Polícia prende fazendeiro suspeito de ser mandante do assassinato de ativista no Pará

28/03/19 por Moisés Sarraf e Kátia Brasil, da Amazônia Real

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Fernando Silva teria encomendado morte de Dilma Ferreira da Silva, coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens, por interesse nas terras dela. Mais cinco suspeitos de serem autores do crime são procurados

Casa de Dilma, com presença da polícia e de membros do MAB | Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real

A Polícia Civil do Pará prendeu, na tarde desta terça-feira (26), o fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho, 43 anos, apontado como suspeito de ser mandante do assassinato da coordenadora do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), Dilma Ferreira da Silva, 45 anos, do marido dela, Claudionor Costa da Silva, 42, e do vizinho do casal, Milton Lopes, 38. Segundo as investigações, o fazendeiro teria encomendado também as mortes de três funcionários. A motivação para o assassinato da ativista seria o interesse do fazendeiro pelas terras do assentamento Salvador Allende, onde Dilma morava desde 2012, depois que recebeu um lote regularizado pelo governo federal.

Quem anunciou a prisão do fazendeiro Fernando Rosa Filha foi o governador Helder Barbalho (MDB). Ele usou uma rede social para falar, pela primeira vez, sobre a morte da ativista. O crime aconteceu entre a noite do dia 21 de março (quinta-feira) e início da madrugada do dia 22 (sexta-feira), no município de Baião, no nordeste do estado do Pará. A polícia classificou os assassinatos de “execução”.

“Este assunto [a morte de Dilma] foi tratado com absoluta prioridade pela área de segurança, dando uma demonstração clara de que nós não iremos tolerar seja violência urbana, seja violência rural”, disse o governador. Segundo Helder Barbalho, a equipe da Polícia Civil continua na região entre Baião e Tucuruí, no sudeste do estado, para cumprir mandados de prisão dos demais envolvidos neste caso.

“Que sirva como exemplo para que nós possamos virar a página dos crimes que ficam impunes no estado do Pará”, disse o governador sobre os desdobramentos do caso, cuja repercussão chegou ao escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU), que cobrou uma investigação completa do governo.

A prisão temporária (por 30 dias) do fazendeiro Fernando Rosa Filho foi decretada pelo juiz Weber Lacerda Gonçalves, da Comarca de Baião, na segunda-feira (25). Ele expediu ainda mandados para as prisões dos irmãos Alan, Cosme Francisco, Glaucimar e Marlon Alves, que estariam no grupo de seis pessoas que beberam no bar do mercadinho da ativista na noite do crime. Eles seriam os autores dos assassinatos no assentamento Salvador Allende e na fazenda de Rosa Filho.

Marcas de Sangue das vítimas no batente da casa de Dilma | Foto: Pedroso Neto/Amazônia Real

De acordo com as investigações, o assassinato de Dilma Ferreira Silva teve requinte de crueldade. Ela, o marido Claudionor e o vizinho Milton foram esfaqueados e amordaçados. Além de degolada, há uma suspeita de que a ativista também tenha sido estuprada. O Instituto Médico Legal (IML) de Tucuruí informou que o laudo dos assassinatos deverá sair em até 30 dias.

O motivo pelo qual o fazendeiro Rosa Filho encomendou a morte da ativista Dilma não está definitivamente esclarecido pela polícia. Testemunhas ouvidas pela Amazônia Real no assentamento Salvador Allende apontaram violência contra a mulher e vingança como possíveis motivos para os assassinatos premeditados.

Uma testemunha contou à reportagem que presenciou a chegada dos seis homens suspeitos do crime ao mercadinho de Dilma e Claudionor, local onde também funcionava como bar durante a noite. “Eles perguntaram se tinha combustível para vender. Como não tinha, eles saíram em três motos. Depois voltaram e ficaram bebendo lá na Dilma. O pessoal disse até que o ‘Cláudio’ tirou gasolina da moto dele e colocou numa Bros [modelo de uma das motocicletas] de um desses homens quando eles voltaram e ficaram lá bebendo”

No mesmo dia da morte da ativista Dilma Silva, três funcionários da fazenda de Fernando Rosa Filho foram mortos carbonizados, o que gerou medo e terror no assentamento Salvador Allende. No sábado (23), quando a reportagem da Amazônia Real esteve no lugar ouviu relatos de moradores sobre insegurança por causa do incêndio na fazenda. Na ocasião, os policiais da força-tarefa disseram desconhecer os fatos na fazenda.

Procurada nesta segunda-feira (25), a Secretária de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) confirmou que as pessoas carbonizadas eram funcionários da fazenda: um casal de caseiros e um tratorista. A fazenda está situada nas imediações da vicinal da Martins, na zona rural de Baião, distante 80 km da cidade de Tucuruí. Está distante a 14 km do assentamento Salvador Allende. Segundo a Segup, a morte da ativista não teria relação com o crime na fazenda.

Já nesta terça-feira (26), a Polícia Civil apontou Rosa Filho como sendo a pessoa que encomendou as mortes dos funcionários e da ativista. Conforme as investigações, as mortes dos funcionários teriam como motivação uma questão trabalhista. Sobre o assassinato de Dilma Silva, a Segup informou que nesta quarta-feira (27) o secretário Ualame Machado concederá uma coletiva à imprensa par falar das investigações.

Fazendeiro foi denunciado em 2018

A Polícia Civil do Pará disse que o fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho, também conhecido como “Fernandinho Shalon”, foi preso em Tucuruí. Ele é proprietário de imóveis rurais, hotéis e supermercados na região de Novo Repartimento, no sudeste do estado. Natural de Marabá, ele cumpre a prisão temporária, por 30 dias, no Centro de Recuperação Regional de Tucuruí. A reportagem não localizou o advogado do fazendeiro para falar em defesa dele.

Ao fazer buscas no site da Justiça do Pará, a agência Amazônia Real localizou uma ação penal em que o fazendeiro Rosa Filho foi denunciado por homicídio contra três pessoas, em 2018, pela Comarca de Novo Repartimento. Os nomes das vítimas estão em segredo de justiça e o crime aconteceu em 2017.

No início de janeiro deste ano, segundo agricultores ouvidos pela reportagem, o fazendeiro foi acusado de atirar contra uma liderança da Frente Nacional de Lutas de Campo e Terra (FNL). A liderança, que sobreviveu ao ataque, seria responsável por uma ocupação de sem-terra na fazenda dele nas imediações da vicinal da Martins, em Baião. O caso, no entanto, não foi investigado, diz o agricultor, que pediu para não ter o nome revelado por medo.

Dos quatro irmãos Alves, Cosme, Glaucimar e Marlon também respondem processos por crime de homicídio na Justiça do Pará, executados entre os anos de 2010 e 2013. Marlon é atualmente foragido da justiça.

Crime brutal

Protesto das mulheres atingidas por barragens em Tucuruí | Foto: MAB

O coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Iury Paulino, disse à reportagem que, durante uma reunião com o secretário de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup), Ualame Machado, nesta terça-feira (26), foi comunicado sobre as medidas que estavam sendo tomadas nas investigação da morte da ativista Dilma Silva. “Ele [Ualame] recebeu uma ligação e depois anunciou que a chamada era pra confirmar a prisão do mandante do assassinato.”

Sobre a prisão do fazendeiro Rosa Filho, que ocorreu em menos de cinco dias depois do início da onda de assassinatos em Baião, o MAB considerou esta como sendo “uma resposta rápida”.

Para Iury Paulino, a motivação das mortes no assentamento Salvador Allende “estão diretamente ligadas à luta por direitos”, porque tudo leva a crer, segundo ele, que foi um crime planejado e com “tamanha brutalidade”.(Colaborou Pedrosa Neto)

Reportagem originalmente publicada no site Amazônia Real.

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