolvimento Social: “A retirada dos barracos será feita de forma gradual à medida que as pessoas deixem seus barracos e sejam encaminhadas para outras políticas públicas, conforme pactuado com a população local”.

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