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Morte de pobres por coronavírus ‘cairá no colo do governo Bolsonaro’

10/04/20 por Arthur Stabile

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Economista Laura Carvalho alerta para riscos de quebrar isolamento e os efeitos severos para periferias: “idosos são vulneráveis, mas recorte de raça e social é grande”

Laura é doutora em economia e professora da USP | Foto: Felipe Felizardo

O coronavírus afetará drasticamente os mais pobres pela falta de recursos, de acesso à saúde e maior incidência de doenças agravadas pelo vírus. A conclusão vem de um estudo feito pela Universidade de São Paulo em parceria com o Levy Economics Institute e a Escola de Medicina de Harvard Medical School, dos Estados Unidos.

Uma das autoras do estudo, a doutora em economia e professora da USP Laura Carvalho, autora do livro “Valsa Brasileira: Do boom ao caos econômico” (Todavia, 2018), detalha os motivos que colocam as populações periféricas e pobres em maior vulnerabilidade. Para ela, é preciso que o governo aja.

“As mesmas populações que saírem de casa para preservar a renda neste momento, os mesmos descontentes pela perda de renda, serão as mais sujeitas aos efeitos devastadores da pandemia do ponto de vista da saúde pública”, explica. “E isso certamente cairá no colo do governo Bolsonaro”.

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“Bolsonaro quer sempre tratar o grupo de idosos como mais vulneráveis, que existe o risco que a doença provoca, mas o recorte de raça e social é grande. Há efeitos desproporcionais e deixarão o país muito mais desigual”, pondera a economista.

Para Laura, medidas como a renda mínima já deveriam estar sendo pensadas como forma de proteção social muito antes dessa crise. “E agora é preciso pensar de que maneira podem ficar no pós-pandemia”, avalia.

Confira entrevista:

Ponte – O estudo alerta para o maior perigo aos mais pobres. Quais as causas?

Laura Carvalho – Tem três dimensões que geram esse efeito desproporcional: as razões que fazem as pessoas mais pobres terem contaminação, como o transporte, o número de pessoas que dividem dormitórios na mesma moradia, a impossibilidade de parar de trabalhar, ter que sair do isolamento pelo baixo nível de renda; a segunda é o acesso à saúde. Ainda temos no Brasil um sistema público, mas o número de leitos por 10 mil habitantes é cinco vezes menor no SUS [Sistema Único de Saúde] do que no sistema privado. O caso tenderá a ser tratado de forma pior dada a desigualdade de acesso à saúde; a terceira é, na verdade, a que eu exploro no estudo: a presença maior de doenças crônicas associadas aos casos graves, algo já documentado, como os casos de diabetes, e que observamos de fato no Brasil.

Ponte – Como prevenir que a mortalidade atinja pessoas da “base da pirâmide social”, como dito no estudo?

Laura Carvalho – Cada um dos fatores tem medidas para minimizar. Pelo lado da renda, se existe a impossibilidade de isolamento, já tem medidas sendo tomadas, precisa desenhar medidas urgentes que atinjam camadas e possibilitem preservação de renda imediatamente para evitar o fim do isolamento. As medidas pelo lado do acesso à moradia, pela alta densidade e desigualdade, são necessárias políticas públicas que reduzam essas desigualdades. E, do lado do acesso à saúde, para além da destinação de mais recursos ao SUS, a realocação na pandemia de leitos da rede privada para o sistema público para tentar reduzir a deficiência.

Ponte – As ações tomadas até o momento pelo governo federal voltadas para a renda, como R$ 600 e R$ 1,2 mil para trabalhadores informais, são suficientes para diminuir este risco?

Laura Carvalho – Dizer que é suficiente é complicado. Precisamos considerar a perda de renda muito alta nesse primeiro momento da pandemia, de isolamento, sobretudo para quem está ligado a serviços. É uma iniciativa que já aumentou bastante o valor ao que era proposto e que, em uma família que tem mãe solteira ou dois adultos, por exemplo, chega a um salário mínimo, algo bastante relevante considerando o grau de vulnerabilidade. O problema é que essas medidas não impedem que outros trabalhadores sejam obrigado a irem aos trabalhos. Tem os casos dos que não perderam seus empregos, não querem perder e ainda estão tendo que trabalhar mesmo fora dos setores considerados essenciais. Teriam que ter medidas restritivas maiores, em mais setores, que de fato proibissem a exigência de trabalhadores mais vulneráveis [comparecerem aos seus postos de trabalho] e medidas para preservação de empregos. Não de as empresas tomarem o dinheiro e forçar demissão. Reduzir o risco é o grande desafio.

Ponte – O presidente Jair Bolsonaro e alguns empresários, como Roberto Justus e o Junior Durski, sugerem um isolamento social mais brando para não prejudicar tanto a economia. O que você acha disso?

Laura Carvalho – Isso na verdade é um falso dilema. Não há no debate econômico algum economista que considere o fim do isolamento um ponto que possa trazer recuperação da economia mais rapidamente. As pessoas continuam inseguras, dado os riscos para essa massa de trabalhadores mais vulneráveis economicamente que a pesquisa aponta ser mais vulnerável nos casos mais graves. A crise de saúde pública que seria desencadeada com a retirada das medidas restritivas trariam enorme prejuízo social, de saúde e econômico. Tem vulnerabilidade econômica e tem a vulnerabilidade à contaminação e severidade dos casos.

Ponte – Qual o grande problema dessa questão?

Laura Carvalho – O problema maior é justamente a população mais vulnerável economicamente é a mais propensa a sair do isolamento e as mesmas que estão com mais riscos de óbito. Tragédia seria opor a morte econômica à morte física, o que não pode ocorrer. Para isso, realmente precisa não só melhorar rapidamente as perspectivas de acesso à saúde, os hospitais de campanha, as alocações de leitos, que considero fundamental, como também garantir medidas que estejam vigorando e preservar a renda. Tem um problema de timming: a demora no pagamento tem um impacto, precipita a saída do isolamento.

Ponte – É uma questão voltada mais para a política do que para a economia?

Laura Carvalho – Sim. É uma tentativa do governo Bolsonaro de explorar, diante da crise econômica que virá com isolamento e que virá em todos os países, e tentar transferir a responsabilidade da crise para os governadores e imprensa em geral, que mais estão defendendo a política de isolamento. Com isso, conforme a pandemia evoluir e colocar a população mais vulnerável em risco, se isso for gerando um número de óbitos e o colapso do sistema de saúde desproporcional tal qual estamos prevendo. As mesmas populações que saírem de casa para preservar a renda neste momento, os mesmos descontentes pela perda de renda, serão as mais sujeitas aos efeitos devastadores da pandemia do ponto de vista da saúde pública. E isso certamente cairá no colo do governo Bolsonaro.

Ponte – Há um risco de a pandemia atingir principalmente os negros, como ocorre hoje nos EUA?

Laura Carvalho – Sim. Aqui no Brasil a gente também tem uma associação alta de desigualdade de renda e desigualdades raciais. Assim como nos Estado Unidos, as populações mais vulneráveis do ponto de vista do acesso à saúde e riscos de contaminação que tinha mencionado anteriormente e da incidência de doenças que favorece a Covid-19, tem recorte racial muito claro. Tende a vermos isso. Trabalhando os números para tentar identificar melhor os efeitos, o problema é que na PNS (Pesquisa Nacional de Saúde, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) há uma subnotificação entre os mais pobres e os negros, pardos e indígenas, por exemplo de doenças crônicas. Dentro dessa população há uma proporção bem relevante das pessoas que nunca foram ao médico, não é possível identificar uma incidência maior ou não.

Ponte – Nesse caso, haveria o risco de algo semelhante a um genocídio?

Laura Carvalho – Considerando que há uma medida intencional, declarações, estímulos partindo do presidente para a população sair de casa, o número de óbitos pode ser muito maior e o efeito da pandemia maior nas pessoas pobres e negras, podemos, sim, falar em genocídio. Uma política genocida, ainda, claro, com efeitos indiretos. Na prática, Bolsonaro quer sempre tratar o grupo de idosos como mais vulneráveis, que existe o risco que a doença provoca, mas o recorte de raça e social é grande. Há efeitos desproporcionais e deixarão o país muito mais desigual.

Ponte – Até quando a ajuda emergencial aos mais pobres deve ser mantida?

Laura Carvalho – Sou a favor de que se aproveite a oportunidade para se pensar em um mecanismo mais amplo de proteção social permanente. Há um recorde de informalidade no mercado de trabalho, temos um mundo com o trabalho sendo transformando em todos os países e tendo relações trabalhistas cada vez mais instáveis, o que coloca a população em situação de vulnerabilidade muito maior. Medidas como a renda mínima já deveriam estar sendo pensadas como forma de proteção social muito antes dessa crise e de que maneira podem ficar no pós-pandemia.

Ponte – Há estudos apontando que o isolamento social diminuiu entre a última semana de março e os primeiros dias de abril. Esse processo de afrouxamento, neste momento, deve favorecer ou prejudicar a retomada da economia?

Laura Carvalho – Certamente não favorece. Claro que o isolamento tem um impacto de recessão imediata, na medida em que nem quer que a população saia para consumir. É preciso manter a renda no que é essencial para permitir que se compre o que realmente é essencial. É possível esperar, caso seja bem sucedido em conter a progressão dessa epidemia e evitar o colapso saúde, se reverter a curva e, dessa forma, a recuperação pode ser razoavelmente rápida. Para que isso aconteça, é preciso medidas da preservação de renda e preservação dos setores envolvidos, que as empresas não fechem, que o trabalhadores não percam seus vínculos. Caso seja possível, a recuperação tende a ser mais rápida se tomar esse tipo de medida. Nada garante que a economia vai se recuperar, na verdade. Falamos de recuperação em V, de mais rápida, em U, mais moderada, ou L, quando a economia está estagnada e não retorna ao nível anterior. A crise de saúde pública com número enorme de mortos, não controle da pandemia, deixa a população em tal grau de insegurança que leva à recuperação em tipo L, a pior. Claro, a recuperação vai depender da agenda que o governo adotar no pós-pandemia. Se fizer isolamento e retomar a agenda com austeridade mais drástica, como defendem, pode prejudicar a velocidade de a economia retomar.

Ponte – Para o período pós-pandemia, o que os gestores econômicos devem fazer? Faz sentido voltar a implementar teto de gastos e mais austeridade, já que a dívida pública estará muito maior?

Laura Carvalho – No pós-crise as pessoas estarão mais endividadas, será difícil retomar o consumo e suas atividades. Será um mundo com mais desigualdade. Os efeitos são muito distintos nas classes sociais, o que agravará ainda mais a concentração de renda e riqueza, mais dívida pública, e mais desigualdade. Se resolver a dívida pública forçando a política de mais austeridade, mais agressivas, mais cortes para serviços públicos e proteção social, sem investimento, vai tender a levar a gente para um quadro bastante dramático de estagnação mais grave do que vivemos em 2017. A outra alternativa é desenhar medidas que permitam esse controle da dívida pública pelo lado da geração de receita, medidas de tributação da renda e patrimônio dos mais ricos, a maneira mais interessante de dividir a conta da pandemia.

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