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Mulheres ocupam ruas de SP contra Bolsonaro e pedem justiça por Marielle

08/03/20 por Jeniffer Mendonça e Daniel Arroyo

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Diversos movimentos sociais marcharam pelo centro da cidade aos gritos de “Ele Não”, pela democracia e por respostas pelo assassinato da vereadora, que completa dois anos

Mulheres caminham pela Av. Paulista em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Desde as eleições de 2018, a rejeição, principalmente, do público feminino à candidatura do hoje presidente Jair Bolsonaro se fez presente nas ruas com a campanha do #EleNão. Dois anos depois, o tradicional protesto do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, continuou a ter gritos em uníssono contra o capitão reformado que, desde quando ocupava uma cadeira como deputado federal, já realizava discursos misóginos como comparar o nascimento da única filha mulher como uma “fraquejada” ou dizer a uma colega de parlamento que “não a estupro porque você não merece”.

“Bolsonaro e seu desgoverno são um dos senhores de engenho que tantas de nós, mulheres negras, historicamente, já enfrentamos. Nós não vamos nos esmorecer”, declarou a jornalista Juliana Gonçalves, membro da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

Manifestante com cartaz ” Mais educação, nada de armas.” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Envolvendo mais 90 entidades de movimentos sociais de mulheres, negras, indígenas, LGBT+, partidos políticos, entre outros, a organização estimou mais de 50 mil pessoas que saíram da Avenida Paulista até a Praça Roosevelt, no centro da capital paulista.

Mesmo com a chuva que se fez presente desde a concentração, por volta das 14h, e que não se encerrou até o término do trajeto, às 18h30, as manifestantes se mantiveram firmes, intercalando palavras de ordem de “Ele Não” com “Marielle Presente”. O mote deste ano também destacou os dois anos do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, que ainda não foi elucidado, com pedidos de “justiça” e contra o genocídio de mulheres negras .

Choveu durante o ato na Av. Paulista em São Paulo | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“A morte de Marielle e a falta de elucidação [do crime] mostram que há muito tempo não vivemos numa democracia”, critica Juliana. “Muitas vezes a democracia que existe aqui na Avenida Paulista é quase inexistente nas periferias”, prossegue. Para ela, o Estado deve promover uma Justiça reparativa “que não seja cada vez mais um instrumento de dizimação do povo preto e periférico”.

Quem também apontou o sistema de justiça como um meio de extermínio da população negra foi Ednalva Franco, liderança do Movimento de Moradia Para Todos, que foi presa no ano passado junto com outros militantes de movimentos de luta por moradia.

“Eu fiquei 115 dias presa por causa desse sistema do Bolsonaro que quer impedir de dizer o que a gente pensa, o nosso direito de ir e vir. Foram 115 dias atrás das grades injustamente que não fizeram eu desistir da luta. Enquanto eu viver, eu vou lutar pelos direitos sociais, pelos direitos das mulheres”, declarou.

Manifestação envolveu mais de noventa entidades de movimentos sociais | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Na mesma linha pela não criminalização de movimentos, Sonia Barbosa, 46 anos, liderança da terra indígena Jaraguá, destaca o recrudescimento de políticas públicas para os povos tradicionais. “Estamos aqui pela demarcação de terras, contra a opressão e assassinato do nosso povo todos os dias e para mostrar que temos nosso poder de voz”, afirma.

Em Libras (Língua Brasileira de Sinais), a professora Rafaela Santos Schneider, 30 anos, que é surda e moradora de Itaquera, na zona leste da cidade, destacou para o público presente como a falta de atendimento especializado em delegacias silencia mulheres com deficiência, especialmente periféricas.

Mulher com boneco em referência ao presidente Jair Bolsonaro | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Meu irmão já foi vítima de violência e eu tentava explicar para os policiais na delegacia o que havia acontecido, mas eles só me afastavam sem entender nada e diziam que era para eu para ir para outra delegacia, mas um distrito policial especializado para pessoas com deficiência só existe no centro da cidade, longe de onde moro”, aponta. “Além da questão do assédio, como a gente vai denunciar se a única delegacia só funciona de segunda a sexta?”, questiona. “Precisamos nos unir e dar visibilidade”.

Em meio à passeata, outro grupo estendia um cartaz com uma passagem bíblica “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados filhos de Deus” e entoavam “sou cristão, meu Messias não tem arma na mão”. De acordo com a professora Andressa Ferreira Gonçalves, 37 anos, do movimento Cristãs e Cristãos pela Democracia, o presidente Bolsonaro deturpa a religião para fins políticos. “A centralidade de alguns discursos desse governo é o cristianismo que a gente não acredita, por isso, estamos indo para rua para mostrar que o verdadeiro Cristo é o da justiça, do amor, da paz, de igualdade”, explica. “Esse discurso de ódio, de armamento, para a gente não tem nada a ver com o projeto de Jesus.”

É justamente a proliferação de ódio contra determinadas populações que mostra a necessidade da integração de mulheres trans e travestis nas pautas feministas, segundo a professora Alexya Salvador, 39 anos, que atua há 16 anos da rede estadual de ensino e foi nomeada a primeira reverenda trans ligada a uma igreja cristã. “Ser uma mulher trans, reverenda, nesse momento dá medo” lamenta.

“Esse desgoverno do Bolsonaro legitimou pessoas que tinham um ódio guardado contra a nossa comunidade e se sentem empoderadas para nos perseguir e nos matar ainda mais, mas é momento de resistência”, afirma Alexya. “Embora o medo habite o chão da nossa vida, não podemos deixá-lo nos dominar, pois eu tenho duas filhas trans e eu luto por elas também para que quando tenham a minha idade, não vivam numa sociedade como a que vivo hoje”.

Homem mostra dedo médio enquanto ato passava pela rua Augusta | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Poucos metros antes do término do trajeto, na altura do cruzamento das ruas Augusta com a Caio Prado, um homem em frente a um prédio de luxo e com uma taça de vinho na mão, sozinho, mostrou o dedo do meio para as manifestantes que passavam pelo local, o que fez as mulheres aumentarem ainda mais o tom de voz das palavras de ordem que entoavam.

Filha do Olavo

Com uma tiara brilhante escrita “Ele Não”, a professora Heloisa de Carvalho, 50 anos, primogênita do astrólogo Olavo de Carvalho, considerado guru do bolsonarismo, afirmou que se sente na obrigação de denunciar a influência do pai no governo atual. “Querendo ou não, Olavo de Carvalho está com grande influência e é notório, Eduardo Bolsonaro está na cada dele nos EUA”, diz. “A influência dele é grande e é maligna, essa questão da educação é uma pauta que eu carrego há muitos anos, apesar de não ter ligação com o ensino regular, eu tenho muitas amigas professoras. Esse ministro da educação olavista [Abraham Weintraub] é louco, maluco e só tá destruindo toda a educação, não só na questão de ensino, mas de atraso de material e etc.”, critica.

Professora Heloisa de Carvalho, 50 anos | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Para ela, é necessário combater os ideais fanáticos e bélicos do filósofo. “Acho que o país tem ser laico diante de toda a diversidade religiosa, respeito demais isso, mas o que o governo quer implantar é totalmente o contrário. Eu me vi numa situação em que eu tinha que falar e depois que eu comecei a falar, a mídia começou a dar mais importância, porque diziam que é um maluco e não estavam nem aí, e olha onde o maluco chegou”, conclui.

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