‘Preciso achar uma mulher igual minha mãe: que apanhe quieta’, diz humorista

17/06/19 por Kaique Dalapola

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Piadas de Dihh Lopes, que integra os grupos ‘4 Amigos’ e ‘Comédia Ao Vivo’, foram repudiadas pela OAB-SP por também fazer brincadeiras com as vítimas do massacre em escola de Suzano, com 10 pessoas mortas

Declaração aconteceu durante show de stand-up, quando o humorista se apresenta de cara limpa (sem uso de personagens) para o público | Foto: Reprodução

“Meu pai ensinou o segredo para ter um bom casamento. Sabiam, senhoras e senhores?! Agora só preciso achar uma mulher igual a minha mãe: que apanhe quieta”. Essa é uma das falas do humorista Dihh Lopes durante o quarto episódio de seu projeto denominado “Piadas para a Família”, apresentado durante os shows que faz de stand-up comedy e publicado semanalmente no YouTube.

Conhecido por fazer comentários sem pudor sobre crimes e histórias negativas que chamam atenção da sociedade, como os casos Nardoni (que o pai e a madrasta teriam jogado a filha da janela do apartamento da família) e Von Richthofen (no qual a filha, Suzane, matou os pais com a ajuda do namorado e o irmão dele, os Cravinho), Dihh Lopes criou o quadro que faz apenas o que ele chama de “humor negro”.

Para justificar as falas sobre temas como agressão contra mulheres, pedofilia, brincadeiras com doenças, entre outras coisas, um selo no vídeo diz que “piada é piada — não expressa a opinião do comediante”. Este selo apareceu pela primeira vez no vídeo publicado no dia 3 de junho, que é o terceiro do quadro. O aviso aconteceu, possivelmente, porque o humorista foi alvo de críticas após a publicação do segundo episódio do projeto.

No segundo vídeo do quadro, publicado dia 27 de maio, o tema é “escola” e Dihh Lopes faz piadas com as vítimas do massacre na escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, no dia 13 de março deste ano. Entre os comentários sobre o ataque que deixou 10 mortos — sendo cinco adolescentes —, o humorista diz que a culpa foi das vítimas. “Isso nunca ia acontecer comigo, porque eu sempre ouvi os conselhos da minha mãe de não aceitar balas de estranho”, disse.

Com a reação de espanto do público, Dihh Lopes se justificou dizendo que está apenas “fazendo as piadas, a culpa é de Suzano, que é um lugar perigoso”. O vídeo publicado no canal do comediante tem seis minutos e 26 segundos e conta, até a publicação desta reportagem, com quase 600 mil visualizações.

Para a promotora de Justiça Fabiana Paes, do Gevid (Grupo de Apoio Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica), o vídeo “é de mau gosto”, mas ela acredita que a solução seja o amadurecimento da sociedade para não achar mais engraçado piadas racista e machistas, por exemplo. “Estamos em um momento que deve se primar a liberdade de expressão, ser contra a censura na arte”, afirma Fabiana. A promotora afirma que a arte é naturalmente transgressora, “mas alguns artistas extrapolam”.

OAB de Suzano repudia ‘piada’

Uma semana depois da publicação do vídeo em que Dihh Lopes fez o que chama de piadas sobre a escola de Suzano, em 3 de junho, a subseção da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil) no município publicou uma nota de repúdio ao comediante.

“A Comissão de Direitos Humanos e a Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente, manifestam veemente repúdio às falas do comediante ‘Dihh Lopes’ em sua apresentação de stand-up comedy intitulada ‘Piadas para a Família – Escola’, proferidas diante de diversas pessoas e publicada em sua rede social”, declarou o órgão.

A entidade disse que “é lamentável que um artista se utilize de um evento violento e dramático, que deixou feridas nas famílias das vítimas e nos membros da sociedade, para fazer piadas e tentar arrancar o riso”.

No mesmo vídeo que brinca com a chacina na escola de Suzano, Dihh Lopes fala em tom de brincadeira sobre temas como pedofilia e bullying, além de fazer piadas com portadores de Aids e gêmeos siameses.

Considerando isso, a subseção da OAB-SP de Suzano diz que “é inadmissível qualquer pessoa se valer de uma tragédia, que traz à tona diversos assuntos importantes, como violência nas escolas, o bullying, a segurança, entre tantos outros, como catálogo para piadas em um show”, posiciona-se.

A nota da OAB-SP afirma ainda que tem ciência que os comediantes escolhem diferentes temas para suas paresentações, mas “é necessário que se entenda que a liberdade de expressão não é direito à ofensa”.

O que pensa o humorista

Em 2019, Dihh Lopes está completando 10 anos de apresentações em stand-up. Atualmente, o humorista está em cartaz com o show “Eu poderia ter ficado quieto”, que inclui o polêmico quadro, e também faz parte de dois conhecidos grupos de comediantes: o 4 Amigos e o Comédia Ao Vivo.

Antes mesmo do “Piadas para a Família” ser lançado, o humorista já havia se envolvido em polêmicas. Em fevereiro deste ano, por exemplo, organizações de capoeiristas se manifestaram contrárias ao comediante que havia feito piadas agressivas à capoeira. Pouco depois da polêmica, Dihh Lopes reuniu um grupo de capoeiristas para se justificar.

“Existe uma distância imensa entre o que eu acho engraçado, acho que é piada, e o que é minha opinião. Obviamente, não é a minha opinião o que eu falei. Vocês acham mesmo que eu acho uma merda a capoeira? Acha que eu não respeito vocês?”, disse aos capoeiristas no vídeo publicado em 20 de fevereiro.

Frequentemente ao longo de suas apresentações, Dihh Lopes demonstra que tem consciência da gravidade de seus comentários. Nos próprios vídeos do quadro “Piadas para a Família”, o humorista destaca os possíveis riscos do conteúdo.

Além do selo, dizendo que “piada é piada”, ao longo de toda a apresentação no terceiro e quarto episódio do quadro, um aviso é lido no início de cada vídeo, advertindo que “não é recomendado para você que é chato e confunde opinião com piada”. A mensagem segue: “Como diz o título, são piadas e elas não expressam a opinião do comediante. Agora, se você gosta de todo tipo de piada, assista até o final, porque já garantiu o seu lugar no inferno”.

O humorista também fala para seus espectadores que eles estão prestes a ouvir piadas polêmicas: “Sejam bem-vindos ao primeiro ‘Piadas para a Família’, que é o quadro que provavelmente [vai fazer] minha filha perder a faculdade, porque eu vou tomar um processo. Mas eu estou muito afim de fazer, e a plateia aqui é ótima”, disse na estreia, publicado no YouTube no dia 20 de maio.

No segundo episódio, novamente Dihh Lopes comentou: “Esse quadro com certeza vai fazer eu ser preso”. No terceiro vídeo, com o tema esporte, publicado em 3 de junho, ele diz que vai “começar mais um desse quadro que o Brasil já aprendeu a odiar”. No último, ele inicia dizendo que o quadro “vai fazer com que eu apanhe em algum momento da minha vida, mas o Brasil aprendeu a amar”.

Um dia após as piadas do humoristas serem repudiadas pela OAB-SP, em 4 de junho, o Hillarius Comedy Bar, onde Dihh Lopes gravou o quadro, publicou uma nota (íntegra abaixo) dizendo “apoiar e incentivar o humor e a liberdade de expressão”. O comediante compartilhou a nota e reforçou o apoio recebido pelo estabelecimento.

A Ponte tentou contato com Dihh Lopes por meio de seus canais de comunicação disponibilizados e pela A.LF Produções, que faz a assessoria do comediante. O pedido de entrevista, no entanto, não foi respondido até a publicação desta reportagem.

Leia a nota do Hillarius Comedy

“Comunicamos que toda a vida do Hillarius Comedy Bar foi dedicada a apoiar e incentivar o humor e liberdade de expressão. Por isso, recebemos humoristas de todo o Brasil em nossa casa.

Claro que não somos responsáveis pelo conteúdo de suas piadas, mas sabemos que todos eles lutam para manter o bom humor e alegria nas nossas noites, mesmo com todos os desafios que a nossa realidade emprega diariamente em nossas vidas.

Em respeito ao trabalho de todos os humoristas brasileiros, abrimos nossas portas e recebemos cada um deles com muita admiração, porque sabemos que este trabalho não é fácil. Por isso, não fecharemos as portas para aqueles que sempre lutaram para manter um sorriso vivo em nossos rostos.

E para hoje, um pedido: mais leveza, mais alegria e mais respeito… entre todas as partes.”

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