Livro de Marielle Franco sobre UPPs e violência de Estado é lançado em SP

‘UPP: a redução da favela em três letras’ é dissertação de mestrado da vereadora, assassinada em março; ‘só haverá democracia se Brasil responder quem matou Marielle’, afirmou Monica Benicio durante evento

Anielle Franco e Monica Benicio no lançamento do livro | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte

O quilombo urbano, como é conhecido o Aparelha Luzia – espaço cultural que reúne pessoas negras e LGBTs – foi escolhido para o lançamento do livro da dissertação de mestrado de Marielle Franco UPP: a redução da favela em três letras, organizado pela editora N-1 Edições, na noite desta terça-feira (07/11). A vereadora foi assassinada em 14 de março deste ano, em um crime que segue sem solução há quase oito meses.

Erica Malunguinho, idealizadora do espaço e deputada estadual eleita, contou à Ponte a importância de lançar um livro de Marielle no local. “Nossos passos vêm de longe, nós estamos numa continuidade histórica e de luta. E esse lugar diz respeito a luta de Marielle, porque diz respeito a uma luta do povo preto, de uma luta da favela, das periferias e das quebradas, das mulheres negras”, explica Malunguinho.

Escrita durante passagem de Marielle Franco na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), a dissertação da vereadora trata de uma temática que ela conhecia de perto: violência policial nas favelas do Rio de Janeiro e atuação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), criada em 2008.

A arquiteta Monica Tereza Benicio, viúva de Marielle, contou à Ponte alguns detalhes da dissertação de sua companheira. “A dissertação fala de um assunto que nos toca muito pessoalmente, enquanto faveladas, porque as nossas favelas sempre foram militarizadas, a nossa polícia sempre foi muito truculenta. O projeto da UPP era um projeto que no papel tinha um conceito muito bom, mas acabou sendo um projeto falido e que nunca cumpriu a política que deveria. A política que o nosso estado exerce é uma política de violência, é uma política que nos mata, é uma política que derrama sangue, é uma política que em vez de segurança nos traz insegurança pública”, explica.

Monica Benicio, companheira de Marielle Franco, veio a São Paulo para o lançamento | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Para Benicio, a publicação desse trabalho é uma garantia de preservação de legado e memória das lutas de Marielle. “Ela escreve essa dissertação quando estava na Comissão de Direitos Humanos, era um momento em que ela conhecia o tema não só enquanto mulher preta e favelada, mas também estando dentro de uma instituição. Então era um outro tipo de diálogo com o Estado. Eu acho que é muito importante que seja lido, porque a dissertação fala também dos movimentos de resistência do povo favelado diante desse Estado truculento e também fala de uma coisa que a Marielle sempre lutou, que é o direito do favelado ter vida, o direito de ter acesso a uma cidade igualitária”, afirma.

Em entrevista à Ponte, a professora Anielle Franco, irmã caçula de Marielle, relatou como é ver o trabalho de sua irmã publicado. “É uma mistura de sentimentos. Fico muito honrada de participar e fazer parte disso, por ver o quanto o trabalho dela atingiu diversos setores, lugares, mundo afora. Mas eu trocaria tudo isso por ela aqui. A gente sempre foi isso, brincadeiras e risadas, a família sempre foi muito alegre e para cima, então hoje tem sido muito difícil. Hoje tem felicidade e afeto, mas muita dor”, desabafa Franco.

Justiça por Marielle

Os gritos de “Marielle, presente!” fizeram parte do evento, que lotou o Aparelha Luzia. Muita gente ocupou nas calçadas. A emoção era visível no rosto do público, composto por mulheres, negros e LGBTs. A fila para comprar um exemplar do livro que traz o nome de Marielle Franco na capa não diminui ao longo das quase três horas de lançamento, mesmo durante as falas de Erica Malunguinho, Anielle Franco e Monica Benicio.

Há 239 dias, espera-se uma resposta sobre quem matou e quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes. Para Anielle Franco, os questionamentos sobre o assassinato de Marielle não podem parar. “Eu não sei como exigir uma resposta para quem matou e quem mandou matar, mas eu acredito que temos que continuar perguntando, seja aqui ou seja fora do país, porque foi um crime político. Marielle foi eleita democraticamente com 46 mil votos, então não dá pra gente simplesmente olhar, temos que seguir perguntando. Acho que só juntos conseguiremos uma resposta”, defende Anielle.

Para Monica, não haverá democracia no Brasil sem a solução dessas execuções. Ela defende que a federalização do caso Marielle é uma alternativa para obter respostas. “Meus últimos posicionamentos foram todos a favor da federalização da investigação. Tenho articulado inclusive com o ministro de segurança, o Raul Jungmann, e com a própria procuradora-geral da república Raquel Dodge. Eu os procurei para pedir ajuda, porque eu acho que a federalização do caso da Marielle hoje é um caminho. Ele tem que sair da competência do Rio de Janeiro”, explica a arquiteta.

Benicio também está preocupada com a demora para solucionar o caso e a proximidade com o governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). “Eu tenho uma preocupação muito grande, por não saber qual é o diálogo que eu vou ter com esse governo, como eles vão responder à investigação, uma vez que o Mourão já disse que o caso da Marielle estava enchendo o saco. Mas essa semana o Moro se posicionou falando que o Brasil deve sim responder, e isso me deu um pouco de esperança”, defende Monica.

Monica também contou à Ponte que as ameaças contra a sua vida aumentaram durante o período eleitoral. Em agosto deste ano, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos havia concedido medida cautelar internacional para protegê-la.

“As minhas ameaças aumentaram no mesmo nível que aumentou para toda população LGBT, toda população preta. Existe toda uma população que se identifica com o discurso de Bolsonaro e acha que é legítimo que as pessoas sejam racistas, LGBTfóbicos e machistas. Então, os discursos de ódio, nas redes sociais e nas ruas, com ameaças de agressão, aumentaram consideravelmente durante a campanha e depois do primeiro turno”, salienta Benicio.

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