PMs são investigados por morte de jovem de 14 anos na periferia da Grande SP

6 minutos atrás

Ação dos cabos Alécio José de Souza e Adilson Antônio Senna de Oliveira terminou com a morte de Luan Gabriel Nogueira de Souza

Luan Gabriel Nogueira de Souza morreu ao ser atingido no pescoço após abordagem policial. Testemunhas dizem que PMs atiraram sem motivo

Estudante do 9º ano do ensino fundamental, Luan Gabriel não resistiu ao ser baleado no pescoço | Foto: arquivo pessoal

Luan Gabriel Nogueira de Souza, 14 anos, tinha o sonho de fazer medicina. Como a namorada do irmão, enfermeira, e a mãe, cozinheira hospitalar, queria ajudar a salvar vidas. Um tiro no pescoço encerrou precocemente a caminhada do garoto rumo a este objetivo. Luan morreu no último domingo (5/11), em Santo André, na Grande SP, atingido por um disparo após abordagem da Policia Militar.

O caso aconteceu por volta das 15h. O garoto saiu de casa para comprar um pacote de bolacha com outro amigo da mesma idade quando os policiais militares Alécio José de Souza e Adilson Antônio Senna de Oliveira os abordaram. Os PMs buscavam suspeitos do furto de uma moto ocorrido no pátio de apreensão de veículos da Prefeitura de Santo André, na Avenida Dr. Jorge Marcos de Oliveira.

Segundo o Boletim de Ocorrência, a versão dos policiais é de que, além dos dois, outros suspeitos estavam no local desmontando o veículo furtado e, ao serem notados, teriam fugido correndo. Os policiais não especificaram quantos eram. Na fuga, os PMs alegam que um deles, descrito como de cor parda, 1,70 m de altura, magro, aparentando 20 anos e de bermuda, empunhava um revólver calibre 38 e disparou. O cabo De Souza revidou com três tiros.

Após a reação, Luan Gabriel cai atingido por um tiro no pescoço e não resistiu. Na versão dos cabos, nenhuma arma foi encontrada com o jovem, “a qual, possivelmente, estava em posse de um dos desconhecidos que logrou êxito na fuga”, conforme descreveram ao delegado Paulo Rogério Dionísio, do 2º Distrito Policial de Santo André.

Familiares e amigos acompanharam em peso o enterro do garoto, de 14 anos | Foto: Arthur Stabile/Ponte

O relato do adolescente que acompanhava a vítima difere do apresentado pelos policiais. “Eu desci para comprar refrigerante para a minha mãe e, depois que voltei, pedi para pegar bolacha com o troco. Chamei o Luan, que tinha dormido em casa, cumprimentamos os moleques na rua e, indo comprar, os policiais deram voz de abordagem e já atiraram. Não tinha reação, não deu tempo de nada, só correr para a viela”, revela à Ponte o garoto, que terá identidade preservada por segurança.

Após o ocorrido, a testemunha sustenta ter sido pega pelo colarinho por um dos policiais e, junto de sua mãe, recebido ameaças. “Quando atingiram ele, outro amigo nosso tentou socorrer, mas o policial atirou outras duas vezes na direção dele e ele só saiu correndo pra não ser baleado”, prossegue. O jovem recebe aconselhamento do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) para não andar sozinho na rua a fim de evitar represálias.

Um inquérito policial militar, aberto nesta terça-feira (7/11), investigará a atuação dos PMs nesta ocorrência. A apuração ficará por conta do delegado assistente do 2º DP do município, Georges Amauro Lopes. Diferentemente do que aconteceu na elaboração do BO, familiares e testemunhas (além dos policiais) serão chamadas para prestar depoimento.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Júlio César Fernandes Neves, apontou que enviará ofício à Corregedoria da Polícia Civil a fim de que o delegado Paulo Rogério Dionísio, que assina o B.O., preste esclarecimentos. Segundo ele, existe a possibilidade de ter havido neste caso prevaricação – exposto no artigo 319 do Código Penal: Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal.

Camisetas com fotos do estudante e homenagens forma vista no cemitério de Santo André | Foto: Arthur Stabile/Ponte

O conselheiro do Condepe, Ariel de Castro, afirmou à reportagem que levará testemunhas à Corregedoria da Polícia para serem ouvidas.

Familiares de Luan e moradores da região disseram que foram impedidos de darem oficialmente suas versões na delegacia, bem como negado acesso ao boletim de ocorrência nem ao corpo do garoto, seja no local do crime, ou no IML, para fazer o reconhecimento no dia da morte.

“Meu filho mais velho foi duas vezes na delegacia e no IML e disseram já terem reconhecido o corpo, mas não tinham. Na hora em que ele foi baleado, saí para a rua e não me deixaram ver o Luan, disseram que era filho de outra mulher que já tinha sido avisada. Insisti, dei detalhes da roupa, do cabelo, até o brinco que ele usava, e nada. O policial, agressivo, disse ‘já te disse que não é seu filho, vai para casa’. Forcei e consegui ver o tênis no chão. Era o do meu filho”, contou Maria Medina Costa Ribeiro, 43, após o enterro do garoto.

A cerimônia aconteceu no Cemitério Nossa Senhora do Carmo, na Vila Curuçá, em Santo André, também conhecido como Cemitério Curuçá. Velado desde a tarde de segunda-feira (6/11), o enterro de Luan Gabriel Nogueira de Souza aconteceu na manhã desta terça. Emocionados, a mãe e o irmão, Lucas Nogueira, 23, permaneceram ao lado de Luan até o fim, junto de seus amigos da escola.

O garoto, que estudava no 9º ano do ensino fundamental, recebeu homenagem do atual colégio que estudava, a Escola Estadual Professor Pércio Puccini. Os colegas também vestiam camiseta com sua foto. “Nosso Luh”, “Um anjinho lindo que amo e amarei eternamente” eram algumas das mensagens escritas.

Parentes e amigos estão organizando uma manifestação para acontecer nos próximos dias, ainda sem data definida, em repúdio à morte do adolescente.

Cortejo de Luan Gabriel contou com homenagem dos amigos, conhecidos de escola e parentes | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Procurada pela Ponte às 18h26 da segunda-feira (6/11), a CDN Comunicação, assessoria de imprensa terceirizada da SSP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo), não respondeu aos questionamentos da reportagem. Novamente procurada às 12h28 da terça-feira (7/11), o silêncio se manteve. Por fim, por volta de 15h30 do mesmo dia, a resposta por telefone foi de que “não havia previsão para resposta ainda hoje” para as perguntas. A assessoria da PM explicou que o pedido de outro lado estava em análise e também não se posicionou até a publicação desta reportagem.

As seguintes perguntas estão sem resposta oficial da pasta e da corporação:

Quantos indivíduos os policiais militares abordaram na ocorrência? Quais deles eram suspeito do furto de moto?

Em qual momento houve confronto entre os suspeitos e os policiais?

O tiro fatal no jovem Luan Gabriel o atingiu no pescoço. É do procedimento padrão da PM realizar disparos em áreas vitais e/ou nas costas de indivíduos em fuga?

Os policiais envolvidos nesta ação serão mantidos no patrulhamento da área na qual ocorreu este patrulhamento?

Quais as provas utilizadas pelo delegado responsável por receber a ocorrência para definir este caso como “légítima defesa própria”?

A perícia realizada na arma encontrada no local reconhece sinais de disparos feitas com a mesma? Sua numeração é aparente?

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